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sábado, 3 de setembro de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (13ª e última parte)

Depois de nas doze semanas anteriores se terem visto argumentos contra e a favor da legitimidade do 3º volume de "A Doutrina Secreta" chega a altura de fazer uma síntese e uma conclusão. Recorde-se que nas primeiras nove semanas foi publicada a tradução de “O mito do terceiro volume desaparecido de A Doutrina Secreta” de Daniel H. Caldwell e nas seguintes três a discussão sobre este mesmo tema no Theosophy Nexus

Este artigo, espero eu, irá permitir o final de discussões tão maniqueístas e extremadas à volta desta questão. O texto de Daniel Caldwell, onde se defende a tese da legitimidade do terceiro volume da “Doutrina Secreta”, está bastante bem fundamentado e tem uma sequência cronológica muito útil para analisar esta questão. Contudo, há quem apresente argumentos (legítimos) contra. Como muitas vezes acontece quando estão em avaliação situações que ocorreram há muitos anos e em que os principais atores já saíram de cena, nada é absolutamente certo. Por essa razão afirmações tão perentórias como as de Carlos Aveline que descreve o terceiro volume como uma “fabricação”, “edição ilegítima”, produto de “membros desorientados” e um ato de “deslealdade” fazem pouco sentido.


Carlos Aveline (foto: circa 2002)


O grupo de Aveline (LUT luso-brasileira) está lentamente a fazer a tradução da “Doutrina Secreta” a partir do original de 1888 e esse trabalho só deverá estar concluído daqui a alguns anos. Além da questão dos volumes ilegítimos também há a acusação de que Mead e Besant fizeram várias alterações ao texto original. Segundo várias opiniões recolhidas, algumas dessas alterações melhoraram o texto, outras são neutras e algumas não deveriam ter sido feitas. David Reigle, no entanto, considera que em termos gerais, as correções feitas por Mead e Besant melhoraram a obra, mas que o trabalho mais importante neste campo foi executado por Boris de Zirkoff que corrigiu muitas das fontes, citações e terminologia em Sânscrito e noutras línguas. É esta a versão, que também não existe em língua portuguesa, que a Sociedade Teosófica de Adyar presentemente publica.

Algumas pessoas que conheço, ao lerem estes textos críticos para com a edição existente em língua portuguesa, chegaram a pôr de lado a edição da Pensamento e até a vender os volumes no alfarrabista, sem se aperceberam que a tradução da edição original do inglês não vai de certeza absoluta incluir os volumes V ou VI (ou seja, o correspondente ao volume III inglês).

E não têm em conta que muitas das alterações feitas por Mead e Besant foram mesmo necessárias. Atente-se por exemplo, nesta frase que pode ser encontrada na p. 45 do Vol. I da “Doutrina Secreta”:




“(…) e Buddhi é a faculdade de conhecer, o canal por onde o conhecimento divino flui até ao Ego (…)”

Repare-se agora como é que a nova tradução da Doutrina Secreta feita pelo grupo da LUT luso-brasileiro apresenta esta frase:

“(…) enquanto Buddhi é a faculdade de conhecer o canal através do qual o conhecimento divino chega até o “Ego (…)”




Parece um pouco estranho, não é? E qual é a razão? Na versão original não constava a vírgula, que Mead depois acrescentou na edição de 1893 e que fez com que a frase passasse a ter sentido. Este é um exemplo de uma correção necessária à edição original e que a versão atualmente disponível em língua portuguesa tem incorporada.

Acrescente-se que segundo o sucessor de Besant na presidência da ST, George Arundale, esta edição de 1938 resulta de um fusão das “edições de 1888 e 1893. Que significa isto? Ransom, que foi a responsável pela edição de 1938 esclareceu no Canadian Theosophist que “estes melhoramentos [no texto] foram cuidadosamente revistos e nos casos em que eram obviamente vantajosos foram incorporados, caso contrário o texto de 1888 foi usado.


George Arundale (1878-1945)  e a sua esposa,
Rukmini Devi (1904-1986)

Não deixa de ser curioso que a edição preparada por Boris de Zirkoff também não tenha a vírgula…

Outra opção de gosto muito discutível que parece constar da nova tradução que está a ser feita por Aveline são um conjunto de notas de rodapé que remetem para textos escritos pelo próprio e por colaboradores.

Antes de dar por terminado este extenso artigo, queria acrescentar duas referências importantes. A primeira das quais delas é o artigo da Loja Unida de Teosofistas do Reino Unido, que é aquele que apresenta maior consistência na contestação à legitimidade do volume III.

