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sábado, 16 de abril de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (5ª parte)

Terminamos hoje a publicação do artigo "Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores" da autoria de Barend Voorham e Herman Vermeulen. Este último é o líder da Sociedade Teosófica de Point Loma-Blavatskyhouse, que tem sede na Holanda sendo uma das ramificações da Sociedade Teosófica original. Voorham é um dos teosofistas mais proeminentes desta mesma organização.

Para mais informações sobre a STPL deverá consultar a 1ª parte deste artigo, recomendando-se naturalmente a leitura das quatro partes anteriores a quem não o fez.


A Teosofia depois de Blavatsky


De modo algum queremos minimizar o papel de H.P. Blavatsky na divulgação da Teosofia, antes pelo contrário. Ela foi aquela que, depois de muitos séculos, levantou a ponta do véu. Só alguém que sabe alguma coisa sobre ensinar Theosophia, percebe que enorme tarefa isto é. Ela era o elo com os Mestres.

Três modos de expressar os sete aspetos da consciência no que se refere à constituição do Homem. 
Em cima: a classificação conforme dada por H.P. Blavatsky em “A Chave para a Teosofia” (9)
no meio: o “diagrama oval” de G. de Purucker (10); em baixo: o “modelo do piano”. Não se contradizem 
mutuamente: o diagrama oval refina a classificação de Blavatsky. O modelo do piano foi recentemente 
utilizado para ilustrar o ensinamento teosófico de que cada centro de consciência na nossa constituição
 transporta todas as faculdades em si mesmo, e é assim capaz de fazer contacto com cada um dos 
centros de consciência mais elevados ou inferiores (por “ressonância”).


Quando, depois da sua morte, alguns supostos ensinamentos espirituais são proclamados, sendo contrários ao que Blavatsky ensinou, temos simplesmente de determinar o seguinte: ou Blavatsky e os seus Instrutores estavam errados e existe aparentemente uma outra doutrina que contém mais verdade; ou então eles tinham razão. Neste caso, aquilo que é contrário a Blavatsky não é verdade.

Mas isto não significa que depois dela não existiram outros representantes dos Mestres, que pudessem clarificar os textos de Blavatsky e ao fazerem-no pudessem levantar um pouco mais o véu e mostrar um pouco mais da verdade. Devemos abordar os seus ensinamentos da mesma forma que abordamos os de Blavatsky. Se os seus textos refletirem as nossas ideias que já experienciámos como verdadeiras, então podemos confiar razoavelmente nos seus ensinamentos.

De facto, cada ser pensante, quando está num estado altamente intuitivo e compassivo é capaz de encontrar um caminho para uma explicação mais profunda. Se negarmos esta possibilidade, então estamos a tornar Blavatsky num ícone. A colocá-la num pedestal. E isto será tão injusto para ela, como rebaixá-la ou ignorá-la. Em ambos os casos, isso conduz à degeneração.

A tendência para venerar a fundadora de um movimento espiritual pode ser encontrada em quase todos os movimentos espirituais. Nasce de uma sincera, mas muitas vezes cega devoção. Para dar um exemplo: embora o Buda tenha enfaticamente proclamado que o homem deve alcançar a sua própria salvação, existem Budistas que rezam a Gautama e imploram-lhe por saúde e felicidade.


Uma imagem do Buda Gautama

Existem pessoas que têm uma imagem de Blavatsky em sua casa e em cada decisão importante “consultam” essa imagem. Blavatsky certamente não ficaria agradada. E isto é um eufemismo! Paradoxalmente, esta grande instrutora e principal fundadora da Sociedade Teosófica, é neste caso mais um obstáculo do que um auxílio para a vida teosófica, pois um teosofista deve aprender a tomar decisões de modo independente.


A verdadeira prova é a aplicação

Acreditamos que depois de Blavatsky, outros foram também ajudados e apoiados pelos Mestres. É sabido que existem cartas dos Mestres, escritas depois da morte de Blavatsky. Annie Besant da Sociedade Teosófica de Adyar recebeu em 1900, nove anos depois do falecimento de Blavatsky, uma carta de um Mestre. (11) W.Q. Judge também recebeu cartas de Mestres depois da morte de Blavatsky, o que por sinal, originou muitos problemas, porque nem toda a gente acreditou nele. Katherine Tingley e Gottfried de Purucker estiveram, por assim dizer, também em contacto com os Mahâtmas, anos após o falecimento de Blavatsky.


Gottfried de Purucker (1874-1942)


Seria ilógico se os Mestres virassem as costas à S.T.. Mesmo um homem ”mediano” não iria, a meio da sua missão, atirar a toalha ao chão. Iriam estes grandes e compassivos sábios agir dessa forma? Julgamos que não. É por isto que estamos convencidos que depois de Blavatsky, outros estudantes avançados explicaram e desenvolveram a Theosophia com a ajuda dos Mestres.

Existe uma pedra-de-toque que sirva para avaliar os mensageiros? Com certeza que sim. Acima de tudo e antes de mais, eles devem ser exemplos vivos dos seus ensinamentos. Devem praticar o que apregoam. Além disso, reconhece-se a árvore pelos seus frutos. O mensageiro proporcionou mesmo uma maior perceção? Em que medida ele contribuiu para moldar a fraternidade em termos práticos? 

E finalmente: a doutrina que ele veicula, conflitua com a da Tradição Esotérica, de quem Blavatsky foi a última e grande representante, e não nos referimos às suas palavras (que são apenas ferramentas) mas ao conjunto integrado de ensinamentos? Isso não significa que um novo mensageiro não possa explicar e desenvolver os seus ensinamentos. Claro que pode: o propósito da missão dele é fazer isso. Não deve apenas repetir as palavras de Blavatsky. Se compararmos o primeiro grande trabalho de Blavatsky “Ísis sem Véu” com “A Doutrina Secreta”, notaremos que o último livro não se contradiz com o primeiro, mas explica-o e complementa-o em vários pontos. Quando Gottfried de Purucker apresenta o seu famoso diagrama oval, (10) ele certamente não contradiz a divisão setenária da consciência humana dada por Blavatsky. (9) Mas, vai um passo adiante. Quando se apreende a ideia do digrama oval, é-se capaz de melhor perceber o significado mais profundo de Blavatsky. Leia-se por exemplo a estância 7 do volume I de “A Doutrina Secreta” e o comentário de Blavatsky sobre esta estância, especialmente o primeiro verso com a frase do Livro Egípcio dos Mortos. (12) 



Combine-se isto com o diagrama oval e compreender-se-á o que Blavatsky tentava comunicar.


