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sábado, 19 de Julho de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (1ª parte)

Tal como já aconteceu no verão anterior com a divulgação de forma faseada, durante cerca de dois meses e meio, de um artigo de David Pratt sobre o Conde de St. Germain, o Lua em Escorpião irá publicar durante as próximas dez semanas um extenso texto da autoria do professor James A. Santucci intitulado “A Teosofia e as Sociedades Teosóficas”. Tendo em conta a temática normalmente abordada no blogue, com um grande enfoque na Teosofia, talvez fizesse sentido que este texto fosse publicado há muito mais tempo. Assim não aconteceu, mas julgamos que a espera compensou.


Prof. James Santucci

Santucci é um académico e portanto o texto é genericamente muito claro, direto,  descrevendo as (muitas) controvérsias e fricções no movimento teosófico de modo imparcial, optando por um registo descritivo. É também por esta razão um documento importante e precioso, pois muitos teosofistas que abordam esse tipo de assuntos têm o mau hábito de apresentar os factos que encaixam nos seus “pré-conceitos”.


Antes de entrarmos na tradução propriamente dita, dois agradecimentos, o primeiro dos quais ao Ivan Silvestre, que se disponibilizou para fazer a revisão da tradução. Jan Nicolaas Kind, editor do site Theosophy Forward, onde está alojada a última versão do artigo – exatamente a que foi usada para fazer a tradução para português – autorizou essa tradução (em consonância com o prof. Santucci com que também contactámos), bem como a utilização das fotos que acompanham o artigo que Kind disponibiliza em versão e-book no Theosophy Forward. É para ele que vai o nosso segundo agradecimento.





A TEOSOFIA E AS SOCIEDADES TEOSÓFICAS

Dr. James A. Santucci


O Dr. James A. Santucci é um Professor de Religião Comparada na California State University, Fullerton. Fez o seu doutoramento na Australian National University (Canberra, Austrália) em Civilização Asiática, com ênfase nos Vedas. É o editor da revista Theosophical History e de Theosophical History Occasional Papers e o autor de La società teosofica e An Outline of Vedic Literature.

Versões ou excertos deste artigo foram publicadas em: Syzygy 6.1-2 (Winter-Fall 1997): 221-45; em The Encyclopedia of Cults, Sects, and New Religions, ed. James R. Lewis (Amherst, NY: Prometheus Books, 1998): 388–9 (2nd ed.: 573), 476 (2nd ed.: 722-3), 480-3 (2nd ed.: 727-30), 483-7 (2nd ed.: 730–4), 503-5 (2nd ed.: 760-2), e 527-8 (2nd ed.: 802-3); e em Odd Gods, ed. James R. Lewis (Amherst, NY: Prometheus Books, 2001), 270-89. Esta versão foi atualizada em 2013 graças aos esforços de Janet Kerschner (Arquivista da Sociedade Teosófica na América, Wheaton, Illinois), S. Ramu (Diretor Geral, Theosophical Publishing House, Adyar), Kenneth Small (Point Loma Publications) e Jan Nicolaas Kind (Theosophy Forward). [Foi ainda editado para publicação na Internet por John Algeo.]

Notas da reunião de 8 de setembro
 de 1875 em Nova Iorque onde se
propôs a constituição da
Sociedade Teosófica



Teosofia

O movimento teosófico moderno está hoje representado nos Estados Unidos, principalmente através de seis organizações: a Sociedade Teosófica, sedeada internacionalmente em Adyar, Chennai, Índia; a Sociedade Teosófica sedeada em Pasadena, Califórnia; a Loja Unida de Teosofistas, constituída em Los Angeles, Califórnia; o Templo do Povo, com sede em Halcyon, perto de Pismo Beach, Califórnia, a Word Foundation de Dallas, Texas e a Publicações Point Loma em San Diego, Califórnia. Destes grupos, a Sociedade de Adyar é considerada pela maioria (embora não por todos) dos teosofistas como a organização matriz. Todos afirmam disseminar Teosofia, um termo popularizado e definido por Helena Petrovna Blavatsky (1831-91), como a sabedoria das eras, incorporando “conhecimento esotérico superior” – portanto, uma “Doutrina Secreta” – parcialmente recuperável de forma imperfeita e incompleta naquelas partes das escrituras das grandes religiões mundiais que expressam ensinamentos místicos e naquelas filosofias que evidenciam uma inclinação monista ou panteísta.


Helena Petrovna Blavatsky



História inicial


A Sociedade Teosófica foi fundada em Nova Iorque em 1875 tendo Henry Steel Olcott (1832-1907) como seu primeiro presidente, H.P. Blavatsky como sua primeira secretária correspondente, George Henry Felt e Seth Pancoast como vice-presidentes e William Quan Judge (1851-96) como conselheiro para a Sociedade. Inicialmente proposta a 7 de setembro pelo Cel. Olcot, a sociedade – intitulada “A Sociedade Teosófica” a 13 de setembro – iniciou a sua atividade a 17 de novembro com o discurso presidencial de Olcott.