Como argumentos mais fortes dessa posição, o autor cita H.N. Stokes e Alice Leighton Cleather. A publicação das Instruções Esotéricas, como parte desse volume III [correspondendo às páginas 77 e seguintes no volume VI da edição em português] é fortemente criticada bem como as várias alterações ao texto original de que enfermam.


Imagem que encima a página de entrada do
grupo da LUT da Reino Unido


A prova mais contundente que o editor do site blavatskytheosophy.com apresenta é uma entrevista que Besant terá concedido em 1926 ao jornal canadiano "The Hamilton Spectator", no caso ao seu editor executivo, William Mulliss.

Mulliss - Os seus críticos têm insistido que alguém suprimiu deliberadamente os terceiro e quarto volumes de "A Doutrina Secreta", mencionados por HPB no primeiro volume. O que tem a dizer sobre isto? Considera que o terceiro volume da sua edição de "A Doutrina Secreta" intitulado "Ocultismo" contém algum do material destinado aos terceiro e quarto volumes?

Besant - Fui escolhida como executora literária de HPB e o material a partir do qual compilei o terceiro volume sobre "Ocultismo" de "A Doutrina Secreta", publicado sob minha orientação foi compilado a partir de um conjunto de vários escritos encontrados na sua escrivaninha depois da sua morte. Esses papéis ficaram à minha responsabilidade.

Mulliss - Ajudou Mead na compilação desses artigos?

Besant - Não. Esses textos ficaram comigo e Mead nada teve a ver com eles.

Mulliss - Bem, e então o material para o terceiro e quarto volumes?

Besant - Nunca os vi e não sei o que lhes aconteceu.

Isto é muito diferente do que encontramos no prefácio do volume III, em que Besant refere que: "os manuscritos [foram-me] entregues por HPB" e que os recebeu "com o encargo de publicar".

É por essa razão que H.N. Stokes, no seu sarcasmo muitas vezes implacável e que incidia sobre as diversas ramificações do movimento teosófico e principais representantes (Besant, de Purucker, a própria Loja Unida de Teosofistas) escreveu no Oriental Esoteric Library Critic o seguinte:


Cabeçalho do jornal de H.N. Stokes


"Esta versão recente confirma inteiramente a opinião frequentemente expressa nos últimos anos por certos "difamadores pestilentos" [a maneira como Besant se referia aos seus críticos], a de que o terceiro volume de "A Doutrina Secreta" da senhora Besant não é na verdade uma porção daquele trabalho, mas uma compilação de uma miscelânea de artigos sobre vários temas, talvez destinados a publicação sob um ou mais títulos, possivelmente manuscritos rejeitados ou inacabados.

Em 1893 Besant eliminou da sua revisão de "A Doutrina Secreta" todas as referências ao terceiro volume, que quer HPB quer o seu assistente Dr. Keightley, tinham afirmado que estava pronta para impressão.

Em 1897 publicou um terceiro volume de  "A Doutrina Secreta" que ela alegou lhe ter sido entregue nas suas mãos por HPB, embora numa forma inacabada.

Em 1926 ela diz que este terceiro volume consiste de uma miscelânea de artigos encontrados na escrivaninha de HPB depois da sua morte e que nada sabe sobre o terceiro volume mencionado por HPB.

Deixo de bom grado a reconciliação destas afirmações aparentemente contraditórias aos defensores da infalibilidade da senhora Besant. No entretanto, talvez HPB, a qual a Sra. Besant declara, naquela mesma entrevista, ter reencarnado como um homem, "vivendo no Norte" e com o qual ela está em comunicação, possa ser persuadida a ajudar a Sra. Besant a fazê-lo".


Selo indiano com a imagem de Besant
(retirado de: http://indiaopines.com/)


Note-se que à altura da entrevista Besant tinha 79 anos. A avançada idade da então Presidente da ST de Adyar e a distância temporal para os acontecimentos em discussão (30 anos) são uma das justificações para o pouco crédito dado a estas declarações de Besant. Note-se que o texto de Daniel Caldwell apenas compreende testemunhos do período. A discussão ocorrida no Nexus também não menciona esta entrevista, que já havia sido referida num texto de Charles J. Ryan, teosofista da chamada Sociedade Teosófica de Point Loma [Sociedade mãe da ST Pasadena e da ST Point Loma-Blavatskyhouse e ainda de outros grupos de menor dimensão] que analisa de forma bastante equilibrada o enigma que é o terceiro volume de "A Doutrina Secreta".

