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sábado, 27 de Setembro de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (9ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a penúltima das dez partes.


Outras organizações teosóficas

Juntamente com a Sociedade na América que está ligada a Adyar, várias outras surgiram naquele país, embora muitas delas, subsequentemente se tenham espalhado para fora dele.

A Sociedade Teosófica com sede em Pasadena é a descendente direta da Sociedade Teosófica na América, da qual W.Q. Judge foi o primeiro presidente, seguido por Tingley que mudou a designação para Fraternidade Universal e Sociedade Teosófica. É presentemente descrita como uma associação internacional de membros “dedicada ao elevar da humanidade através de um melhor entendimento da unidade da vida e da aplicação prática deste princípio.” Não é fornecida informação sobre o número de membros, embora seja baixo, talvez de uns poucos milhares. Os membros são conhecidos como os Companheiros da Sociedade Teosófica (C.S.T.), a sua única obrigação é a aceitação do princípio da fraternidade universal e o desejo de tentar vivê-la. Os companheiros são recebidos como companheiros no estado probatório; a aceitação completa é concluída com a emissão de um diploma, assinado pelo líder e secretário-geral, que é emitido pela Sede Teosófica Internacional. Outros grupos dentro da S.T. incluem ramos, formados por três ou mais C.T.S. que requerem uma licença e as Secções Nacionais, que são dirigidas por um Secretário Nacional. O líder desta S.T. é designado como líder – presentemente é Randell C. Grubb – sendo vitalício e que também é responsável por indicar um sucessor. Os diretores-gerais incluem os membros do Gabinete, o Secretário-geral, o Tesoureiro-geral e os Secretários nacionais, os quais, na sua totalidade, são nomeados pelo líder. O líder tem o poder de afastar qualquer um dos funcionários da Sociedade. O braço editorial desta S. T. é a Theosophical University Press, que já publicou mais de quarenta livros escritos por H.P. Blavatsky, Katherine Tingley, G. de Purucker, A. Trevor Barker, William Q. Judge, James A. Long, Charles J. Ryan entre outros.


Point Loma

A Sociedade Teosófica (Pasadena) tem cursos por correspondência, centros bibliotecários, reuniões públicas, grupos de estudo, traduções feitas no estrangeiro e agências na Holanda, Reino Unido, Suécia, Austrália, Alemanha, África do Sul e Nigéria. Os objetivos desta S.T. são os seguintes: (1) Difundir um conhecimento das leis inerentes ao Universo entre os homens (2) Promulgar o conhecimento da unidade essencial de tudo o que é, e demonstrar que esta unidade é fundamental na Natureza. (3) Formar uma fraternidade ativa entre os homens. (4) Estudar religião antiga e moderna, ciência e filosofia. (5) Investigar os poderes inatos no homem.


Sede da ST Pasadena - Quadro "O caminho"de Reginald Mitchell 

A Loja Unida de Teosofistas é uma “associação voluntária de estudantes de Teosofia” fundada em 1909 por Robert Crosbie e outros, tendo como seu principal propósito o estudo da Teosofia utilizando os trabalhos de Blavatsky e Judge como guia. Porque a personalidade ou ego é considerada como tendo efeitos negativos, os “associados” adotam o anonimato no seu trabalho teosófico. Relativamente a este trabalho, a declaração da L.U.T., o único documento que liga os associados, estabelece que o seu propósito “é a disseminação dos princípios fundamentais da filosofia teosófica, e a exemplificação prática desses princípios através de uma compreensão do EU SUPERIOR; uma convicção mais profunda da Fraternidade Universal.” Considera como teosofistas todos aqueles que estão comprometidos no verdadeiro serviço pela Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, situação pessoal ou organização.”


Declaração da Loja Unida de Teosofistas

O trabalho da L.U.T. é principalmente de natureza prática e educativa, levando a cabo encontros e aulas sobre diversos temas teosóficos e publicando livros, panfletos e revistas. Existem lojas e grupos de estudo, com as lojas a terem normalmente entre vinte e cem associados e os grupos de estudo entre cinco e trinta associados. Os associados podem voluntariamente participar no trabalho de um grupo de estudo ou loja, desde a frequência das aulas até ao ministrar das mesmas no âmbito da disseminação pública dos ensinamentos teosóficos. Todas as atividades são voluntárias. Além disso, existem associados que não pertencem a nenhuma loja porque vivem em países ou regiões que não têm nenhum centro da L.U.T. nas proximidades. Não existe líder na L.U.T., nem nenhuma organização formal, embora a Theosophy Company sirva como agente fiduciário para a L.U.T. e para as suas publicações. Todas as lojas e grupos de estudo são independentes uns dos outros mas estão unidos num propósito comum, o objetivo individual de perseguir os três objetivos da L.U.T. que são praticamente idênticos aos objetivos da S.T. de Adyar, a saber: (1) “Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor.” (2) “O estudo das religiões, filosofias e ciências antigas e modernas e a demonstração da importância de tal estudo; e (3) a investigação das leis não explicadas da Natureza e os poderes psíquicos latentes no homem”. O trabalho das Lojas está focado na disseminação da Teosofia original.


Aqueles que estejam em concordância com a Declaração da L.U.T. são considerados associados. Expressam a sua simpatia para com o trabalho da L.U.T. da seguinte maneira: “Estando de acordo com os propósitos desta Loja, tal como enunciados na sua “Declaração”, tenho a honra de registar a minha intenção de ser inscrito como um Associado, entendendo-se que essa associação não reclama nenhuma obrigação da minha parte, sem ser aquela que eu próprio determine.” O número de associados é incerto porque não há renovações nem “manutenções” de membros, nem existe uma lista publicada de associados. O único número fornecido por um associado em Los Angeles é que “muitos milhares de associados” têm pertencido à L.U.T. desde 1909, mas atualmente não devem existir mais que uns poucos milhares em todo o mundo. Existem Lojas e grupos de estudo em Los Angeles, mas também noutras partes dos E.U.A, Canadá, Bélgica, Inglaterra, França, Índia, Itália, México, Holanda e Suécia. As publicações incluem os trabalhos de Blavatsky e Judge, compilações de artigos, cartas e palestras por Robert Crosbie, intituladas The Friendly Philosopher, o seu comentário e discussão sobre O Oceano da Teosofia de Judge, intitulado Answers to Questions on the Ocean of Theosophy e um pequeno livro, Universal Theosophy. A Theosophy Company também publica trabalhos que estão geralmente associados com a Teosofia antiga (como o Bhagavad Gita, os Yoga Sutras de Patanjali e O Dhammapada), e as revistas Theosophy, The Theosophical Movement (Bombaim) e Vidya (Santa Barbara, Califórnia).