Menos de três anos depois, em maio de 1878, a Sociedade Teosófica ligou-se a uma organização reformista hindu conhecida como Arya Samaj, liderada pelo Swami Dayananda Sarasvati (1824-83), cuja promoção dos Vedas – as antigas escrituras das tribos Arianas do Norte da Índia compostas entre 1600 e 500 A.C – como fonte da Verdade funcionou como alicerce da sua tentativa de fazer regressar o Hinduísmo a uma forma mais pura, livre de práticas e ensinamentos corrompidos que surgiram posteriormente, tais como a poligamia, casamento com menores, castas, sutee [NT: antigo costume, hoje proibido que obrigava a viúva a se sacrificar viva na fogueira do seu marido morto] e politeísmo. Devido às diferenças que surgiram depois de alguns meses de ligação – uma das quais era a adoção por parte do Swami de um deus pessoal supremo, uma proposição que não era aceitável por parte de muitos dos membros da Sociedade Teosófica – foi decidido modificar a associação distinguindo 3 organismos: (1) a Sociedade Teosófica, (2) a Sociedade Teosófica de Arya Samaj de Aryavarta, uma “sociedade de ligação” e (3) a Arya Samaj. Existiam diplomas separados para cada uma, com os membros de (2) a pertencerem simultaneamente a (1) e (3). Em 1882, todas as ligações foram quebradas devido aos ataques dirigidos aos teosofistas pelo Swami Dayananda em resposta aos seus líderes, Olcott e Blavatsky, se terem associado a Budistas e Parses e ao facto de se terem convertido formalmente ao Budismo no Ceilão (Sri Lanka) ao receberem o pansil (pancasila), “os Cinco Preceitos” em maio de 1880. Por esta altura, a sede da Sociedade Teosófica foi mudada por H.S. Olcott e H.P. Blavatsky primeiro para Bombaim, no início de 1879, e depois para Adyar, Madras (agora Chennai) em dezembro de 1882.


Henry Steel Olcott
Continua na próxima semana.

sábado, 12 de Julho de 2014

Três tipos de Karma (2ª parte)

Continuamos a tradução do texto "Três tipos de karma" da revista "The Theosophical Movement", iniciada na semana anterior.


B.P. Wadia, fundador da revista
"The Theosophical Movement"

"Isto também implica que a pessoa que fez, de forma sincera, um voto para purificar a sua natureza irá experienciar bons e maus efeitos súbitos, que de outro modo espalhar-se-iam durante muitos mais dias ou anos sob a forma de vários pequenos acontecimentos.

Agami é aquele karma que estamos a construir na vida atual, cujos efeitos serão sentidos nesta ou em futuras encarnações. É gerada pelos nossos pensamentos, sentimentos, palavras e ações, no quotidiano. Prarabdha karma é a porção ou aspeto do karma que está em operação na vida e corpo presentes, desde o nascimento, trazendo consigo todas as circunstâncias e mudanças. O Destino é o karma que amadureceu, não podendo, a sua expressão, ser evitada ou adiada. Por exemplo, não podemos mudar o sexo, família, nação ou raça na qual nascemos. O karma que é irreversível pode ser chamado de destino. O Sr. Judge define o Destino desta forma:

"Destino é a palavra aplicada a um karma tão forte e avassalador que a sua ação não pode ser contrariada por outro karma; mas no sentido em que todos os acontecimentos são dependentes do karma, tudo o que acontece está destinado."

O Destino é o karma em ação. (imagem examiner.com)

Na ausência do conhecimento da lei do karma descrevemos certos acontecimentos inevitáveis referindo: “Isto estava destinado”. Mas o destino é apenas a operação de determinadas causas poderosas, de modo a que nenhuma ação nossa ou qualquer outro karma possa evitar ou modificar o resultado. Para um karma deste género podemos afirmar, “o que não pode ser resolvido, deve ser suportado.” Experienciamos os efeitos do karma desta vida, bem como de vidas anteriores. O que experienciamos é o resultado do balanceamento de diversas causas kármicas.

O karma não opera sob o princípio de uma causa produzir um efeito; várias causas podem ser precipitadas em simultâneo. Da mesma forma, uma causa poderosa pode produzir efeitos em mais do que uma direção. Existe a lei do paralelograma das forças, onde as boas e más causas podem contrabalançar-se completa ou parcialmente e o que experienciamos é o resultante. Assim, atos de amor podem, até certo ponto, mitigar a severidade das consequências kármicas.

Temos ainda a doutrina da anulação do karma. De acordo com a bem conhecida lei da física, duas forças equivalentes opondo-se mutuamente, equilibram-se. “Uma pessoa pode ter na sua conta-corrente kármica uma causa muito desagradável e ao mesmo tempo uma causa de característica oposta. Se se manifestam ao mesmo tempo, poderão se contrariar mutuamente, nenhuma será visível e o equilíbrio será a compensação de ambas”, explica o Sr. Judge. Ele acrescenta que não é necessário que sintamos cada parcela de karma com o mesmo detalhe com que foi produzida, porque diversos tipos de karma podem se precipitar em simultâneo numa altura da vida, e o seu efeito combinado produz um resultado que, embora como um todo represente de forma precisa todos os elementos presente nele, ainda assim é um karma diferente de cada componente particular.

William Quan Judge, um dos
fundadores da Sociedade Teosófica

Existem três categorias de karma, porque o karma opera nos planos físico, psíquico e moral. Uma pessoa deformada com uma boa mente tem karma desagradável operando no seu corpo, estando karma positivo a ser experienciado na sua natureza intelectual. Para entender a anulação do karma devemos nos recordar que como não se podem somar libras e euros, ou libras e dólares, da mesma forma, ao contrariar karma negativo com karma positivo é essencial que ambos os tipos de karma sejam compatíveis. Dessa forma, parece que os resultados de ações feitas principalmente no plano mental não podem ser mitigados ou obliterados por ações produzidas no plano físico. Por exemplo, uma pessoa que passou muitos anos da sua vida torturando mentalmente outro ser humano não pode esperar anular esse ato dando grandes quantias de dinheiro aos pobres. Caridade feita a partir de um excedente, sem nenhuma preocupação particular pelos pobres, ou ainda pior, apenas com a intenção de ganhar mérito (punya), não pode trazer aperfeiçoamento do caráter moral.

Também é verdade que o karma manifesta-se em harmonia com o plano do desejo. Quando temos desejo por dinheiro, fama, reconhecimento, etc… - centrado no plano inferior, criamos um “centro de atração” nesse plano. Isto irá causar que o karma passado se manifeste nesse plano. Por outro lado, no caso de uma pessoa que tem desejos mais puros e que aspira ao mais elevado, fixa o “centro de atração” no plano superior. As energias no plano inferior são para aqui atraídas, o que resulta num aumento de espiritualidade. Assim, por exemplo, se gerámos bom karma dando grandes donativos em vidas passadas, e se o nosso coração está determinado em adquirir conhecimento espiritual então o mesmo bom karma do passado no plano físico irá manifestar-se no plano superior e podemos dar-nos conta de que somos ajudados, conseguindo o tipo certo de livros, um lugar calmo para meditação e estudo, e assim por diante.