Mesmo nós, editores da presente revista “Lucifer”, inspirados por uma citação de H.P. Blavatsky, desenvolvemos este diagrama oval de algum modo, ao desenhar em cada ego, uma oitava de um piano; uma modesta tentativa de tornar o ensinamento um pouco mais claro. Em resumo, quando a Teosofia é-nos realmente provada, devemos aplicá-la. Porque, ao fazê-lo mostramos que realmente a entendemos. Digerimos os ensinamentos e novo alimento espiritual pode ser ingerido.

Notas:

9. Ver: H.P. Blavatsky, A Chave para a Teosofia, capítulo 6, secção 5.
10. G. de Purucker Fundamentals of the Esoteric Philosophy, Point Loma Publications, San Diego 1990, p. 225.
11. http://www.katinkahesselink.net/lastkh.htm
12. Ver ref. 7, Vol. 1, p. 213-222 [p.250-258 da edição em português].
13. H.P. Blavatsky,‘Psychic and Noetic Action’. Collected Writings, The Theosophical Publishing House, Wheaton 1990, Vol.12, p. 368-369.

sábado, 9 de abril de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (4ª parte)

Esta semana continuamos com a publicação da quarta e penúltima parte do artigo de Barend Voorham e Herman Vermeulen saído na edição de março de 2015 da revista Lucifer, da Sociedade Teosófica de Point Loma- Blavatskyhouse. Recomenda-se naturalmente a leitura das anteriores partes ( ).


Confiança nos instrutores

A Teosofia moderna foi dada à humanidade pela Sociedade Teosófica (S.T.), fundada em 1875 em Nova Iorque por H.P. Blavatsky, Henry Steel Olcott, W.Q. Judge e mais outros treze.


Henry Steel Olcott, um dos fundadores
da Sociedade Teosófica (1832-1907)


Contudo, estes pioneiros – pelo menos três deles – alegavam que os verdadeiros fundadores eram os Mestres de Sabedoria e Compaixão. Nos últimos 150 anos, existiram as especulações mais rebuscadas sobre quem eram estes Mestres. Poucos os conheceram. De acordo com Blavatsky, são seres humanos que estão muito acima da média dos humanos em termos de capacidades, sabedoria e especialmente compaixão. Desde 1875, houve um dilúvio de ensinamentos teosóficos, e apesar da maior parte destes ensinamentos poder ser encontrado nos textos religiosos e filosóficos da Antiguidade, não raras vezes em linguagem velada, são tão novos e estranhos para muita da moderna humanidade, que para a parte maior dela será muito difícil compreender alguma coisa.

Viver em 2015, 140 anos depois da fundação da S.T., torna muito mais fácil entender alguns dos ensinamentos teosóficos. O karma e a reencarnação, por exemplo, são hoje em dia, mais ou menos familiares e portanto muito mais fáceis de entender. Mas no fim do século XIX tudo era novo e estranho.

Fazer um estudo dos primeiros anos da Sociedade Teosófica pode ser muito inspirador. As dificuldades que os pioneiros enfrentavam eram enormes. Existiam ataques hostis do mundo externo: cientistas que alegavam que os ensinamentos teosóficos eram superstição ultrapassada; a igreja Cristã, que não suportava o facto de a S.T. ter muita estima pelo Budismo e pelo Hinduísmo; os espiritualistas, a quem Blavatsky não negava os fenómenos, explicando-os contudo de forma muito diferente. Os maiores confrontos e problemas nasceram porém de antigos colaboradores que se opunham à S.T. e especialmente à sua principal fundadora, H.P. Blavatsky. O facto de a S.T. ter sobrevivido a todas estas dificuldades é para muitos estudiosos uma evidência de que a mesma foi de facto preservada pelos Mestres. Durante esses primeiros anos foi também claro que Blavatsky foi o elo entre os Mestres e a S.T.. É evidente que outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Henry Steel Olcott, presidente-fundador, desempenhou um papel muito importante na organização. Mas no que respeitava aos ensinamentos, H.P. Blavatsky era a autoridade. Graças a ela, algumas pessoas ligadas à Teosofia podiam se corresponder com os Mestres. Ela era conhecida como a “carteira oculta”. Quando ela deixava de estar num certo local, a influência dos Mestres perdia também vigor. Quando, forçada pelas circunstâncias, deixou a sede na Índia, a influência dos Mestres desapareceu também. (4)

Sede da Sociedade Teosófica matriz - Adyar, Chennai, Índia

Embora, depois da sua morte, o seu trabalho não tenha sido devidamente estudado por todos os teosofistas, ela permanecia como uma referência. Era a portadora da luz. Mas serão os seus escritos a palavra definitiva?


Méritos intrínsecos

A própria Blavatsky afirma num artigo que a Teosofia deve-se apoiar nos seus méritos intrínsecos. (5) Fez esta declaração no contexto da realização de fenómenos ocultos, com os quais ela tinha inicialmente tentado suscitar interesse nos ensinamentos teosóficos. A certa altura ela deixou de produzir estes fenómenos, porque não estimulavam o estudo da Teosofia, mas apenas despertavam o sensacionalismo.

Esta afirmação pode ser interpretada no sentido muito mais amplo: todos os ensinamentos, todos os textos, os de H.P. Blavatsky bem como os de outros autores teosóficos, devem provar-se por si mesmos. Não são verdade porque o autor pode produzir fenómenos ocultos ou porque foram inspirados por um Mestre. A prova é a convicção do pensamento. Chegamos a ela por pensar independentemente, não por acreditar nos outros! Quando testamos os ensinamentos com as nossas verdades já experienciadas e o teste confirma a doutrina, então podemos ter confiança na sua verdade.