Edifício da LUT em Los Angeles, Califórnia 

Continua na próxima semana.

sábado, 20 de Setembro de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (8ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a antepenúltima das dez partes.


Organização e Associação

A Sociedade Teosófica, com sede internacional em Adyar, Chennai, Índia tinha no mundo inteiro, no final de 2001, um número de associados de 26 606, distribuídos por quase setenta países. A Sociedade Teosófica na América, uma das suas secções tinha    3 357 membros em Dezembro de 2012. A Sociedade de Adyar considera-se como a Sociedade Teosófica matriz, remontando às suas origens de 1875 em Nova Iorque, embora a Sociedade Teosófica (Pasadena) assuma a posição de que a Sociedade Teosófica se dividiu em 1895, com cada S.T. a ter os mesmo direitos a reinvidicar as suas origens à S.T de Nova Iorque de 1875. A Sociedade Teosófica (Adyar), constituída em Madras (atualmente Chennai) em 1905, é presidida por Radha Burnier [NT: Como já foi atrás referido a senhora Burnier faleceu já depois desta versão do artigo ter sido redigida, o presidente atual é Tim Boyd] que ocupa a posição desde 1980. Compreende cinquenta e uma sociedades ou secções nacionais, sendo as mais antigas a Secção Americana (a Sociedade Teosófica na América, como é agora conhecida), constituída em 1886 e a Secção Inglesa (fundada em 1888). Depois da separação da sociedade de Judge da de Adyar em 1895, Olcott cancelou a licença da Seção Americana. Uma nova licença foi emitida, com a Loja de São Francisco a servir como sede temporária, nesse mesmo ano para a Secção Americana da S.T. de Adyar, tornando a licença válida retroativamente desde 1886. (Theosophist, Suplemento de outubro, 1895).

As secções são compostas por Lojas. Um pequeno número de Lojas estão diretamente ligadas à sede internacional de Adyar. O órgão de governo da S.T. é o Conselho Geral, que consiste de presidente, vice-presidente, secretário, tesoureiro, todos os Secretários Gerais das secções nacionais e até doze membros adicionais nomeados pelo presidente e eleitos pelo Conselho Geral. O presidente internacional é eleito por sufrágio universal de todos os membros elegíveis de sete em sete anos entre os candidatos que recebam pelo menos 12 nomeações dos membros do Conselho Geral. O presidente nacional da Secção Americana é eleito de forma semelhante de três em três anos. Realiza-se anualmente uma convenção internacional, habitualmente em Adyar. A Sociedade tem uma magnífica biblioteca nas instalações da sede, que aloja manuscritos originais em Sânscrito e noutras linguagens asiáticas, bem como livros e jornais sobre Teosofia, filosofia e religião. Os arquivos da Sociedade estão presentemente alojados no edifício sede e contêm muitos milhares de documentos, incluindo os diários de Blavatsky e Olcott. A Theosophical Publishing House também funciona em Adyar e produz vários panfletos e livros, na sua maioria escritos por membros e continua a publicar o mais antigo periódico teosófico, o Theosophist. Além disso, a Adyar Newsletter é publicada trimestralmente pela Sociedade, tal como o respeitado Adyar Library Bulletin [Boletim da Biblioteca de Adyar], um jornal académico especializado em investigação oriental.


Sede da ST Adyar


Teosofia na América

A Secção Americana da Sociedade Teosófica de Adyar, embora tenha diminuído substancialmente em número de membros em 1895, altura em que muitas das suas Lojas seguiram Judge tornando-se independentes de Adyar, rapidamente recuperou a sua força sob a liderança de Alexander Fullerton (1895-1907), e como resultado de uma digressão em 1897 à Sociedade Americana por parte de Annie Besant e da Condessa Constance Wachtmeister (1839-1910), uma colaboradora próxima de H.P. Blavatsky e uma entusiástica trabalhadora pela causa teosófica. Esta e subsequentes digressões iniciadas por Charles Webster Leadbeater em 1900 e por Olcott e pela Condessa Wachtmeister em 1901 conduziram a um aumento de membros de 281 em 1896 para    1 455 em maio de 1901. A Secção Americana continuou sendo um interveniente relevante na Sociedade Teosófica durante uma série de Secretários Gerais (ou Presidentes como os líderes eram então chamados). Depois de Fullerton vieram Weller Van Hook (1907-1912), que mudou a sede da Secção de Nova Iorque para Chicago; A.P. Warrington (1912-1920), que foi responsável pelo estabelecimento de uma nova sede em Krotona, Hollywood e L.W.Rogers (1920-1931), sob cuja administração, a primeira pedra do novo edifício-sede em Wheaton, Illinois foi colocada em 1926. 


ST na América - sede - Edifício Rogers

Em 1927, o número de membros da Secção atingiu os 8 500. Sidney A. Cook (1931-1945) presidiu à Sociedade numa altura em que o número de membros diminuiu até os 3 000 em 1941, em parte devido à dissolução da Ordem da Estrela por parte de Krishnamurti e também devido à Depressão. Sucedeu-o James S. Perkins (1945-1960), Henry Smith (1960-1965), Joy Mills (em 1965 como presidente nacional em exercício e de 1966 a 1974 como presidente), Ann Wylie (1974-1975, em exercício), Dora Kunz (1975-1987), Dorothy Abbenhouse (1987-1993), John Algeo (1993-2002), Betty Bland (2002-2011) e Tim Boyd (desde 2011).