O destino de hoje (prarabdha) resulta das nossas escolhas no passado. A escolha de hoje tece o nosso destino futuro. Se um homem toma a decisão de ir na direção correta, avança, se acontece o contrário, retrocede. O destino é tecido nas mentes dos homens com bons e maus pensamentos. Com o Agami Karma sendo gerado agora, podemos mudar o saldo do nosso karma acumulado. Além disso, quando o karma amadureceu e começou a se precipitar, podemos experienciar os seus efeitos com a atitude certa. Contudo, “aceitação” não deve ser equivalente a passividade ou impotência. Se formos capazes de mudar a situação, devemos fazer tudo o que está ao nosso dispor para modificá-la. Não é suposto permanecermos pobres, deficientes, ignorantes, fracos, oprimidos, ou em qualquer outra situação de sofrimento. Podemos usar a situação como matéria-prima e extrair as lições necessárias. Pode consistir em aprender as lições de firmeza e simpatia, ou desprendimento e paciência, e assim por diante. Um dos aforismos sobre o karma assinala que na vida presente podemos tomar medidas para reprimir tendências erradas e eliminar defeitos. Quando são feitos esforços intensos, a influência da tendência kármica é diminuída. O karma coloca-nos onde temos que estar, mas não nos prende."

sábado, 5 de Julho de 2014

Três tipos de Karma (1ª parte)

O texto desta semana foi retirado do número de abril de 2014 da publicação da Loja Unida de Teosofistas (LUT) “The Theosophical Movement”. Este boletim mensal editado pela LUT da Índia, também disponibilizado na internet, é uma das publicações regulares de maior qualidade existentes no meio teosófico, recomendando-se vivamente a sua leitura. Foi B.P. Wadia - o líder mais carismático da LUT a par do fundador Robert Crosbie – quem iniciou a publicação de “The Theosophical Movement” em 1930.


B.P. Wadia (1881-1958)

Avancemos agora para a tradução do excelente artigo “Três tipos de karma”. As ilustrações que intercalam o texto foram colocadas por mim, não fazendo parte do texto original.


Três tipos de karma

Karma é a lei de ação e reação; de causa e efeito. A lei do Karma ajusta cada efeito à sua causa e restabelece o equilíbrio perturbado. O Karma pode ser de três tipos: Sanchita, Agami e Prarabdha. Há uma bela analogia na literatura Vedanta. O arqueiro já disparou uma flecha que saiu das suas mãos. Não pode recuperá-la. Está prestes a disparar outra flecha. O conjunto de flechas da aljava nas suas costas é sanchita; a flecha que ele disparou é prarabdha e a flecha que está prestes a disparar do seu arco é agami. Destas, ele tem controlo sobre sanchita e sobre agami, mas tem seguramente de resolver o seu prarabdha. Tem que experienciar a pressão do passado que começou a se manifestar.

Sanchita karma é aquele que está acumulado e que não está a operar no momento, porque não existe o ambiente ou as condições apropriadas para trazê-lo à ação. É como o vapor em suspensão na atmosfera, que irá cair na terra como chuva, quando as condições forem as propícias. Quando plantamos diferentes variedades de sementes, elas crescem e dão fruto em diferentes alturas. O morangueiro ou a macieira darão fruto apenas na estação certa. Por sua vez, o mangueiro apenas dará fruto depois de muitos anos. Da mesma forma, o stock completo de karma não pode dar fruto todo de uma vez. Patanjali descreve o “karma acumulado” como resíduos mentais. Sentimos o efeito dos resíduos mentais criados pelos nossos pensamentos, ações e sentimentos de vidas passadas ou presentes, quando obtivermos o tipo correto de enquadramento mental ou corporal e o ambiente adequado para trazê-lo à ação. Algumas causas kármicas são mantidas em suspenso por pouco tempo, vindo a ser concretizadas rapidamente. Desta forma, por exemplo, comer demasiado ou ingerir comida estragada pode causar dores de estômago em poucas horas. Alguém que seja um fumador inveterado ou masque tabaco pode contrair cancro oral ou do pulmão numa idade mais avançada. Contudo, alguns atos não produzem frutos nesta vida, e aparentemente a pessoa passou incólume, mas na verdade não é esse o caso. Tais atos de uma vida são como as flechas disparadas do arco, agindo sobre nós na vida seguinte, produzindo as nossas recompensas e punições. É-nos dito que até que o instrumento apropriado seja encontrado, o karma relacionado permanece inesgotado. Por exemplo, enquanto alguém está no corpo de um homem, não pode ter a experiência da maternidade; quando alguém usufrui de um intelecto brilhante como resultado de bom karma mental de uma vida passada, não é possível experienciar a imbecilidade. Da mesma forma, uma pessoa desfrutando de riqueza como resultado de bom karma passado não pode, ao mesmo tempo, experienciar pobreza .




O Sr. Judge descreve Sanchit Karma como aquilo que ainda não começou a produzir qualquer efeito nas nossas vidas devido à ação de outras causas kármicas. Somos capazes de entender isto com base na lei da Física que diz que duas forças opostas tendem à neutralidade, e que uma força pode ser suficientemente poderosa para evitar temporariamente a ação de outra. Assim, o karma pode ser adiado desde vidas passadas e na vida atual, até o karma obstrutivo ser removido.