A Teosofia é por definição não dogmática. Não obstante estimemos e amemos elevadamente H.P. Blavatsky, os seus textos devem ser abordados de modo tão crítico como qualquer outro texto. A Teosofia apenas é benéfica para o ser humano, se ele entender a verdade nela. Por outras palavras, uma atitude crítica perante um ensinamento e o teste permanente, com as suas próprias faculdades internas, é uma responsabilidade que não deve ser subestimada, porque se assim não for, em quê é que estamos a basear a nossa confiança de que Blavatsky era a mensageira dos Mestres?

Helena P. Blavatsky (1831-1891)


Claro que H.P. Blavatsky não forneceu a completa e absoluta verdade. Ela indicou os princípios da Teosofia aos buscadores da verdade, e deu um grande número de formulações dos mesmos com respeito à humanidade e ao planeta, mas nunca pretendeu dar “A Sabedoria dos Deuses” na totalidade, o que para já seria impossível. No final de “A Doutrina Secreta” ela escreve que as suas “exposições estão longe de ser completas” e que apenas quis “preparar o terreno”. (6) Os volumes III e IV de “A Doutrina Secreta” já haviam sido planeados e a sua publicação dependeria da receção dos volumes I e II, embora estivessem quase completos. Nunca foram publicados [NT: Na sua versão original, “A Doutrina Secreta” foi publicada em dois volumes, que correspondem, grosso modo, aos primeiros quatro volumes da edição em língua portuguesa. Esta controvérsia sobre os volumes III e IV será em breve abordada no Lua em Escorpião]. (7)


Portanto Blavatsky nunca deu a última palavra, mas antes a primeira, pelo menos no impulso de 1875 da Loja da Sabedoria e da Compaixão. Os ensinamentos que ela trouxe podem ser mais desenvolvidos e explicados. Ela também disse que no século XX “algum discípulo mais bem informado e com qualidades mui superiores poderá ser enviado pelos Mestres de Sabedoria para fornecer provas definitivas e irrefutáveis de que existe uma Ciência chamada Gupta-Vidyâ; e de que, como as nascentes do Nilo, outrora envoltas em mistério, a fonte de todas as religiões e filosofias atualmente conhecidas permaneceu esquecida e perdida para a Humanidade durante muitos séculos, mas foi finalmente encontrada.” (8)

Notas: 

4. Ver: H.P. Blavatsky, ‘Why I do not return to India’. Collected Writings, The Theosophical Publishing House, Wheaton 1990, Vol. 12, p. 157-158.
5. H.P. Blavatsky, ‘What of Phenomena’. Collected Writings, Theosophical Publishing House, Wheaton 1990, Vol. 9, p. 50.
6. H.P. Blavatsky sempre foi muito clara sobre este assunto. Ver por exemplo: A Doutrina Secreta, Vol I, p. viii [na versão original, p. 12 da edição em português], onde ela escreve que a Doutrina Secreta merece ser considerada, não porque invoque alguma autoridade dogmática, mas por se manter em íntima relação com os factos da Natureza e seguir as leis da uniformidade e da analogia; e:
A Doutrina Secreta, Vol. I, p. 20 [p.86 da edição em português], onde afirma que quando o leitor as tiver compreendido claramente [às três proposições fundamentais], e percebido a luz que espargem sobre todos os problemas da vida, mais nenhuma identificação se tornará necessária; pois a verdade lhe saltará aos olhos, tão evidente como a luz do Sol.
7. H.P. Blavatsky,The Secret Doctrine, Vol. 2, p. 797-798 [vol. IV da edição em português, p.365-366].
8. Ver ref. 7, Vol. 1, p. xxxviii [p.61 da ed. portuguesa].

Continua na próxima semana.

sábado, 2 de abril de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (3ª parte)

Nas duas semanas anteriores, publicamos a e partes deste artigo de Barend Voorham e Herman Vermeulen publicado na revista Lucifer, da Sociedade Teosófica de Point Loma- Blavatskyhouse.

Esta semana, prosseguimos com a 3ª parte, recomendando-se naturalmente a leitura das anteriores.


Herman Vermeulen-um dos autores do artigo e líder da ST
Point Loma-Blavatskyhouse

Prova

Podem estas ideias teosóficas centrais ser provadas? Podemos estar convencidos da sua verdade?

Neste ponto temos de ser realistas. A forma mais elevada de prova é perceber, reconhecer, entender e experienciar a verdade por nós próprios. A maior parte das pessoas não é ainda capaz de experienciar muita da Teosofia. O PRINCÍPIO Omnipresente, Eterno, Ilimitado e Imutável, que é o ponto de partida de todo o sistema teosófico, não pode ser experienciado nem mesmo pelos deuses. Se algum ser experienciar o Ilimitado, dá expressão a ISSO e não é mais um ser ou em ego, porque um ser, por maior que possa ser, é sempre limitado. É por essa razão que nenhuma entidade é por definição capaz de entender completamente o Ilimitado.

A maioria das pessoas também não é capaz de experienciar a reencarnação conscientemente. Quando caímos no sono perdemos a nossa autoconsciência. Tal como quando adormecemos, passamos pelo processo de morrer e nascer inconscientemente e não podemos adquirir conhecimento em primeira mão.

Mas no domínio da confiança nós podemos conseguir completamente um certo grau de prova. Podemos considerar os princípios teosóficos como hipóteses e testá-las com as verdades que já experienciámos. Além disso, podemos examinar se eles coincidem com aquilo que percecionamos à volta de nós. Avaliamos de modo crítico se as ideias teosóficas são consistentes e lógicas e respondemos a todo o tipo de questões.

Desta forma, com base na razão e na lógica, podemos formar a ideia do Ilimitado.

É claro que esta ideia não é perfeita. Como seria isso possível? Mas ao menos iremos entender que a finitude é ilógica por natureza e contrária às observações humanas, pois nem no microcosmos, nem no grande universo nos deparamos com limites. Não apontam os factos científicos sobre o átomo e o universo na direção da infinitude? Ficamos portanto confiantes de que o conceito do ilimitado esteja correto?




Com respeito à reincarnação, também podemos dizer que é uma doutrina lógica. Em toda a natureza existem ciclos. Podemos encontrá-los ciclicamente quer na nossa vida quer nas civilizações humanas. 