Sede da ST na América - Edifício Rogers

A sede da Sociedade Teosófica na América em Wheaton, Illinois, é onde está localizada uma grande biblioteca para investigação e empréstimo de livros. Também publica uma série de trabalhos, incluindo os Quest Books, através da Theosophical Publishing House (Wheaton). A S.T.A. também publica a Messenger para os seus membros, a revista Quest para os leitores em geral e uma newsletter eletrónica mensal. Embora em termos organizacionais não seja uma parte da S.T., a Secção Esotérica está proximamente associada com a S.T.. A sua sede nos Estados Unidos está em Ojai, Califórnia, no Instituto Krotona. Nas suas instalações funciona a Escola de Teosofia de Krotona, cujo principal objetivo é servir como suporte educacional da Sociedade, promover o seu trabalho e implementar os três objetivos da S.T. Estes objetivos (de acordo com a redação da Sociedade Internacional) são: (1) Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor. (2) Encorajar o estudo de Religião Comparada, Filosofia e Ciência [A Sociedade Teosófica na América tem “estudo comparado da religião…”]; (3) Investigar as leis não explicadas da Natureza e os poderes latentes no homem. [A S.T.A. substitui “humanidade” por “homem”.] É suposto os membros da S.T. procurarem a verdade através do estudo, serviço e devoção a ideais elevados. A Sociedade declara: “Todos aqueles que simpatizem com os objetivos da Sociedade Teosófica serão bem recebidos como membros, e cabe a cada membro se tornar um verdadeiro teosofista”.


Instituto Krotona

Continua na próxima semana.

sábado, 13 de Setembro de 2014

A versão final da declaração de Naarden - ITC2014

Esta semana foi finalmente publicada a versão final da Declaração de Naarden, redigida na sequência da Conferência Internacional de Teosofia-2014.

Para perceber o contexto recomenda-se a leitura do post da semana passada.


Uma bela foto da Crystal House, em Naarden
(foto:abhidhamma.com) 

No site do ITC podemos ler o seguinte:

“Durante os quatros dias da Conferência, todos os presentes trabalharam em conjunto para “A Declaração de Naarden da Conferência Internacional de Teosofia 2014”. Recorrendo aos contributos de todos os participantes, um número de representantes das várias tradições teosóficas compilou uma proposta para a declaração. Na 2ª feira, 18 de agosto, o último dia da Conferência, o resultado foi apresentado à plateia, tendo sido recebida com muito entusiasmo e comentários construtivos.

Depois do encerramento da conferência, a proposta de declaração foi também publicada no site do ITC, de modo a que os participantes tivessem a oportunidade de enviar considerações e sugestões adicionais. A direção do ITC integrou todas as reações, mas também tentou manter o espírito da declaração tal como foi apresentada durante a conferência, o que conduziu à versão final que abaixo se apresenta.

Considerando que as Conferências Internacionais de Teosofia, Ltd. são uma plataforma onde as organizações teosóficas e os teosofistas se encontram, estimulando-se mutuamente para a  divulgação da Teosofia no mundo, esta declaração é apresentada como uma declaração conjunta, recordando-nos da cooperação fraterna durante a Conferência do ITC 2014 em Naarden. Ela expressa a nossa visão partilhada para o futuro e resume o nosso compromisso e o modo como gostaríamos de trabalhar em conjunto esse futuro.

A declaração não deve ser entendida como uma obrigação ou como um dogma.


Foto de grupo do ITC 2014


A declaração de Naarden


Respeitando a diversidade e liberdade das diferentes correntes teosóficas, esforçar-nos-emos por agir como um farol de luz, para levar ao Mundo a Teosofia, de acordo com* os ensinamentos de H.P. Blavatsky e dos seus Mestres. De modo não dogmático e através de cooperação harmoniosa fortaleceremos o movimento teosófico para o benefício da humanidade.

No espírito da unidade e fraternidade, esforçar-nos-emos nos para tornar a Teosofia uma força viva no Mundo.

Comprometemo-nos através da aprendizagem, formação e da polinização-cruzada a popularizar e a preservar os ensinamentos vivos para as gerações futuras.

*em harmonia com / em conformidade com / de modo consistente com



A direção do ITC reconhece que é praticamente impossível expor em palavras aquilo que efetivamente teve lugar durante esta conferência histórica e bem sucedida. O nosso objetivo principal e que todos partilhamos, é o de manter vivo o espírito do ITC 2014.”





Algumas considerações sobre a declaração

A declaração final publicada na passada quarta-feira contém várias alterações face ao primeiro projeto. Tenta eventualmente acomodar a opinião de alguns teosofistas da ST Adyar - com a referência mais explícita ao “não dogmatismo” - e também de alguns associados da LUT (Loja Unida de Teosofistas) e da organização de Point Loma, com a alusão aos “mestres” e não apenas a H.P. Blavatsky.

Embora isto possa parecer pouco claro a quem não está familiarizado com esta iniciativa, a verdade é que “H.P.B. e os seus mestres”, são o (grande) ponto de contacto entre as diversas tradições. Não são Krishnamurti, De Purucker ou Crosbie (por maior que seja a consideração que os teosofistas de Adyar, Point Loma ou da LUT têm, respetivamente, por essas figuras proeminentes) que irão promover o congregar de esforços entre os teosofistas das diferentes tradições.


H.P. Blavatsky

É preciso primeiro encontrar a base comum, de onde se iniciou o movimento teosófico moderno, para poder construir algo valioso para o futuro e que ajude a preservar a Teosofia. Se bem que esta nunca morrerá, a maior parte das Secções da Sociedade de Adyar têm perdido membros (bastará ver a evolução do número de pessoas habilitadas a votar nas eleições para a Presidência, ou então consultar as estatísticas, aqui, aqui e aqui). Os teosofistas da LUT também reconhecem a perda de associados e a elevada faixa etária de grande parte dos que permanecem como seus associados. Eventualmente a ST Point Loma tem crescido bastante nos últimos anos, mas basicamente está confinada à Holanda, tendo representação na Alemanha.

Outro ponto importante é o de que ninguém fica proibido de estudar seja o que for. Entenda-se que o ITC é apenas uma plataforma que definiu com esta declaração, diretrizes para trabalho conjunto por parte das organizações teosóficas e dos teosofistas que nelas estão filiados, bem como daqueles que não estão ligados a nenhuma das organizações.

Facilmente se entende que as alusões a figuras que estão associadas apenas a uma das tradições gerariam profunda desarmonia na plataforma.

A referência à “polinização-cruzada” tem a ver basicamente com o aproveitamento de sinergias. Cada uma das organizações tem os seus pontos fortes e como ficou evidente em Naarden (e com certeza noutras conferências anteriores) é fundamental a partilha deste know-how e das experiências de cada uma das organizações. Isso poderá se fazer através do convite para palestras de um teosofista de outra organização que seja especialista num determinado tema.  Mas este é apenas um exemplo, muitas outras formas existirão de fazer essa polinização-cruzada.