Da mesma forma que não vamos para as compras levando connosco todo o nosso extrato bancário, também o nosso Ego nasce apenas com uma porção de resíduos mentais ou causas kármicas, que ele tem de esgotar agora. Podemos chegar a uma altura na vida onde todas as causas anteriores se esgotam, e então novo karma ou karma não esgotado começa a operar. Assim, encontramos em certos casos, súbitos reveses da sorte, onde há mudanças para melhor ou para pior, seja nas circunstâncias ou no caráter. Às vezes o karma do Ego é suficientemente poderoso para fazê-lo nascer numa família pobre, mas nessa altura, novo karma começa a operar e a criança é adotada por pais abastados, e portanto colocada num ambiente diferente. O Sr. Judge ilustra isso com um sonho estranho de um Rajá, interpretado por um adivinho como tendo o Rajá de dar uma grande quantia de dinheiro à primeira pessoa que ele visse depois de acordar no dia seguinte, pretendendo o adivinho estar no local bem cedo. No dia seguinte, o rei levantou-se invulgarmente cedo, e quando se aproximou da janela viu um candala [hindu sem casta] varrendo a sujidade. Deu-lhe a sua fortuna, erguendo-o, num segundo, da pobreza abjeta à abundância.

Um aforismo sobre o karma diz que “enquanto um homem experiencia o karma no instrumento que lhe foi fornecido, o seu outro karma, ainda não manifestado não é esgotado por outros seres ou meios, mas é mantido em reserva para operar futuramente. Durante este lapso de tempo não é sentida qualquer operação daquele karma, o que não causa deterioração na sua força ou alteração na sua natureza.” Desta forma, a força do karma acumulado não se tornará mais forte nem será diluído devido ao lapso de tempo. A adequação do instrumento é determinada pela relação exata do karma com o corpo, mente e natureza intelectual e física adquiridos para utilização pelo Ego nessa vida particular.




Contudo, podem ocorrer mudanças no instrumento de modo a que o mesmo se torne adequado para a precipitação de karma acumulado ou de uma nova classe de karma. Tal mudança na constituição física, mental ou psíquica de uma pessoa pode ocorrer quer devido à intensidade de pensamento e do poder de um voto, ou devido à alteração natural resultante da completa exaustão de velhas causas, diz um aforismo sobre o karma. Então, quando uma pessoa decide tornar-se um engenheiro, ou um médico, ou um dançarino e avança nessa direção, todas as faculdades relacionadas com esse campo começam a ser treinadas e desenvolvidas. Portanto, as naturezas física, mental e psíquica são desenvolvidas de forma a fornecer o instrumento adequado com vista ao exercício dessa arte ou tema. Quando decidimos – através de um juramento ou de um voto – viver a vida espiritual, todos os aspetos da nossa natureza, sejam nobres ou de outra índole, começam a se desenvolver. Além disso, neste caso há uma precipitação mais rápida do karma. Aquele que se predispõe a trepar ao mundo do Espírito tem de enfrentar não apenas o seu Prarabdha Karma – aquela porção de karma com a qual nascemos, ou seja, o karma para cuja precipitação o terreno está preparado –  mas, devido à sua nova decisão de romper as limitações do Karma, ele rasga um canal através do qual algum do karma acumulado conhecido como Sanchita Karma começa a fluir tornando-se Prarabdha.

Continua na próxima semana.

sábado, 28 de Junho de 2014

Conferência Internacional de Teosofia/2014…aproxima-se!

Esta é a tradução para português da newsletter posta a circular ontem pela organização das Conferências Internacionais de Teosofia.


Entre 15 e 18 de agosto de 2014 todos os caminhos vão dar ao Centro Teosófico Internacional de Naarden, Holanda, um retiro espiritual maravilhosamente localizado e que inspira a paz e a fraternidade.

O tema da conferência será:

“Teosofia, Unidade e a Ajuda ao Mundo…E a partir daqui, por onde vamos?

A conferência inicia-se na tarde da sexta-feira, 15 de agosto, com uma palestra de abertura para dar o mote, com a carta do Maha-Chohan como diretriz para esta exposição.


Imagem aérea de Naarden


Cada dia da conferência irá começar com preleções introdutórias. Depois das mesmas, os participantes nos workshops farão o trabalho mais importante e exigente. Os resultados dos workshops serão apresentados em sessões plenárias para comentários e reações, como input para o produto final do encontro: “A declaração de Naarden da ITC 2014”. Além disso, o cerne do programa da ITC em Naarden irá consistir de três partes: Religião, Filosofia e Ciência.

Os objetivos para esta conferência são:


1. Assegurar que se mantém a Teosofia viva para as gerações futuras, ou seja, não com um regresso a Blavatsky, mas indo para diante com Blavatsky.

2. Juntar representantes de organizações teosóficas e estudantes de Teosofia que estão comprometidos a divulgar a Teosofia conforme explanada por H.P.B. e os Mestres.


3. Intensificar os laços fomentando intercomunicação com significado entre todas as organizações teosóficas, não esquecendo os teosofistas independentes.


4. Trocar ideias e melhores práticas sobre como apresentar a Teosofia de um modo acessível e inspirador.


Oradores:

Tim Boyd - Orador principal

                                     


Tim Boyd desempenha presentemente o cargo de presidente internacional da Sociedade Teosófica-Adyar. Em abril passado foi eleito como sucessor de Radha Burnier, tendo nascido em Nova Iorque em 1953. Filiou-se na ST na América (STA) em 1974.

Esteve envolvido em trabalho teosófico em todos os níveis: como membro de uma loja, fundador de um centro de estudo, membro da direção nacional da STA, vice-presidente e presidente da STA e agora como presidente internacional da ST.

O envolvimento de Tim com a Ordem Teosófica de Serviço e com o orfanato de Chushul no Tibete conduziu-o a uma audiência com o Dalai Lama, que por sua vez resultou na visita deste a Chicago em julho de 2011, que foi patrocinada pela STA – um evento de dois dias a que assistiram dez mil pessoas.

Tim viajou por todos os EUA, visitou as Caraíbas, países na América Central e do Sul, deu palestras em Singapura, na Índia e na Nova Zelândia sendo autor de muitos artigos e tendo trabalhado durante toda a sua vida pela Teosofia.