Além disso, muitos fenómenos psicológicos são elucidados e explicados com o conceito da ciclicidade.

Também podemos acreditar na Teosofia. Não raciocinamos por nós próprios, mas cremos nos outros. 

Talvez tenhamos fé nela porque o nosso companheiro diz-se teosofista, ou porque achamos os teosofistas boas pessoas e de confiança. Esta crença é obviamente a forma mais fraca de convicção, porque se nosso o companheiro nos desiludir ou se perdermos os nossos amigos teosofistas, a base da nossa crença desaparece também.


Pistis: confiança espiritual

As provas efetivas de uma doutrina devem portanto ser encontradas na nossa própria consciência. Não podem ser fornecidas por outrem, por mais sábio que seja. Não obstante, podemos ter uma enorme confiança naquele que proclama uma doutrina.

Talvez pareça que chegámos tortuosamente ao ponto em que devemos aceitar uma doutrina baseada na autoridade de outrem. Estamos aqui a nos contradizer? Antes de mais, temos de entender que todos nós assumimos certas posições porque confiamos noutras pessoas. Poucos leitores já alguma vez pisaram o Pólo Norte. Contudo, a maior parte assume que o mesmo existe. Têm confiança nos relatos sobre esta região inóspita e assumem que as imagens daqueles mantos de gelo não são manipuladas.

Contudo, esta confiança não é uma crença cega. É mais um reconhecimento, baseado na lógica e na nossa própria experiência, da correção da perspetiva de outros, que aplicamos como uma hipótese útil.

A nossa sociedade não pode existir sem esta confiança. Afinal, se não confiássemos no eletricista, no condutor de autocarros, no médico e no padeiro não poderíamos viver juntos harmoniosamente. Pela mesma razão podemos ter fé nos instrutores espirituais.

Quando esta confiança tem mais a ver com temas espirituais, pode ser chamada, tal como na Grécia antiga de Pistis. Esta palavra pode ser traduzida como “fé” ou às vezes como “crença”. Contudo, é baseada na razão e em saber intuitivamente que algo é verdade. Não é crença cega. É um conhecimento interno, livre de preferências pessoais. É-nos familiar, porque corresponde com as nossas próprias experiências e identifica-se com o fundamento do nosso ser.

A Pistis pode certamente ser útil para nós na nossa busca pela verdade. Como dissemos, as provas são a convicção do nosso pensamento. Portanto, a verdade não vem do exterior, mas deve ser desenvolvida a partir do interior. Ou melhor, deve ser reconhecida ou relembrada. A Pistis é a confiança em nós próprios. Somos capazes de encontrar a verdade, porque ela está dentro de nós. 

Platão escreveu sobre isso. Qualquer conhecimento, qualquer verdade, dizia este antigo filósofo grego, está dentro de nós. Para prová-lo, reflete em “Fédon” da seguinte maneira. Vendo um objeto – uma lira, por exemplo - podemos nos recordar de outra coisa. Ver uma rosa, pode evocar a consciência do belo. Portanto, o conceito de “belo” – Platão fala da ideia do belo – já está dentro de nós, mas nós não nos apercebemos. A rosa externa foi o que espoletou a recordação do conhecimento interno da ideia de belo. (3) De facto, este é um despertar; a nossa fé em algo é sublimada até à compreensão da verdade. Vamos desde a “cabeça” ao “coração”.


Platão (427 (?) a.C-347 (?) a.C)

Isto também funciona com certos ensinamentos. O conhecimento já está dentro de nós. Através de um mito, de um símbolo, de um argumento ou de uma dissertação ficamos conscientes da verdade no nosso Eu. Somos parte de um todo infinito e um pouco mais de infinito também é infinito.

Notas:

3. Platão, Fédon, 72e-77a.

Continua na próxima semana.

sábado, 26 de março de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (2ª parte)

Na semana passada, iniciámos a publicação do artigo da revista Lucifer "Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores". Esta revista é publicada pela Sociedade Teosófica de Point Loma-Blavatsky House em holandês (desde 1979) e em inglês (neste caso desde 2013).

A autoria do artigo é de Barend Voorham e de Herman C. Vermeulen. Recomenda-se a leitura da introdução e também da 1ª parte.

Barend Voorham- um dos autores deste artigo

Avancemos então para a 2ª parte do artigo.

Crença – sentimentos interiores

Pode a convicção ser baseada na crença?

Crer é aceitar a verdade sobre algo com base na autoridade de alguém. Assume-se que alguém tem tanto conhecimento, ou é tão sábio, que o que diz é verdade. Isto pode aplicar-se a qualquer coisa. Há a autoridade religiosa. Há a autoridade do Estado. Os pais ou os professores têm uma certa autoridade, e assim sucessivamente.

Ao terem esta crença, algumas pessoas podem ficar muito satisfeitas porque isso priva-as da sua responsabilidade. É delegada a outrem. É verdade, dizem elas, porque fulano tal assim disse. Ele comprovou que era verdade.

Obviamente que esta é a maneira mais passiva de lidar com os assuntos.

Os aspetos inferiores da mente estão agora ativos e encontram-se satisfeitos, o que pode conferir um certo grau de convicção.


As leis de Newton – um exemplo

Vamos ilustrar estes três aspetos de evidência aplicando as leis de Newton.


Sir Isaac Newton (1643-1727)

A descoberta por Newton das três leis fundamentais da natureza foi o início de uma nova fase na ciência. Estas leis são geralmente aceites como verdadeiras. São ensinadas nas escolas e universidades. Mas a questão é: com que base presumimos que essas leis da natureza são verdadeiras? De acordo com estas leis todos os objetos exercem uma atração mútua. Podemos ver claramente que todos os objetos caem na terra. Toda a gente experiencia a gravidade. Todos podem portanto entender que os objetos são atraídos para a Terra. Mas a lei da gravidade também ensina que todos os objetos caem ao mesmo tempo se atirados a uma distância similar.

A “Fallturm Bremen” é uma torre de queda livre no Centro de 
Tecnologia Espacial Aplicada e Microgravidade (ZARM) da 
Universidade de Bremen, na Alemanha. Tem um tubo de 123 metros
 (a verdadeira distância de queda são 110 m), no qual 4.74 segundos
 de ausência de gravidade podem ser conseguidos.