A palavra “formação” também me levantou certas dúvidas, mas ao que percebi a referência tem a ver com a necessidade de potenciar certas faculdades que facilitarão a disseminação da Teosofia, por exemplo no domínio da comunicação, gestão de grupos, liderança, etc…


Algumas fotos do complexo do ITC, em Naarden


O resto da declaração não gera dúvidas, nem merece comentários de maior. Eventualmente alguns prefeririam outra redação, ou a substituição de uma ou outra palavra, mas é impossível agradar a todos, nomeadamente nestas circunstâncias, ou seja, com um passado de mais de 120 anos de várias desavenças dentro do movimento teosófico (isto se contabilizarmos o período pós-Blavatsky, embora nos primeiros 16 anos da Sociedade haja já registo de muitos episódios de conflitos).

Críticas à declaração

No dia seguinte ao da declaração ter sido publicada, Erica Georgiades, deixou no seu blog algumas críticas contundentes.

A teosofista que reside na Grécia, mas que é de origem brasileira, critica dois pontos na declaração; por um lado o facto de exortar “a levar ao Mundo a Teosofia”, o que dá, na opinião da Erica, um tom messiânico, desfasado dos tempos atuais, e por outro lado, a referência explícita a “H.P. Blavatsky e aos Mestres” que ela considera divisiva.


Erica Georgiades

Apesar das réplicas já dadas por Jacques Mahnich (um dos oradores da conferência deste ano) e por Nicholas Weeks (mais contundente), Erica Georgiades não alterou a sua perspetiva.

Se em relação à segunda crítica, já acima expliquei o contexto da referência a “H.P. Blavatsky e (…) aos seus mestres”, em relação à primeira, é de referir que é absolutamente natural que os teosofistas queiram partilhar a Teosofia com mais pessoas. Obviamente que o modo como isso é levado a cabo, faz toda a diferença. 


Nicholas Weeks (à direita) com Dara Eklund,
sua esposa, que trabalhou durante vários anos
com Boris de Zirkoff

Encontramos teosofistas que fazem estudos comparativos, meticulosos e não dogmáticos e outros que apresentam a Teosofia como se de uma religião exotérica se tratasse, com escrituras e figuras divinas para adorar. Mas, esta postura não poderia estar mais distante  do espírito de Naarden.

sábado, 6 de Setembro de 2014

ITC 2014 – A Construção de Pontes Sólidas para o Futuro

Realizou-se há três semanas no Centro Teosófico Internacional, em Naarden, na Holanda, mais uma Conferência Internacional de Teosofia (ITC). Este ano o tema foi “Teosofia, Unidade e a Ajuda ao Mundo…E a partir daqui, por onde vamos?”. Estiveram presentes teosofistas ligados às principais tradições (com exceção da Sociedade Teosófica de Pasadena, que se posicionou à margem desta iniciativa) e também teosofistas independentes. Muitos países estiveram representados (Holanda, Alemanha, Itália, França, Bélgica, Espanha, Eslovénia, Suécia, Finlândia, Reino Unido, Portugal, Hungria, Brasil, EUA, Nova Zelândia, etc...). Ao contrário de ITC anteriores, baseadas em sequências de palestras, esta conferência teve um programa especialmente desenhado para o diálogo ente os participantes.




O PRIMEIRO DIA

Na 6ª feira (primeiro dia do evento), com casa cheia - perto de 140 teosofistas - a saliência vai para o discurso aberto e sereno de Tim Boyd, o presidente da Sociedade Teosófica (ST) de Adyar, perfeitamente enquadrado no tema da Conferência.

Tim Boyd, presidente da ST Adyar


Nesse mesmo dia, já depois do jantar foi a carta do Mâha Chohan – distribuída a todos os presentes - que esteve no centro das atenções, sendo discutida por um painel com Jon Knebel (da ST Adyar-EUA), Herman Vermeulen (o líder da ST Point Loma-Blavatskyhouse) e Eugene Jennings (Loja Unida de Teosofistas).

Os vídeos relativos ao dia de 6ª feira (e manhã de sábado – onde o tema foi a Religião) estão disponíveis aqui.


OS DIAS SEGUINTES

Ao contrário do primeiro dia, os dias seguintes - sábado, domingo e 2ª feira - foram dias de intenso trabalho na Conferência.

Para quem não esteve em Naarden, o material disponível na internet parecerá muito mais escasso e eventualmente menos interessante do que a do ITC do ano passado, em Nova Iorque. Das seis exposições a que se assistiu nos dias centrais da Conferência, repartidas de igual modo pelos temas Religião, Filosofia e Ciência, destacava as relativas a este último tema, por Joop Smits e Jacques Mahnich, bastante elogiadas pelos presentes. No domínio da Religião, saliência para a comunicação de Barend Voorham e na de Filosofia, essencialmente pelo conteúdo informativo, valerá a pena visualizar a intervenção de Trân-Kim-Diêu.

Jacques Mahnich


Os vídeos para sábado à tarde (Filosofia) estão aqui e para domingo de manhã (Ciência) aqui.


TRABALHANDO EM EQUIPA

Depois do primeiro conjunto de palestras (sobre Religião) foram divulgados os grupos de trabalho, já constituídos previamente (os líderes dos grupos receberam formação específica na manhã de 6ª feira por parte de April Hejka-Ekins, que há algum tempo foi alvo de um post no Lua em Escorpião, a propósito de uma palestra dada na Grécia sobre a ética nas obras de H.P. Blavatsky).





Depois das apresentações entre os elementos que o compunham, os grupos discutiram questões basicamente relacionadas com o modo como poderia a Teosofia se tornar mais presente na Religião (e na Filosofia e na Ciência), tendo que apresentar as suas conclusões numa folha A0 que depois seria colocada num placard.

Na dinâmica de grupo eram evidentes as idiossincrasias ligadas a cada tradição: a enfâse na liberdade de pensamento defendida pelos teosofistas da ST Adyar - particularmente os simpatizantes de Krishnamurti, nada propensos a ficarem presos aos conceitos que surgiram durante a primeira geração de teosofistas; a confiança inabalável dos teosofistas da Loja Unida de Teosofistas (LUT) nos ensinamentos originais e o voluntarismo entusiasta da ST Point Loma-Blavatskyhouse, cheia de energia e de ideias para propagar a Teosofia, também assentes em fundamentos bem firmes. E não esquecer, os teosofistas independentes ou não-filiados - como prefiro designar – prontos a ouvir ambos os lados, mas também a expressar as suas perspetivas, por vezes diferentes e conciliadoras.