Barend Voorham – Religião


Barend Voorham é professor há 35 anos e membro da Sociedade Teosófica de Point Loma-Blavatsky House-Haia, desde 1981. É um estudante ativo na sua Loja, dá palestras em várias cidades da Holanda, e ministra cursos tais como “Pensando de modo diferente” e “A Sabedoria da Vida”. É editor quer da versão em holandês, quer da versão em inglês da revista Lucifer e ajuda a organizar o simpósio anual da ISIS. Não se importa com o trabalho que tenha que fazer, desde que possa contribuir para disseminar a Teosofia.


Betty Bland – Religião



Betty Bland foi a anterior presidente da Sociedade Teosófica na América e desempenha presentemente um cargo na direção da Ordem Teosófica de Serviço (OTS) e no Theosophical Book Gift Institute. Está filiada na ST-Adyar. Sendo uma trabalhadora ativa na Sociedade desde 1970, a sua tónica continua a ser a da aplicação prática dos princípios teosóficos.


Eugene Jennings – Filosofia



Eugene Jennings é um associado da Loja Unida de Teosofistas. Tem sido um associado ativo da LUT desde meados de 1970, ao mesmo tempo que apoiava a loja e a disseminação dos ensinamentos teosóficos originais conforme expostos por H.P. Blavatsky, os seus Grandes Mestres e William Q. Judge. Apresentou as ideias e ensinamentos teosóficos quer internamente nos Estados Unidos, quer em viagens internacionais. As suas tarefas diárias como profissional incluem lidar com pessoas como médico e psiquiatra.


Trân-Thi-Kim-Diêu – Filosofia


Nascida no antigo Vietname do Sul, atualmente é cidadã francesa. Membro da ST-Adyar desde 1972. Pós-graduada em Tecnologia farmacêutica.

Secretária Geral da ST da França desde 2009. Ministra cursos na sede de Paris desde 1987. Presidente da Federação Europeia desde 1995. Ajuda a publicar literatura teosófica em russo, húngaro, estoniano, esloveno e croata. Reavivou as atividades da ST na Europa Oriental (particularmente na Rússia e na Ucrânia).

Oradora-convidada das Escolas de Verão, seminários, congressos da Escola Europeia de Teosofia, do Instituto de Krotona, nos EUA e da Escola de Sabedoria, em Adyar. Fez uma digressão pela Nova Zelândia, Singapura, Filipinas, Austrália, Canadá e deu palestras em Olcott, Wheaton.

Orienta regularmente retiros de meditação na Europa.


Joop Smits – Ciência


Joop Smits licenciou-se em Engenharia Mecânica na Universidade de Engenharia de Delft em 1978.

Passou a maior parte da sua carreira profissional no domínio dos portos e dos transportes e ambiente. Esteve envolvido na investigação e no desenvolvimento de programas em institutos científicos e os seus afazeres profissionais no estrangeiro expuseram-no ao contacto com diversas culturas na Europa, Ásia e Médio Oriente.

Tendo a convicção interior que a ciência, a filosofia e a religião podem ser colocadas em harmonia entre si, tornou-se um estudante de Teosofia em 1985. Desde 1987 é membro da ST Point Loma. Nas suas atividades incluem-se as palestras. Presentemente é o Presidente do Comité de Ciência das ITC.


Jacques Mahnich – Ciência


Jacques Mahnich passou a sua carreira profissional na indústria da engenharia aeroespacial, sendo especialista em sistemas de propulsão de aeronaves.

É membro da Sociedade Teosófica-Adyar francesa desde 1978. Presentemente é o presidente do ramo de Saint-Jean em Paris e orienta cursos de formação e conferências sobre Teosofia. Também é um membro ativo da OTS.

Jacques é o co-fundador de um blogue dedicado à investigação sobre a origem das Estâncias de Dzyan e está presentemente a desenvolver um projeto na internet para o estabelecimento de pontes entre a Ciência e as Tradições.


Jon Knebel – Painel da Carta do Maha Chohan


Jon Knebel é estudante de Teosofia há mais de vinte anos, trabalhando especificamente com as Cartas dos Mahatmas desde 2005. Orientou um grupo de estudos das Cartas dos Mahatmas na sede da Sociedade Teosófica na América, em Wheaton, entre setembro de 2011 e abril de 2014 e tem feito palestras sobre as Cartas nas lojas da STA e em grupos de estudo.

Jon também desempenha funções na direção da Ordem Teosófica de Serviço.

Esta é uma oportunidade única e excelente para encontrar teosofistas de diferentes origens, de forma a conhecê-los, a socializar e associar-se, a trocar ideias, a começar novas iniciativas e por fim, mas não menos importante, para se divertir. O valioso trabalho de H.P.B. é em última instância aquilo que congrega todos os teosofistas.

A Conferência está praticamente com os lugares esgotados, existindo ainda algumas vagas. Para evitar contratempos aconselhamos a se inscrever já!

Vá ao site do ITC e preencha a ficha de inscrição!

Por favor considerem a vinda à ITC para partilha da vossa riqueza teosófica.

Herman C. Vermeulen - Holanda
Jan N. Kind - Brasil (anfitriões)



sábado, 21 de Junho de 2014

A arte e o transcendente VI

51

Está em mim... não sei o que é... mas sei que está em mim.

Desfigurado e suado... calmo e fresco torna-se o meu corpo,
Durmo... durmo longamente.

Não o conheço... não tem nome... é uma palavra não proferida,
Não vem em nenhum dicionário, expressão, símbolo.

Algo gira sobre algo maior do que a Terra sobre a qual giro,
Aí a criação é o amigo cujo abraço me desperta.
Talvez possa dizer algo mais. Noções! Imploro pelos meus irmãos e irmãs.

Vedes, ó irmãos e irmãs?
Não é o caos nem a morte... é forma, união, plano... é a vida eterna... é a Felicidade.