Esta última parte não é confirmada pela nossa observação. Quando se deixa cair uma pena e uma peça de chumbo da mesma altura, elas não atingem simultaneamente o chão. Será que, não obstante, ainda acreditamos em Newton, que alega que todos os objetos caem com a mesma aceleração?

Uma análise mais atenta mostra contudo que as propriedades aerodinâmicas da atmosfera exercem uma influência altamente disruptiva na velocidade dos objetos. Isto foi demonstrado muitos anos depois de Newton no que se designa por torre de queda de vácuo. Provavelmente poucos leitores de Lucifer repetiram os testes com uma torre de queda. Não determinaram pela sua própria observação que as leis de Newton são efetivamente corretas. Apenas aqueles que o fizeram, experienciaram efetivamente a verdade.

Mas, a maior parte das pessoas apenas observou que os objetos caem na terra. Portanto, se querem assumir as leis de Newton como verdadeiras, elas devem ter confiança em Newton e noutros investigadores que recolheram mais informação sobre este tópico. Eles obtêm essa confiança ao ponderar de forma independente os detalhes das várias investigações. Devem ser ativos na procura de compreenderem.

Outros podem nunca ter refletido sobre a gravidade. Acreditam na autoridade dos cientistas ou dos professores de que Newton estava certo. Assumem que ele e os físicos depois dele são pessoas de tal modo inteligentes que o mais provável é que estejam certos. Portanto, existem três géneros de convicção, ou três tipos de humanos. Aqueles que acreditam, aqueles que têm confiança e aqueles que sabem. É claro que existem combinações destes três tipos.


A mensagem de H.P. Blavatsky

Vamos agora olhar para o nosso objeto principal, a Theosophia. Esta “Sabedoria Divina” foi trazida por H.P. Blavatsky no final do século XIX. Mais tarde foi desenvolvida e disseminada por outros.

Blavatsky demonstrou nos livros e nos muitos artigos que escreveu, as implicações da Teosofia. Ela explicou os ensinamentos teosóficos ao usar os exemplos correntes de então. Algumas das teorias científicas do seu tempo estão obsoletas. Mas ela apenas usou esses exemplos para explicar os princípios universais. As descobertas recentes podem muitas vezes ilustrá-los melhor, portanto o que mais interessa são as doutrinas e não os exemplos.





Um outro ponto é o de que a Teosofia contém um vasto campo de ensinamentos. Oferece uma visão nítida em relação a cada tópico. Não existe assunto em relação ao qual a Theosophia não tenha uma visão. Às vezes os ensinamentos são muito detalhados e é difícil encontrar o nosso caminho através de um labirinto de informação. Não conseguimos ver a madeira nas árvores.

Se contudo queremos encontrar a verdade, não devemos começar com os detalhes, mas com uma perspetiva mais ampliada. Por outras palavras: quais são os princípios da Teosofia?

Ora, estes princípios são claros como a água. Não são dogmas, mas devemos tomá-los como hipóteses ou axiomas. (2) Os princípios centrais são: 1) ilimitabilidade 2) ciclicidade 3) evolução progressiva e absoluta igualdade entre todos os seres vivos. Por outras palavras, todos os seres vivos estão no seu núcleo ilimitado. E, ao estarem nas profundezas dos seus corações ilimitados, existe uma absoluta igualdade. Num processo cíclico eles aparecem e desaparecem. Durante o período no qual aparecem nesta etapa na Terra, eles têm a possibilidade de desenvolver mais do seu infinito potencial.

Destas três ideias básicas podemos deduzir que cada fenómeno é a manifestação da consciência, a manifestação de um poder ou de uma substância formativa subjacente mais etérica. Um fenómeno é portanto como uma sombra: vai e vem, enquanto a força que projeta a sombra subsiste.

Todos os ensinamentos teosóficos, até ao mais pequeno pormenor, são baseados nestas ideias centrais. São emanadas logicamente a partir dessas ideias e nunca podem contradizê-las.

Notas:

2. Ver: Herman C. Vermeulen, ‘H.P. Blavatsky’s message to the world’, Lucifer, nº1, março 2015, p. 2-4.

sábado, 19 de março de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (1ª parte)

A Sociedade Teosófica de Point Loma  BlavatskyHouse, é uma das organizações teosóficas mais ativas na disseminação da Teosofia  nos últimos anos. Embora de reduzida dimensão quando comparada por exemplo com a Sociedade Teosófica de Adyar e com a Loja Unida de Teosofistas, e estando apenas presente na Holanda e na Alemanha – ou seja não tendo a dimensão internacional das duas maiores organizações – o seu trabalho merece todos os encómios, sendo alvo de admiração até por quem é membro de outros grupos. A aplicação prática dos princípios teosóficos é visível no comportamento dos seus membros, e quase todos, se não mesmo todos desempenham alguma tarefa, não havendo membros inativos. Além do mais estudam com empenho e devoção o trabalho de Helena Blavatsky, William Judge e de Gottfried de Purucker.


Um dos modos que a S.T. Point Loma utiliza para veicular a Sabedoria Perene é a revista Lucifer (recuperando assim a designação do título da revista que Blavatsky lançou depois do seu regresso à Europa) e foi do número de março de 2015 dessa revista que se traduziu para Português o artigo, cuja primeira parte (de cinco) é hoje publicada.



Capa da revista Lucifer de onde
foi retirado este artigo.


No início do artigo existe uma secção com as ideias centrais do mesmo, pelo qual não é necessário fazer nenhuma introdução. A autoria do texto pertence a Barend Voorham – membro proeminente da organização e elemento ativo das Conferências Internacionais de Teosofia, nas quais participam membros das diferentes tradições do movimento teosófico - e também ao líder da S.T. Point Loma, Herman C. Vermeulen. Para saber mais sobre esta organização, veja o artigo publicado no Lua em Escorpião sobre “A Teosofia e as Sociedades Teosóficas”. De referir que este é o terceiro artigo que este blogue lança proveniente da S.T. Point Loma. Para ver os dois anteriores clique aqui e aqui.


Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores

por Barend Voorham e Herman C. Vermeulen


A Teosofia não é uma religião. E certamente não é uma crença. Todos os líderes teosóficos, enfática e repetidamente declararam que deveríamos investigar a Teosofia por nós próprios. Mas como? E como sabemos que é verdade? Se não temos que depositar uma fé cega nos líderes teosóficos, então que papel desempenham eles?

IDEIAS CHAVE:

  •  Prova é a convicção para o coração, a mente e os sentimentos.
  •  Podemos ser convencidos por três causas: perceção da verdade, confiança e crença.
  • Comece por estudar Teosofia testando os princípios.
  • A Teosofia deve ser baseada nos seus méritos intrínsecos e não na autoridade daquele que a proclama.
  • Ao tentar disseminar a Teosofia, H.P. Blavatsky, emissária dos Mestres, colocou a primeira pedra. Depois da sua morte, os Mestres continuaram a apoiar o trabalho.


Como sabemos que alguma coisa é verdade? Se foi provada. Mas o que é uma prova?

Uma prova é informação que mostra que algo é definitivamente verdade. É um fator externo e dá garantia decisiva da correção de algo. É como um apresentador de concursos, que avalia a resposta a uma questão, se está certa ou errada. O seu julgamento não pode ser disputado.

A realidade, contudo, é diferente, porque a prova está sempre relacionada com a consciência individual do homem. Gottfried de Purucker, quarto líder da Sociedade Teosófica (S.T.), descreve-a como “a convicção de que uma coisa é verdade para a mente pensante”. Ele acrescenta, “se pela adução de provas, a mente não é influenciada a acreditar que determinada coisa é verdade, essa coisa não foi provada, embora possa ser verdade. (1)


Katherine Tingley (1847-1929)

Portanto, ninguém nos pode fornecer provas. Só estão disponíveis através de autoanálise. Mas, quando é que ficamos convencidos de que algo é verdade?

Existem três aspetos principais no qual a convicção pode estar baseada: a perceção da verdade, a confiança e a crença. Estes três conceitos desempenham um papel importante para obter convicções e consequentemente provas.


A perceção de Verdade – o coração

Quando falamos de VERDADE, referimo-nos à mais elevada e universal expressão do SER. O SER é ilimitado. Nenhuma entidade é capaz de conhecê-lo, nem mesmo o deus mais exaltado, pois cada entidade é limitada e portanto não pode nunca experienciar a derradeira VERDADE. Mesmo um deus sabe que é apenas parte dela.

Expandir a consciência significa tornar-se mais consciente desta Verdade Universal. O que experienciámos dela até agora é a nossa convicção derradeira. Estamos conscientes de algo e estamos convictos da sua verdade. A nossa perceção da Verdade é sempre limitada, mas está constantemente sujeita a crescer.

De modo a compreendermos a Verdade Universal devemos ativar os nossos aspetos mais elevados do pensamento. Podemos chamar a estes aspetos o coração do nosso ser. Eles constituem os aspetos divino-espirituais dentro de nós, o que em Sânscrito é chamado de Âtman e de Buddhi. É a parte de nós que compreende a unidade e a interligação de todas as entidades. É a base de toda a ética. É supra-pessoal, portanto nunca está ligado a qualquer opinião pessoal limitada.





Confiança – a cabeça

Quando somos capazes de verificar parte de uma doutrina, proposição ou hipótese ao experienciá-la na nossa vida diária como verdade – porque esta parte coincide com aquilo que já sabemos, ou expande as nossas conceções – construímos confiança na sua verdade. Pode ser afirmado que neste caso também existe convicção? Num certo sentido, sim, embora não atinja uma profundidade como a perceção da verdade pelo coração. Não podemos verificar e examinar toda a doutrina, mas apenas partes ou aspetos da mesma. Contudo entendemos a lógica desses aspetos e percebemos que a doutrina é consistente. Isto dá-nos a confiança de que o resto da doutrina também é verdade. Embora não consigamos ver a imagem completa, somos capazes de compreender facetas da verdade, que nos ajudam a estar convencidos de aspetos de uma doutrina, que na sua totalidade estão acima da nossa compreensão. Podemos portanto alcançar um certo nível de convicção. Esta convicção tornou-se para nós numa hipótese muito razoável.


Neste modo de pensar o intelecto é altamente eficaz, mas está focado no espiritual e no divino; esses aspetos são também parcialmente ativos. É a combinação desses três aspetos da consciência – Âtman, Buddhi e Manas – que nos fornece a confiança da verdade de uma doutrina. E, se aplicarmos essa doutrina consistentemente e com perseverança nas nossas vidas e se repetidamente revela ser verdade, a nossa convicção na Verdade irá sucessivamente crescer.


Notas: 

1. G. de Purucker, ‘How can you Prove Reincarnation’. Wind of the Spirit, Point Loma Publications, San Diego 1976, p. 245.


Continua na próxima semana.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Joy Mills: Uma Jornada Evolutiva (4ª parte)

Esta é a última parte da entrevista conduzida por Cynthia Overweg a Joy Mills, que foi publicada na revista da Sociedade Teosófica dos EUA, a Quest.

Para melhor enquadramento recomenda-se a leitura da 1ª parte e naturalmente para seguimento da entrevista é importante a leitura da e s partes.

Continuando...

Aos vinte e sete anos, Joy já tinha contribuído significativamente para o crescimento da Sociedade nos anos do pós-guerra. Adorava o seu trabalho e estar em Olcott, mas sentiu que era altura de ganhar um pouco mais de dinheiro e começou a fazer algumas poupanças. Em 1948, aceitou um lugar de professora em Seattle. “Era difícil deixar Olcott, mas não estava deixando a Teosofia; estava a abraçar a profissão para a qual me tinha preparado”. Ela ensinou história dos EUA na Escola Secundária de West Seattle. “Tentava fazer com que a História ganhasse vida para os meus alunos. Queria que eles tivessem pensamento crítico e não se limitassem a aceitar o modo como os media mostravam o mundo.”