Besant Hall, local onde decorreu grande parte do ITC

Inevitavelmente surgiram momentos onde a discussão foi mais acesa, às vezes intervalada por uma certa tensão. Houve quem tivesse dificuldade em aceitar ficar em minoria e simplesmente decidisse dar uma volta pelo verdejante complexo onde se realizava o ITC. Por vezes, parecia que estávamos assistindo numa microescala ao subjacente a muita da dinâmica que caraterizou o movimento teosófico – por um lado, a capacidade para trocar ideias, chegar a consensos e produzir algo maior do que a soma das partes, ou por outro lado, a desarmonia total, onde a vontade de ter razão impera, esquecendo-se os ideais de altruísmo, fraternidade e de priorizar o bem comum. Obviamente que isto não se aplicaria a todas as situações. Com certeza em certos momentos, a decisão de romper pode ser a mais acertada, mas não entremos nessas questões, ainda para mais quando o artigo é sobre o ITC, onde o propósito é o estabelecimento de uma base de entendimento entre teosofistas de diferentes tradições.

Para uma ampla maioria foi sem dúvida uma descoberta maravilhosa e muitas ligações foram criadas.

No domingo à tarde foi adotado um novo sistema ao qual me referia na brincadeira, ser uma espécie de speed-dating entre teosofistas. Pequenas mesas com 4 ou 5 elementos onde se dialogava num sistema rotativo que obrigava cada participante (com exceção do líder da mesa) a se levantar ao fim de 15 minutos e a mudar de mesa, consecutivamente durante mais de 2 horas. Naturalmente, isto criou mais interação entre os presentes e praticamente todos se ficaram a conhecer.


Crystal Hall, local onde eram servidas as refeições


A DECLARAÇÃO DE NAARDEN

No domingo à noite, num grupo mais restrito, discutiram-se propostas para a declaração de Naarden, que no presente momento ainda se encontra em discussão. Até ao momento reza assim:

1.  Respeitando as diferentes correntes teosóficas, agiremos como o farol de luz, para levar ao Mundo a Teosofia conforme explanada por H.P. Blavatsky, e através de cooperação harmoniosa fortaleceremos o movimento teosófico para o benefício da humanidade.

2. No espírito da unidade e fraternidade, esforçar-nos-emos nos para tornar a Teosofia uma força viva no Mundo.

3. Comprometemo-nos através da aprendizagem, formação e da polinização cruzada a popularizar e a preservar os ensinamentos vivos para as gerações futuras.

Os pontos ainda em debate são os seguintes:

-“o farol de luz” ou “um farol de luz”?
- “a Teosofia conforme explanada por H.P. Blavatsky” ou por “H.P. Blavatsky e os Mestres”?
- como o primeiro ponto não reuniu unanimidade mantém-se a redação do mesmo em discussão. O texto alternativo é:

“Reconhecendo os ensinamentos de H.P. Blavatsky como o nosso alicerce, e respeitando a diversidade e a liberdade das diferentes correntes teosóficas, agiremos como um farol de luz para levar a Teosofia ao mundo. Através de cooperação harmoniosa fortaleceremos o movimento teosófico para benefício da humanidade.”


ORGANIZAÇÃO IMPECÁVEL

Jan Kind, que está à frente da iniciativa Theosophy Forward e Herman C. Vermeulen, líder da ST Point Loma-Blavatskyhouse foram os coorganizadores deste ITC. Marijn Gisbers foi o dinamizador nas discussões gerais, um papel que desempenhou com maestria.

Herman C. Vermeulen
Jan Kind

Na organização do evento há a destacar o papel da ST Point Loma-Blavatskyhouse cujos membros foram inexcedíveis em suprir todas as necessidades. Um trabalho notável de uma equipa muito coesa, e elogiado por todos.

Nunca é demais repetir quão maravilhoso é este complexo do Centro Internacional Teosófico (que também tem a sigla ITC) em Naarden, cuja história foi contada por Arend Heijbroek na noite de sábado e que está disponível no Youtube.




E AGORA, POR ONDE VAMOS?

Muitos dos presentes, a maior parte dos quais já tinha estado presente em anteriores ITC, considerou a edição deste ano um marco histórico pela intensidade de diálogo que se estabeleceu entre os teosofistas das diferentes correntes. A questão que se colocava é se esta energia iria perdurar ou não. É natural que o entusiasmo estivesse ao rubro no final da Conferência, mas o tempo vai passando, deitando alguma água na fervura.

De qualquer modo, uma base mais sólida para permitir um diálogo mais maduro e proveitoso para todos, foi construída. Contudo, antes de se entrar na fase seguinte, haverá provavelmente que se aprofundar os laços criados.

Foto de grupo do ITC 2014

sábado, 30 de Agosto de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (7ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a sétima de dez partes.


Crenças e práticas

Os ensinamentos promulgados pelas sociedades teosóficas são em última instância o que tem prendido a atenção dos seus membros, sendo igualmente aquilo que os indivíduos em geral entendem ser a Teosofia. Em regra, a maior parte dos teosofistas associa os ensinamentos básicos com as “três proposições fundamentais” contidas no Proémio da magnum opus de H.P. Blavatsky, A Doutrina Secreta. Uma visão global da evolução do modo como Blavatsky e outros teosofistas entendiam a Teosofia revela uma variedade de interpretações. De facto, o termo “Teosofia”, escolhido para representar as aspirações e os objetivos da Sociedade, teve pouco a ver com o seu desenvolvimento posterior. Teosofia foi aceite como o nome da Sociedade em linha com a definição encontrada numa edição do dicionário Webster (publicado por volta de 1875), que é a seguinte: “suposto relacionamento com Deus e os espíritos superiores e consequente obtenção de conhecimento sobre-humano por processos físicos bem como por operações teúrgicas de antigos Platonistas, ou através de processos químicos dos filósofos do fogo germânicos.” O termo, contudo, não era desconhecido antes deste período (setembro de 1875). Blavatsky empregou-o em fevereiro de 1875 numa carta ao Professor Hiram Corson (“Teosofia ensinada pelos anjos”) e no seu artigo “Algumas questões para ‘Hiraf’”.