48

Já disse que a alma não é mais do que o corpo,
E disse que o corpo não é mais do que a alma,
E nada, nem Deus, é maior para uma pessoa do que ela própria,
E quem caminha duzentos metros sem amar caminha amortalhado para o seu próprio funeral,
E eu ou tu que não possuímos um centavo podemos comprar o melhor que a Terra contém,
E olhar com um só olho ou mostrar um feijão na sua vagem desconcerta a aprendizagem de todos os tempos,
E não há ofício nem emprego em que um jovem não se possa converter em herói,
E não há delicado objecto que não possa servir de eixo às rodas do universo,

E digo a todos os homens e mulheres: que a tua alma permaneça tranquila e serena ante um milhão de universos.
E digo à humanidade: não sintas curiosidade por Deus,
Porque eu que tenho curiosidade por tudo não sinto curiosidade por Deus,
(Não há palavras que possam definir a paz que sinto em relação a Deus e à morte).

Escuto e contemplo Deus em cada objecto, ainda que não O entenda minimamente,
Nem entenda que possa existir alguém mais maravilhoso do que eu próprio.

Porque é que desejaria ver Deus melhor do que este dia?
Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e vejo-o em cada momento que passa,
Vejo Deus no rosto de homens e mulheres e no meu próprio rosto ao espelho,
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o seu nome,
E deixo-as onde estão pois sei que vá para onde for,
Chegarão sempre outras pontualmente.



"Canto de Mim Mesmo"
 Walt Whitman
(tradução de José Agostinho Baptista)


sábado, 14 de Junho de 2014

A controvérsia em torno do Glossário Teosófico (2ª parte)

Nesta segunda parte, veremos a resposta daqueles que recusam a ideia do Glossário Teosófico ser uma obra a evitar, considerando ao mesmo tempo legítima a ideia de Blavatsky ser apresentada como autora da obra. É naturalmente imprescindível ler a primeira parte, publicada a semana passada.

A contestação às ideias de Aveline sobre o Glossário

Depois da distribuição do texto de Aveline pelos canais habituais usados pelo grupo de estudantes congregado pelo teosofista brasileiro, a resposta não se fez esperar. Vamos abordar aqui duas dessas reações, a de Daniel Caldwell e a de Matthew Webb.

Caldwell é um veterano estudante de Teosofia, que gere o portal mais completo sobre HPB, o Blavatsky Study Center. Já editou vários livros, um deles traduzido para português - “O Mundo Esotérico de Madame Blavatsky”, editado no Brasil pela Madras. Mais recentemente Caldwell, editou “Laura Holloway e os Mahatmas” e antes “The Esoteric Papers of Madame Blavatsky”, que contém fac-similes de diverso material importante na história do movimento. Há ainda uma compilação de Caldwell para introdução à Teosofia em forma de e-book.




Na sua argumentação, Caldwell junta a questão do Glossário com a controvérsia (mais uma!)  em relação ao terceiro volume de “A Doutrina Secreta” (que corresponde ao quinto e sexto volumes na edição em língua portuguesa), publicado também já depois da morte de Blavatsky e que alguns consideram ter sido um acrescento da exclusiva responsabilidade de Besant e Mead. Outras questões delicadas afligem essa edição, a partir do qual foi feita a única tradução para português hoje existente.  Mas cada coisa a seu tempo; essa história será aqui trazida oportunamente.

Em 1891, quer Olcott, quer Besant falavam da preparação de um glossário “com termos em Sânscrito e outros noutras línguas orientais”.


Annie Besant, Cel. Olcott (sentado) e WQ Judge


Blavatsky, no prefácio da 2ª edição em inglês de “A Chave para a Teosofia” (a edição em língua portuguesa foi feita a partir da 1ª edição e não tem Glossário) escreve que adicionou “um copioso Glossário de todos os termos técnicos encontrados [em “A Chave”]. A maior parte das definições e explicações são transcrições ou abreviaturas do “Glossário Teosófico” maior, que será em breve publicado”. Isto foi escrito no outono de 1890, mais de meio ano antes da morte de HPB. Um a um, Caldwell desmonta os argumentos de quem sustenta, a não responsabilidade de Blavatsky na edição do Glossário.

HPB foi acusada de plágio, tendo William Emmette Coleman sido um dos principais detratores do trabalho da Velha Senhora. Ele identificou mais de 1 000 dos cerca de 2 800 termos como sendo copiados de outros livros. Essa avaliação foi confirmada por Boris de Zirkoff, embora a contabilidade dos termos supostamente plagiados tenha sido menor. Contudo no próprio prefácio do Glossário são explicitamente citados esses livros como fontes. Somado a isso, há a referir que Blavatsky fez inúmeros acrescentos da sua própria autoria, a maior parte de natureza ocultista.


De Zirkoff na capa da última
"Theosophia" (Foto:TS wiki)

Caldwell prossegue na sua argumentação, demonstrando que algumas definições no Glossário consideradas erróneas surgem quer em “A Chave para a Teosofia”, quer em “A Voz do Silêncio”, concluindo as suas observações da seguinte forma:

“Na elaboração dos manuscritos do “Glossário Teosófico”, Madame Blavatsky compilou definições de termos de mais de uma dúzia de livros académicos. Em vários das entradas deste material compilado, HPB adicionou a sua “interpretação ocultista” ou ponto de vista esotérico.

Muitos dos erros encontrados no Glossário são derivados de erros nos livros a partir dos quais HPB extraiu as definições."



À luz do acima expresso, conclui Caldwell, não existem razões para acusar GRS Mead de adicionar material ao manuscrito do Glossário Teosófico depois da morte de HPB.

Matthew Webb, um associado britânico da Loja Unida de Teosofistas é menos argumentativo, mas mais duro na apreciação desta controvérsia.