Joy Mills em 1943 (foto: Theosophy Wiki)

Durante este tempo Joy permaneceu muito ativa na Sociedade, tornando-se presidente da Federação do Noroeste. Sete anos mais tarde, Perkins precisou de um editor para o The American Theosophist (predecessor da atual Quest), e portanto, por convite dele, voltou a Olcott. “Fiquei encantada pela beleza do Noroeste, mas regressar a Wheaton pareceu-me a coisa certa a fazer.” Assumiu o departamento de educação de Olcott em 1955 e dali em diante dedicou a sua vida exclusivamente à Sociedade.

Joy Mills a discursar na Convenção de verão de 1954
(foto: Theosophy wiki)


Em 1960, Henry Smith foi eleito presidente e pediu a Joy para ser vice-presidente. Ela concordou, mas cinco anos depois ele demitiu-se e Joy tornou-se presidente em exercício. Em 1966, foi eleita presidente de forma esmagadora tendo desempenhado funções até 1974. O seu mandato como da presidente da Secção Norte-Americana foi um dos mais produtivos na história da Sociedade. Com a ajuda da Fundação Kern, Joy lançou a Quest Books, um acontecimento seminal para a Sociedade. À medida que a Quest cresceu, ela conduziu uma campanha de financiamento para a construção de um edifício para as publicações de modo acomodar a sua expansão. O edifício tem atualmente o seu nome.

Ann Kerr empossa Joy Mills como
presidente da secção dos EUA (1966)


Joy foi presidente durante um período de grande agitação, quando a Guerra do Vietname e o movimento de direitos civis provocava confrontos violentos nas ruas das cidades americanas e despertava milhões de pessoas para a necessidade de justiça e igualdade social. “Escrevi alguns editoriais enérgicos sugerindo que temos a responsabilidade de nos manifestarmos – de tomar uma posição pela fraternidade. Na altura era controverso porque enquanto alguns membros agiam com fraternidade na teoria, na prática aceitavam a segregação.

A certa altura Joy foi criticada por se juntar a uma secção local do NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) [Associação Nacional para o progresso das pessoas de cor]. “Embora não possamos envolver a Sociedade em política, podemos nos manifestar individualmente em questões de consciência e foi isso que fiz. Os fundadores apoiaram a dignidade e igualdade humanas e Besant destacou-se bastante nesse particular. A fraternidade é um dos objetos da Sociedade desde o seu início e afirma muito claramente que todos são irmãos.”


Video: Um tour pela ST nos EUA conduzido pelo atual 
presidente da Sociedade Teosófica, Tim Boyd

A palavra “fraternidade” desperta controvérsia nalguns membros porque pode ser interpretada como excluindo mulheres e raparigas. “ [NT: No inglês “fraternidade” é “brotherhood”, “brother” siginifica irmão, e portanto é masculino. No português esta questão não levantaria controvérsia, dado que a palavra fraternidade é “neutra” quanto ao género.] Sabemos que se refere a toda a gente, mas seria preferível ter uma linguagem neutra quanto ao género.”, refere Joy. “Vivemos num mundo com uma perceção turva de como a linguagem rotula as pessoas ou as exclui. De certo modo, precisamos de uma nova linguagem que ultrapasse isso, e a linguagem evolui.”

Perto do fim do terceiro mandato de Joy como presidente da Secção Norte-Americana, o admirado presidente internacional da Sociedade, N. Sri Ram, faleceu. Quando John Coats foi eleito para ocupar o lugar de Sri Ram, nomeou Joy para vice-presidente internacional. Ela deixou Wheaton em 1974 e foi viver em Adyar, desempenhando funções durante seis anos. “Quando estava no avião partindo de Chicago para Adyar, tinha aquele velho sentimento de estar novamente sem uma casa. Mas eu adoro a Índia e a adaptação à vida lá foi fácil.” Enquanto esteve em Adyar, encontrou-se com o Dalai Lama uma segunda vez quando Sua Santidade foi o orador convidado na conferência Internacional da Sociedade em 1975. “ John e eu tivemos o privilégio de tomar chá com Sua Santidade”, recorda Joy.


N. Sri Ram (1889-1973)

Em 1980, Joy foi convidada por Anne Green, então a diretora residente do Instituto de Teosofia de Krotona, para se tornar diretora da Escola de Krotona. “Isso realmente atraiu-me porque significou voltar àquilo de que mais gostava – a educação e o ensino.” Joy revigorou os programas educacionais em Krotona, estabelecendo um legado de excelência. Doze anos mais tarde, em 1992, o comité de investigação da Secção Australiana pediu-lhe para se candidatar à presidente daquela Secção. Joy estava pronta para um novo desafio e foi eleita por uma ampla margem.

Regressou a Krotona em 1996, onde agora vive, sendo professora, oradora e escritora residente. Ao longo dos últimos setenta e dois anos, Joy viajou por sessenta países, ensinando através de seminários e palestras e alimentando um sem número de estudantes de Teosofia. Ela é um modelo para muitos outros que procuram o seu aconselhamento. Escreveu vários livros notáveis incluindo o recente Reflections on an Ageless Wisdom: A Commentary on the Mahatma Letters to A.P. Sinnett. Os seus outros livros são The One True Adventure: Theosophy and the Quest for Meaning; One Hundred Years of Theosophy; e Entering on the Sacred Way.




Joy nunca casou, embora tenha considerado essa possibilidade há 60 anos. “Era um bom homem, um teosofista, mas precisava da minha liberdade. O trabalho absorvia-me totalmente e eu teria sido uma péssima dona de casa.”

Enquanto olhava através da janela da sua sala de jantar para a sua árvore favorita, Joy recorda-se da experiência que teve muitos anos antes nos bosques dos Ozark. “Podemos olhar para uma árvore e ver lenha, ou podemos ver uma presença viva com um propósito e inteligência próprias”.


Joy Mills (3ª a contar da esquerda) numa foto
tirada no Rio de Janeiro em 1973

Joy volta então ao tema da Unidade e da jornada evolutiva para uma melhor compreensão do que significa ser humano. “A mente gosta de separar o “eu” do “outro”. Temos de estar atentos a isso porque conduz-nos de volta à questão fundamental: “Quem sou eu?” E essa questão evolui à medida que evoluímos. Como HPB disse de tantas maneiras diferentes, uma vez que tenhamos sentido compaixão por outro ser vivo, começámos a despertar para o propósito e sentido da existência. Essa é a essência da Teosofia.”