Num encontro que teve lugar a 7 de setembro de 1875, uma palestra dada por George H. Felt sobre “O canône perdido das proporções dos Egípcios” refletiu essa definição. Nessa ocasião, o futuro presidente da Sociedade Teosófica, Henry S. Olcott, propôs a formação de uma sociedade com o objetivo de obter “conhecimento da natureza e dos atributos do Poder Supremo e dos espíritos superiores através do auxílio dos processos físicos.” Esta foi a declaração no “Prêambulo e Estatutos” (30 de outubro de 1875), bem como no discurso inaugural do Coronel Olcott como presidente da Sociedade: ”…como podemos esperar que como uma sociedade tenhamos uma representação ilustrativa do controlo do adepto teurgista sobre os poderes subtis da natureza? Mas é aqui que as supostas descobertas do Sr. Felt entram em jogo. Sem alegar ser teurgista, mesmerista, ou espiritualista, o nosso vice-presidente compromete-se, através de simples aplicações químicas, mostrar-nos, como já fez antes perante outros, as raças de seres que, sendo invisíveis aos nossos olhos, povoam os elementos…Imaginem as consequências da demonstração prática da sua verdade, para a qual o Sr. Felt está agora a preparar os dispositivos necessários!”

Noutras palavras, o objetivo original da Sociedade Teosófica era – nas palavras das atas registadas a 8 de setembro de 1875 – “para o estudo e elucidação do Ocultismo, Cabala & etc....” ou, talvez para usar uma terminologia que reflita mais diretamente as afirmações feitas acima por Olcott: demonstrar, de forma científica, a existência de um mundo oculto, repleto com forças ocultas e seres aí existentes. Nesta perspetiva, os objetivos originais de 1875 da Sociedade (“recolher e difundir um conhecimento das leis que governam o universo”) têm um significado alargado. Contudo, ao longo dos anos subsequentes, o termo assumiu diferentes conotações, com a maior parte dos teosofistas a verem-no como a sabedoria que tem existido desde a aurora da humanidade, preservada e transmitida por grandes instrutores como Pitágoras, Buda, Krishna e Jesus, desde a sua criação até ao presente e confirmada nos mitos, lendas e doutrinas da tradições históricas religiosas, como o Cristianismo, Judaísmo, Hinduísmo, Budismo e Islamismo e em cultos de mistério menos conhecidos. A primeira expressão em livro desta sabedoria e dos objetivos originais (1875) da Sociedade Teosófica foi Ísis sem Véu, de Blavatsky, publicada em 1877. Nos dois anos subsequentes, mais de dez mil cópias foram vendidas, tornando-o num dos livros mais populares deste género do século XIX. Continua a ter influência considerável nos círculos teosóficos, com mais de 150 mil cópias vendidas desde a sua publicação.


Os três objetivos da Sociedade Teosófica

Foi dado um sabor mais oriental (ou seja, indiano) à sabedoria descrita em Ísis sem Véu na publicação do livro de 1888 de H.P. Blavatsky A Doutrina Secreta. As suas três proposições fundamentais foram acima referidas como a existência de um absoluto subjacente a toda a manifestação, a ciclicidade do universo e a identidade do indivíduo com a alma suprema universal e a peregrinação de todas as almas através da reencarnação e carma. A Teosofia, neste sentido, adotou uma visão não–dualista ou monista da realidade última, manifestada ou emanada numa complementaridade dinâmica e progressão evolucionária. Estas “proposições” gerais apresentadas por Blavatsky foram reafirmadas em ensinamentos mais específicos em A Doutrina Secreta e noutros lados, parte do qual pode ser sumarizado nas seguintes afirmações:

- A evolução do indivíduo imortal continua através de vidas incontáveis, e tal continuidade é tornada possível através da reencarnação: a entrada do Ego – a tríade Espírito, Alma e Mente – noutro corpo (humano).

- O complemento da reencarnação é aquela força conhecida como “A Lei da Causa e efeito (Karma)” que alimenta futuros renascimentos e determina a qualidade da experiências dos mesmos.

- A estrutura do universo manifestado, humanidade incluída, pode ser vista como setenária na composição e cooperativa em todos os relacionamentos.

- A humanidade evolui através de sete grupos ou períodos principais chamados raças-raíz, cada uma das quais é dividida em sete subraças. No momento presente, nós humanos pertencemos à quinta raça-raiz, conhecida como raça ariana (sânscrito para “nobre”). O termo, contudo, não está limitado aos povos “indo-europeus”, tem um significado mais alargado.

- O indíviduo é na realidade nada mais que uma cópia em miniatura ou microcosmos do macrocosmos.

- O universo – incluindo a humanidade – é guiada e animada por uma hierarquia cósmica de seres sencientes, cada um tendo uma missão específica a cumprir.


Ísis sem Véu, de Helena Petrovna Blavatsky

Embora a maior parte dos teosofistas subscreva todas ou a maior parte das afirmações anteriores, há que ter presente que essas afirmações podem ter várias interpretações dependendo de cada teosofista. Além disso, embora alguns comentadores realcem a presença da filosofia oriental (hindu e budista) no ensinamento teosófico depois de 1880, quando Blavatsky e Olcott chegaram à Índia, isto não impediu a presença de importantes ensinamentos, mitos e doutrinas ocidentais (cabalísticos, cristãos, maçónicos e pré-cristãos) depois de 1880 ou a presença de pensamento oriental antes de 1880, conforme é evidenciado em Ísis sem Véu.

Helena Petrovna Blavatsky

sábado, 23 de Agosto de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (6ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a sexta de dez partes.



Leadbeater, Krishnamurti e depois

As atividades de Besant na Sociedade durante a sua presidência estão proximamente associadas com as de outro teosofista proeminente, embora controverso, Charles Webster Leadbeater (1854-1934). Em grande medida, sob a sua influência, foram introduzidos ensinamentos teosóficos na S.T. que eram considerados pelos Blavatskyanos como estando desviados dos ensinamentos originais de Blavatsky e dos seus Mestres. Ironicamente chamados de “neo-teosofia” por F.T. Brooks, um escritor teosófico e tutor de Jawaharlal Nehru nos primeiros anos do século XX, estes ensinamentos eram considerados por aqueles que se limitavam aos escritos de Blavatsky e Judge como heréticos, de acordo com as opiniões que apareciam na literatura teosófica dos anos 20 do século passado.

A “neo-teosofia” incluía dois atos altamente significativos e inovadores: a descoberta por Leadbeater, em 1909, do veículo físico para o Instrutor do Mundo vindouro – conhecido como Maitreya ou o Cristo – Jiddu Krishnamurti (1895-1986), e também uma aliança desde 1917 com a Igreja Católica Liberal (antes, Igreja Vetero-católica) sob a direção dos Bispos Leadbeater e James Wedgwood. Como se as atividades acima mencionadas não fossem suficientemente controversas para muitos dentro do movimento teosófico, Leadbeater, o homem por trás destas inovações, estava ele próprio sob um manto de escândalo.