Na primeira parte do seu artigo, Webb constata o óbvio: “a declaração de que HPB só viu ‘as primeiras trinta e duas páginas das provas tipográficas’ não é a mesma coisa que dizer que ela somente viu as primeiras trinta e duas páginas do livro de 389 páginas [na versão em inglês, em português são 777]. Está-se simplesmente a dizer que ela não teve a oportunidade de verificar tudo o que havia escrito de forma a confirmar que estava pronto para publicação, nem tão pouco completar o volume com a amplitude que ela originalmente pretendia.”


HP Blavatsky

Webb continua: “Portanto o Glossário Teosófico não é de modo algum completo ou exaustivo – embora contenha muitas entradas para cada letra, de A a Z – nem são todas as entradas necessariamente exatas como poderiam ser se HPB tivesse vivido mais tempo e tivesse sido capaz de supervisionar a publicação do trabalho ela própria, e estes são factos que nenhum teosofista alguma vez negou.

O que negamos, contudo, é a afirmação ridícula e sem fundamento (…) de que o livro não deve ter o nome H.P. Blavatsky como sua autora.”

Referindo não ser esta uma crítica pessoal , nem negar a boa fé dos que defendem a visão que Webb denuncia, ele acrescenta não existir  uma “lógica clara por trás dela. Inferir que GRS Mead era ele próprio responsável pela maior parte das entradas do Glossário é dar um ilógico e gigantesco salto das afirmações feitas e factos verificáveis para uma conclusão manifestamente errónea.


Uma biografia de Mead
existente em português


O teosofista britânico releva a utilidade do Glossário, sendo também da opinião que de Zirkoff foi precipitado nas suas conclusões e que não pode ser imputada a Blavatsky responsabilidades por erros que ela não teve a oportunidade de corrigir.

Webb termina o seu artigo, afirmando que algumas pessoas deixaram a Teosofia de lado depois de lerem discussões do género em fóruns de Teosofia na internet, discussões essas muitas vezes em tons exacerbados.

“Embora o conhecimento académico, história e a investigação todas tenham o seu lugar, fazemos bem em relembrar o que é a Teosofia e o movimento teosófico, e dessa forma menos tempo e energia será despendido em assuntos em última instância irrelevantes e mais bem investidos no verdadeiro auxílio e serviço ao sofrimento humano.

O que HPB escreveu na Introdução de “A Doutrina Secreta” pode ser aplicado ao trabalho dela  em geral, o de que “foi escrito para a instrução dos estudantes de Ocultismo e não para benefício dos filólogos.”

As alternativas

A verdade é que, embora não embarquem na teoria de que o nome de Blavatsky não deveria estar na capa do livro, grande parte dos teosofistas mais experientes é bastante cautelosa na abordagem ao Glossário, principalmente aqueles que têm conhecimentos de Sânscrito.

Existem contudo boas alternativas, que são também mencionadas no artigo de Aveline.

A principal será o Glossário Enciclopédico Teosófico [no original, Encyclopedic Theosophical Glossary], disponível no site da Sociedade Teosófica de Pasadena. Este Glossário é bastante maior que o editado por Mead, estando corrigido de muitos dos erros apontados ao Glossário original. O mesmo constitui uma expansão do Glossário do Oculto [Occult Glossary] publicado em 1933 por um respeitado líder da ST Pasadena, Gottfried de Purucker (GdeP), e que está disponível aqui. Contudo, em relação a este Glossário há quem também tenha as suas reservas, nomeadamente em relação a algumas “inovações” de GdeP, que se considera não estarem completamente em linha com a Teosofia de Blavatsky/Mestres.


Gottfried de Purucker

Contudo, tudo pesado, também da minha parte considero ser a melhor opção. Este Glossário só esta disponível online existindo uma  versão do mesmo em pdf que circula entre alguns estudantes.

Outra alternativa, embora não tão completa é a Enciclopédia Teosófica (ET), que está também disponível online, embora exista uma versão em livro que pode ser encomendada a partir da Secção das Filipinas da Sociedade Teosófica. Embora não tão rica em termos de terminologia como o Glossário da ST Pasadena, a Enciclopédia tem também várias entradas sobre os teosofistas mais conhecidas, bem como sobre pessoas influenciadas pela Sabedoria Perene. A ET resulta do esforço combinado de várias pessoas, entre as quais Vicente Hao Chin Jr. e John Algeo (editor geral).




Também acessível pela internet está a Wiki da Sociedade Teosófica, que seguindo aquele formato popularizado pela wikipedia, é atualizada com bastante frequência e progressivamente vai se tornando mais exaustiva. Existe um portal específico para as cartas dos Mahatmas e para HPB. É possível que esta wiki se venha a tornar num instrumento essencial para muitos estudantes de Teosofia, sendo admissível que surjam versões noutras línguas que não o inglês. Na verdade, em língua portuguesa, o único Glossário disponível é mesmo o editado por Mead, objeto da controvérsia que este post (e o da semana passada) deu a conhecer. 

sábado, 7 de Junho de 2014

A controvérsia em torno do Glossário Teosófico (1ª parte)

Há poucos meses atrás, alguns associados do núcleo luso-brasileiro da Loja Unida de Teosofistas (LUT) criaram alguma controvérsia ao acusarem Mead de ter usado inapropriadamente o nome de Blavatsky como autora do Glossário Teosófico. A resposta a essas acusações – a informação de maior utilidade para o leitor – será apresentada na 2ª parte deste artigo. Nesta 1ª parte inclui-se uma pequena biografia de Mead, a opinião de um respeitado teosofista já falecido sobre o Glossário e as críticas ao mesmo por parte de Carlos Aveline.

Quem foi GRS Mead?