Uma nota final apenas para referir que o site Theosophy Forward também homenageou Joy Mills, através da publicação de um e-book chamado "Pearls of Joy", onde está incluída uma outra entrevista à teosofista norte-americana. Esta newsletter da Ordem Teosófica de Serviço também resume a vida desta alma nobre que se dedicou à causa teosófica.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Joy Mills: Uma Jornada Evolutiva (3ª parte)

Esta é a terceira parte da entrevista de Cynthia Overweg, a Joy Mills, a decana da Sociedade Teosófica nos EUA, que faleceu no final de dezembro passado. Esta entrevista  foi publicada na revista da Sociedade Teosófica dos EUA, a Quest.

Naturalmente recomenda-se a leitura das primeiras duas partes, aqui e aqui, respetivamente.

Quando Joy terminou o secundário em 1937, o país ainda estava sofrendo os apertos da Depressão e o dinheiro era pouco, mas com a ajuda de empréstimos ela conseguiu ir para o Milwaukee State Teachers College, no Wisconsin. Em 1940, quando era uma estudante com 21 anos, uma amiga da faculdade deu-lhe a conhecer a Teosofia e Joy juntou-se à Sociedade Teosófica. “A Teosofia tornou o mundo compreensível para mim. Preencheu-me de tantas maneiras e abriu uma porta para o invisível.”

Em junho de 1941, Joy licenciou-se em educação e passou o verão a trabalhar na sede nacional em Wheaton. Tentou obter uma vaga numa escola no outono, mas isso não se materializou. Sidney Cook, que era o presidente da Secção norte-americana na altura, perguntou-lhe o que queria fazer se não lhe aparecesse trabalho. Ela disse-lhe que queria continuar os estudos. “Ele foi muito amável e generoso e disse-me que ajudaria”. Cook pagou-lhe metade das propinas de pós-gradução na Universidade de Chicago. A outra metade foi paga por uma bolsa de estudo da universidade.


Sede da Sociedade Teosófica nos EUA (Wheaton, Illinois)

Quando os Estados Unidos entraram na 2ª Guerra Mundial em dezembro de 1941, algumas das instalações da universidade foram entregues aos militares. Para ganhar dinheiro, Joy ajudou no esforço de guerra. Levantava-se cedo pela manhã e ia para o refeitório, onde cerca de um milhar de marinheiros aguardava pelo pequeno-almoço. “Eu punha comer na mesa todas as manhãs para os marinheiros lá estacionados“, diz ela.

Joy recebeu o grau de mestre em Inglês no ano seguinte e Cook convidou-a a se juntar à equipa em Olcott. “Ele pediu-me para pensar nisso primeiro, mas não tive de o fazer. Eu sabia onde queria estar.” O seu primeiro trabalho foi coordenar um curso por correspondência para os novos membros. No ano seguinte, Cook pediu-lhe para fazer algumas palestras. “ Estava a me testar.”


Sidney A. Cook (1887-1965)
Foi líder da Secção dos EUA
entre 1931 e 1945 e vice-presidente
internacional da ST Adyar entre 1946 e 1959.


O objetivo era enviá-la a algumas cidades no Michigan, onde existiam ramificações da Sociedade. “Mas, eu não tinha vestuário adequado nem dinheiro suficiente, pois os salários do pessoal então eram muito baixos.” Contudo, o pessoal de Olcott foi fazer compras em lojas de artigos usados por ela. “Foi maravilhosa a maneira como me ajudaram. Encontraram roupas que me faziam parecer apresentável.” Pela primeira vez na sua vida, Joy teve um sentido de pertença. Estava num ambiente em Olcott que nutria o seu corpo e a sua alma. “Entendi que aspirava a algo maior que mim própria. Tinha uma missão e este era o meu povo, os meus amigos. Estava em casa.”

À medida que Joy foi estudando “A Doutrina Secreta” e outra literatura teosófica, o princípio de Unidade sobressaía – a Unidade que ela havia experienciado enquanto criança nas Ozark. “HPB sempre o salientou. Tudo está radicado e deriva de uma fonte que é Una e não múltipla. É mais do que monista, é não dual.”

Quando ela ficou mais familiarizada com as contribuições dos fundadores da Sociedade, a sua admiração por Henry Olcott e H.P. Blavatsky cresceu. “O trabalho de Olcott pela causa Budista é simplesmente inacreditável. Ele é o responsável pelo renascimento do Budismo como uma grande força cultural no sudeste asiático e fez isso enquanto presidente da Sociedade. HPB é uma das mulheres mais notáveis que jamais existiu. Ela trouxe os ensinamentos antigos para o Ocidente e pessoas de todo o mundo e de todas as classes sociais foram atraídos por isso. Ela fez-nos recordar que a compaixão é a “lei das leis”.


Henry Steel Olcott (1832-1907)


Durante os anos de guerra, a alimentação, o óleo de aquecimento e a gasolina eram racionados. O pessoal em Olcott recebia senhas de refeição e porque Olcott era um campus vegetariano, era-lhes distribuído mais queijo, manteiga, leite e outros bens, pois não precisavam das senhas para carne. Para conservar óleo de aquecimento, os gabinetes do segundo andar e a biblioteca foram encerradas, “Ficámos mais próximos uns dos outros”, recorda Joy. “Éramos como uma família e este era um sentimento formidável. Era a primeira família estável que tinha tido na minha vida.”


No final da guerra, Jim Perkins foi eleito presidente da Secção norte-americana. O número de membros tinha decrescido acentuadamente e muitos membros tinham sido mortos na guerra. “Jim delineou um programa conhecido como Spotlight [SPOT-Speed Popularization of Theosophy] para redinamizar a Sociedade”, refere Joy. “Começámos em 1946 com seis cidades no circuito e eu daria um conjunto de aulas durante seis semanas.” Foi um programa com muito sucesso. Joy alugava uma sala, habitualmente num hotel e colocava anúncios nos jornais para divulgar as aulas. Durante um período de três anos, ela ajudou a fundar mais de 100 novas lojas.


Joy Mills

Continua na próxima semana.