Em 1906 foram levantadas acusações pela secretária da Secção Esotérica na América, Helen Dennis, de que ele estava ensinando ao seu jovem filho e a outros rapazes masturbação como forma de prática oculta. Esta denúncia, que levantou o espectro da pederastia aos olhos do seu acusador, conduziu ao abandono da Sociedade por parte de Leadbeater. Depois da sua readmissão em 1908 com a ajuda de Besant, Leadbeater descobriu pouco tempo depois J. Krishnamurti, um jovem rapaz hindu que segundo ele haveria de ser o veículo para o Instrutor do Mundo vindouro. Muito do trabalho da Sociedade girava em torno do treino do rapaz e da preparação do caminho para a vinda do Instrutor do Mundo.


Jiddu Krishnamurti

Em 1911, outra organização conhecida como a Ordem da Estrela do Oriente (O.E.O) foi fundada em Benares por George Arundale – que rapidamente se tornou uma organização mundial com a ajuda da Senhora Besant – especificamente para aquele propósito. No órgão oficial da Ordem da Estrela do Oriente, The Herald of the Star 1.1 (11 de janeiro de 1912): 1-2, J. Krishnamurti (ou quem escreveu em seu nome) notou que George S. Arundale, o diretor do Colégio Central Hindu, foi o verdadeiro fundador da Ordem, conhecida na altura da sua formação como a “Ordem do Sol Nascente”. O seu propósito era “juntar todos aqueles…que acreditavam na vinda próxima de um grande Instrutor, e estavam desejosos de trabalhar de algum modo para se preparar para Ele.”

Não muito tempo depois, o Secretário-geral da Secção Alemã, Rudolf Steiner, desencantado com a O.E.O. e desagradado com a presidência de Besant, agiu de forma a levar o Conselho Geral da S.T. a aconselhar a Presidente no sentido de fechar a Secção alemã e a criar uma nova Secção para algumas lojas alemãs (Theosophist de fevereiro de 1913, p. 637). Cinquenta e cinco de sessenta e nove das lojas alemãs seguiram Steiner, que rapidamente organizou uma nova sociedade, a Sociedade Antroposófica, no início de 1913. Apesar das deserções de Steiner e de outros, a Sociedade Teosófica, contudo, ganhou mais membros do que perdeu. A promessa da vinda iminente do Instrutor Mundial no veículo de Krishnamurti contribuiu para uma controvérsia sem precedentes dentro da Sociedade Teosófica e também para a sua maior popularidade, isto até 1929, altura em que Krishnamurti renunciou ao seu papel e deixou a Sociedade. Depois disso, a Sociedade nunca recuperou a popularidade que teve nos anos 1920.


Rudolf Steiner

O segundo acontecimento que gerou controvérsia foi a promoção da Igreja Vetero-Católica (mais tarde Católica Liberal) por parte de membros da Sociedade. Esta promoção foi principalmente uma ideia original de C.W. Leadbeater, que com James Ingall Wedgwood (1883-1951), ajudou a fundar a Igreja. Os teosofistas, especialmente aqueles não pertencentes aos grupos de Adyar, viam os rituais da I.C.L. e a aceitação da sucessão apostólica, onde o episcopado é uma realidade, como não tendo lugar no ensinamento teosófico. À medida que os anos 1920 progrediam, houve uma tentativa de combinar as alegações centradas no Instrutor Mundial com o ritual da I.C.L., incluindo a seleção de doze “apóstolos” para Krishnamurti, mas por fim todo o plano se desintegrou com a rejeição por parte de Krishnamurti do papel de Instrutor Mundial.

Depois de 1929, a S.T. redimensionou-se e voltou aos ensinamentos geralmente associados à Teosofia. Depois da morte de Besant em 1933, a presidência passou para George Arundale (1934-1945), que continuou o ativismo que foi tão típico do mandato de Besant. Durante a sua presidência, a sua esposa, Srimati Rukmini Devi (1904-1986), fundou a Academia Internacional das Artes a 6 de janeiro de 1936 (mais tarde conhecido como Kalakshetra, “o campo ou o lugar sagrado das Artes”), tendo como objetivos (1) “enfatizar a unidade essencial de toda a Arte verdadeira” (2) “trabalhar para o reconhecimento das artes como vitais para o crescimento individual, nacional, religioso e internacional”, e (3) “providenciar aquelas atividades, pois são acessórias para os objetivos referidos.”


George S. Arundale

Ao segundo propósito do Kalakshetra esteve associado um renascimento e desenvolvimento da antiga cultura da Índia. Para Arundale, a dança indiana revelava um ritual oculto, nas suas palavras “o ocultismo da beleza”. Depois dele, veio um protegido de Leadbeater, C. Jinarajadasa (1946-1953), que, além dos seus vários contributos para a Sociedade, demonstrou um interesse ativo na publicação de muitos documentos relacionados com a história da Sociedade desde os primeiros anos da S.T.. Sendo um dos principais autores teosóficos, Jinarajadasa evidenciou uma distinta inclinação académica nos seus trabalhos publicados e de forma a levar a cabo o terceiro objetivo da Sociedade, inaugurou em 1949 a Escola da Sabedoria na sede internacional da Sociedade Teosófica em Adyar, na mesma data em que a S.T. iniciou a sua atividade, a 17 de novembro. Chamava-se o Centro Internacional de Estudos Teosóficos nos anos 70, mas foi rebatizada de Escola da Sabedoria em 1985.

Na comunicação aquando da inauguração da escola, Jinarajadasa declarou que o seu propósito era “capacitar os seus estudantes a se tornarem, de acordo com o seu temperamento e aptidão, filósofos, cientistas, professores éticos, artistas, juristas de direito económico, estadistas, educadores, urbanistas e todos os tipos possíveis de servidores da humanidade” (“A Escola da Sabedoria: discurso inaugural proferido a 17 de novembro de 1949”, Theosophist, 71.3 [dezembro de 1949]: 156).