George Robert Stowe Mead nasceu em 1863 em Nuneaton, Inglaterra. Licenciou-se com distinção em Literatura Clássica na Universidade de Cambridge. Tomou contacto com a Teosofia através do livro de Alfred Percy Sinnett, “Budismo Esotérico” e filiou-se na Sociedade Teosófica (ST) em 1884. Encontrou-se pela primeira vez com Helena Blavatsky em 1887. Dois anos depois abandonaria o cargo que detinha numa escola pública para se tornar Secretário pessoal da “Velha Senhora”, a quem já tinha ajudado na edição de “A Doutrina Secreta”. Desempenhou cargos na ST – Secretário-Geral da Secção Europeia (1890) e também da Secção Britânica (1891-8). Recebeu a medalha Subba Row (atribuído a quem se destaca como autor de literatura teosófica) em 1898. Em 1899 Mead casou com Laura Cooper, que também tinha sido próxima de Blavatsky, tal como o marido.


Mead com Blavatsky


A relação entre Mead e Blavatsky é descrita na edição de janeiro de 1910 do Theosophist: “Desde aquela altura [1889] até à morte dela ele foi o seu secretário particular, e ajudou-a de todas as maneiras em que um jovem brilhante podia ajudar um génio heroico e turbulento.” Um erudito até ao tutano, estudante inato, dotado com uma diligência infatigável e com uma capacidade para um devoção profunda embora não demonstrada, ele serviu-a admiravelmente e de modo bastante útil durante cinco anos tumultuosos e de stress. “Mead! Mead!” ouvia-se por toda a casa num tom aceso, quando algum erro de impressão havia despertado a ira do Leoa da Teosofia. “Sim, Velha Senhora!”, chegava a resposta num tom calmo e Mead entrava lentamente com um cigarro na boca, papéis nas mãos, de semblante afável e iria explicar, acalmar ou zombar, de acordo com as circunstâncias e disposição.”


GRS Mead

Depois da morte de Blavatsky, Mead entrou em desacordo com Annie Besant e Charles W. Leadbeater e demitiu-se da ST depois deste último ter sido readmitido em 1908. Recorde-se que Leadbeater foi alvo em 1906 de um processo interno devido a denúncias feitas pela mãe de um dos jovens que Leadbeater instruía, nomeadamente devido à recomendação por parte deste de práticas masturbatórias como forma de libertar energias que atrapalhavam a concentração e a aprendizagem dos ensinamentos teosóficos.

Juntamente com a sua esposa, Mead começou uma nova Sociedade denominada “Quest” bem como uma revista com o mesmo nome, mas ambas as iniciativas foram descontinuadas após a sua morte em 1933. Tirando a descrição do episódio de Leadbeater, tudo o resto é retirado do verbete destinado a Mead na Enciclopédia Teosófica.


A investigação que Mead fez do Gnosticismo e do Esoterismo Ocidental resultou de uma sugestão de Blavatsky, que aconselhou Mead a se especializar nesta área. O trabalho de Mead teve profunda influência em Ezra Pound, W.B. Yeats, Hermann Hesse, Kenneth Rexroth, Robert Duncan e possivelmente em Carl Jung.

As considerações de Mead no prefácio do Glossário

No próprio prefácio do Glossário Teosófico (editado em língua portuguesa pela Editora Ground do Brasil), Mead admite que grande parte do volume é póstumo, ou seja a edição final foi feita pelo próprio Mead já depois de Blavatsky ter falecido. A autora, HPB, “pode ver apenas as primeiras trinta e duas páginas das provas tipográficas”. Não há dúvidas que a “obra teria alcançado dimensões muito superiores” caso HPB não tivesse falecido tão cedo.




O objetivo do Glossário era o de “proporcionar algumas informações sobre os principais termos sânscritos, pahlavis, tibetanos, pális, caldeus, persas, escandinavos, hebraicos, gregos, latinos, cabalísticos e gnósticos e também sobre os termos do Ocultismo geralmente utilizados na literatura teosófica”. Para o efeito, Blavatsky tinha usado várias obras disponíveis na altura, tendo também pedido ajuda a alguns especialistas, como por exemplo a W. Wynn Wescott, membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada, que contribuiu com muitos dos verbetes ligados às doutrinas rosacruzes e herméticas.

Uma opinião favorável sobre o Glossário

Dallas TenBroeck, membro da LUT já falecido, tinha bastante apreço pelo Glossário, como mostra aqui e aqui.

Escreveu ele há mais de quinze anos atrás a um outro estudante:” Por favor não valorize a ideia de que o Glossário Teosófico de HPB seja inútil, devido à sua imprecisão. Longe disso. É uma ferramenta valiosa e nos casos em que HPB acrescentou definições que atribuiu à “Filosofia Esotérica ou Ocultismo” encontramos afirmações que não foram feitas em mais lado nenhum na Filosofia e são consistentes com a mesma.

Tenho-o usado e verificado quase todas as entradas com algumas das afirmações ou explicações feitas por HPB nos seus livros ou artigos.


HPB


Sim, existem alguns erros, mas nenhum é muito grave e poderão ter sido o resultado da [não] leitura das provas tipográficas.(…)

Por favor, não adotem as opiniões dos outros sem ter feito vocês mesmos uma investigação minuciosa. O estimado De Zirkoff [compilador de grande parte dos Blavatsky Collected Writings, um dos teosofistas mais importantes do séc.XX] não dedicou o tempo adequado ao Glossário Teosófico – se ele ainda estivesse vivo debateríamos vivamente esse assunto.”

As críticas de Aveline ao Glossário

O teosofista brasileiro considera que o livro não deveria ter a indicação de HPB como sua autora, observação que repete mais do que uma vez neste texto. O próprio Michael Gomes é alvo de críticas devido à edição de uma versão (muito) resumida de “A Doutrina Secreta” pelo mesmo motivo. Contudo na capa da edição em inglês, consta claramente que o responsável pela adaptação e anotações é o próprio Gomes.



 Para justificar a sua posição sobre o Glossário, Aveline pega em palavras de Olcott que criticou os muitos erros em Sânscrito que o Glossário tinha e num texto de Boris de Zirkoff eminente teosofista do séc. XX, que contou nos separadores de A a D, 40 erros de tradução em 300 possíveis.

Continua na próxima semana, com a resposta a esta visão sobre a validade do Glossário.