C. Jinarajadasa

Depois de Jinarajadasa veio N. Sri Ram (1953-1973), responsável pela construção do atual edifício da Biblioteca de Adyar, John S. Coats (1973-1979) e a atual presidente internacional da S.T., Radha Burnier (1980-) [NT:A senhora Burnier faleceu a 31 de outubro de 2013 e as eleições que se seguiram foram ganhas pelo norte-americano Tim Boydque assumiu a presidência da S.T. Adyar no final de abril de 2014]. Coats morreu a 26 de dezembro de 1979. De janeiro a junho de 1980, Surendra Narayan atuou como vice-presidente responsável e Burnier tomou posse em julho de 1980.


John S. Coats

Continua na próxima semana.

sábado, 16 de Agosto de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (5ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a quinta de dez partes.


Outra associação, a Loja Unida de Teosofistas, foi organizada por um anterior membro da F. U. e S.T. em Point Loma e da Sociedade Teosófica de Hargrove. Robert Crosbie (1849-1919), um canadiano vivendo em Boston que se tornou teosofista sob a influência de W.Q. Judge, originalmente deu o seu apoio a Tingley como sucessora de Judge. Por volta de 1900 mudou-se para Point Loma para ajudar no trabalho que ela havia lá iniciado. Em 1904, perdendo, por motivos particulares, confiança na liderança e nos métodos de Tingley, deixou Point Loma, mudando-se para Los Angeles, onde se associou durante algum tempo à Sociedade Teosófica de Hargrove e a vários teosofistas, que iriam mais tarde apoiar a L.U.T., entre os quais estava John Garrigues.


Robert Crosbie

Em 1909, Crosbie, com estes seus conhecidos, que partilhavam a sua perspetiva que apenas a Teosofia original de Blavatsky e Judge continha os ensinamentos da Teosofia como se pretendia que fossem transmitidos nos tempos modernos (i.e., nas últimas décadas do século XIX e posteriormente), formaram a Loja Unida de Teosofistas em Los Angeles. O que separava este grupo das demais sociedades teosóficas era (e continua a ser) o seu enfoque na Teosofia original e em escritos que sejam filosoficamente concordantes com os de Blavatsky e Judge, com exclusão das cartas dos mestres K.H. e M. escritas entre 1880 e 1886 ao destacado escritor teosófico, A.P. Sinnett, vice-presidente da S.T. e rival de H.P. Blavatsky, ou seja, as Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett. Contudo, as constantes em O Mundo Oculto de Sinnett são aceites, bem como a Carta do Maha-Chohan. A razão para rejeitar a maior parte das cartas é que as cartas privadas não são substituto para os efetivos ensinamentos teosóficos; igualmente, vários membros da L.U.T. consideram que as cartas nunca se destinaram a ser publicadas.

A L.U.T. rejeita líderes e instrutores (todos os associados da L.U.T. são descritos como estudantes) e enfatiza a anonimidade daqueles que escrevem em nome da L.U.T. Até o próprio Crosbie não reclamava nenhum estatuto especial, embora ele seja muito estimado pelos associados. Depois da morte de Crosbie, a Loja de Los Angeles fundou a Theosophy Company em 1925 para servir de agente fiduciário para os associados. Não se reconheciam líderes, embora John Garrigues fosse tido como uma figura principal na L.U.T. de Los Angeles, juntamente com Grace Clough e Henry Geiger, até à sua morte em 1944, insistindo os estudantes da L.U.T. que o princípio da anonimidade mais do que compensa as suas desvantagens.

A L.U.T. tornou-se numa associação internacional de grupos de estudo através dos esforços de outra importante figura no Movimento Teosófico, o parse indiano B.P. Wadia (1881-1958). Inicialmente membro da S.T. Adyar, à qual ele se juntou em 1903 e na qual desempenhou várias funções – incluindo o de secretário de Annie Besant – ele desvinculou-se em 1922 devido à sua perceção que a Sociedade Teosófica “se havia desviado do Programa Original”. De 1922 a 1928 ele permaneceu nos E.U.A. e ajudou a fundar lojas da L.U.T. em Nova Iorque, Washington, D.C. e Filadélfia. Depois da sua partida para a Índia via Europa, ele encorajou os estudantes locais a fundar lojas da L.U.T., incluindo as de Antuérpia, Amsterdão, Londres, Paris, Bangalore e Bombaim. De momento, as lojas e grupos de estudo da L.U.T. estão localizados ao longo dos E.U.A. e na Bélgica, Canadá, Inglaterra, França, Índia, Itália, México, Holanda, Nigéria, Suécia e Trinidad (Índias Orientais). Devido aos consideráveis contributos de Wadia, ele é a única pessoa, com exceção de Crosbie, dentro da L.U.T. que é identificada pelo nome.


B.P. Wadia

Adyar


A Sociedade Teosófica, Adyar, é de longe a maior Sociedade (apesar da perda de grande parte da Secção Americana em 1895). O trabalho conduzido principalmente pelo Cel. Olcott e também em menor extensão pela Sra. Blavatsky durante a sua breve estadia na Índia, caraterizou-se por uma postura ativista, com a promoção do Hinduísmo e Budismo depois da sua chegada à Índia em 1879. O Cel. Olcott foi especialmente ativo em ajudar a iniciar um revivalismo Budista na Índia e no Sri Lanka e na melhoria da situação dos párias na Índia. Como primeiro americano a se converter ao Budismo no estrangeiro em 1880, trabalhou com grande entusiasmo para a causa do Budismo não só no Sri Lanka, mas também noutras nações budistas, promovendo a fundação de escolas budistas, escrevendo o Catecismo Budista – que tentou unir os Budistas do Norte e do Sul – e ajudando a conceber uma bandeira budista que todas as nações budistas pudessem adotar como seu emblema universal, simbolizando a unidade budista. Na Índia, Olcott fundou “escolas para os párias” para elevar as classes deprimidas.

Uma dessas escolas, nas proximidades de Adyar e hoje conhecida como Olcott Memorial School, já celebrou o seu centésimo aniversário. O seu propósito é oferecer educação livre para as crianças daquelas classes em domínios que proporcionem a auto-suficiência, como a alfaiataria, a jardinagem, a carpintaria e o trabalho tipográfico. Uma contribuição adicional feita por Olcott foi a criação da Biblioteca Oriental de modo a preservar os manuscritos indianos da negligência e a mantê-los na Índia. Os manuscritos estão guardados num novo edifício da Biblioteca de Adyar, formalmente inaugurado em dezembro de 1886.


Vista aérea da sede da ST Adyar


 Continua na próxima semana.