Um dos testemunhos mais interessantes referidos neste artigo vem de Bertram Keightley.

 "(...) ainda restou uma certa quantidade de material de fragmentos inacabados ou de apêndices ou de pequenos excertos sobre simbolismo, que não se encaixavam no material selecionado ou, na maior parte dos casos, não estavam em condições ou em estado de serem publicados. Obviamente perguntámos a HPB sobre este material, dado que havia sido ela - não Arch [diminutivo de Archibald Keightley], nem eu - quem o tinha posto de lado. Ela colocou esse material que havia sobrado numa das gavetas da sua escrivaninha e disse que "algum dia" produziria um terceiro volume a partir dele. Mas nunca o fez, e depois da morte de HPB, a Sra. Besant e o Sr. Mead publicaram tudo o que poderia possivelmente ser publicado como parte do volume III na edição revista. sem uma completa e extensa revisão ou reescrita".

Ryan refere ainda a divergência nas declarações de Mead, que em 1897 escreveu na revista Lucifer que "não havia visto uma só palavra" do volume III (com exceção das Instruções Esotéricas). "Outras tarefas impediram" que participasse "nos trabalhos de edição do manuscrito, e esse fardo caiu nos ombros da Sra. Besant." Acrescenta ainda Mead que "o editor havia se comprometido a publicar [esses textos] mas partilhamos na íntegra a sua opinião, a de que seria preferível imprimi-los em como artigos especiais da Lucifer do que tê-los incluído como parte de "A Doutrina Secreta".


GRS Mead


Em 1927, Mead diz algo bastante diferente:

"Nada quis ter a ver com isto [volume III]. Considerei que a disjecta ou rejecta membra dos manuscritos dos vol. I e II não estavam à altura, e que de forma alguma melhorariam o trabalho. Pensei que preferencialmente poderiam ser impressos como artigos na Lucifer, mas de modo algum poderiam formar um todo consistente. A Sra. Besant, que dava muito mais valor ao que HPB escrevia do que eu, insistiu na sua ideia e editou ela própria o material para publicação, mas mesmo depois de usados todos os fragmentos que sobraram, constituía um volume muito fino. Persuadi-la portanto a adicionar as Instruções daquilo que é conhecido como a "Secção Esotérica" ou Escola Oriental, que até então eram documentos secretos. O meu argumento era que os "ensinamentos ocultos", tal como eram considerados pelos fiéis, estavam agora nas mãos de milhares, espalhados por todo o mundo, alguns dos quais não eram de modo algum de confiança, sendo altamente provável que algum dia fossem publicados por algum indivíduo inescrupuloso ou circulassem ilegitimamente de forma privada. Felizmente, a Sra. Besant concordou e foram incluídos no volume III, com exceção de algum material que lidava com questões sobre sexo. Uma grande dose de ansiedade libertou-se da minha mente. Pensei que ao tornar estas "instruções" acessíveis ao público em geral pudesse ser possível colocar um termo a esta escola secreta interna pouco saudável. Mas esta esperança, infelizmente, não foi concretizada."

Se todas estas contradiçoes são exasperantes para quem tenta encontrar a resposta para este enigma, o cenário ainda se torna mais nebuloso se acrescentarmos outros testemunhos.

Basil Crump, que colaborou com uma das fiéis seguidoras de Blavatsky, Alice Leighton Cleather, declarou no jornal de H.N. Stokes que parte do manuscrito do terceiro e talvez o quarto volumes de "A Doutrina Secreta" foram destruídos por Blavatsky pouco tempo antes de morrer, porque não a satisfaziam. Contudo, a maior parte foi salvaguardada e levada para a Índia onde está sob costúdia até que chegue a altura certa para a sua divulgação.

Basil Crump
(1866-1945)

Outro teosofista, Thomas Green, declarou ao Canadian Theosophist que foi recrutado pela HPB Press em Londres para preparar a impressão das partes III e IV de "A Doutrina Secreta", mas que HPB destruiu as formas antes da impressão. James Pryse, que era responsável pela HPB Press nega esta possibilidade, mas Pryse só começou a trabalhar com HPB oito meses antes de esta falecer...


Referências finais


A Doutrina Secreta é um dos pilares fundamentais da Teosofia moderna. Embora seja um tesouro de sabedoria é preciso abordá-la sem fundamentalismos e não como um livro sagrado de qualquer religião.

É a própria Blavatsky que o reconhece:

“Não é que exista qualquer pretensão à infalibilidade ou à exatidão absoluta em tudo o que se diz nesta obra (…) é mais que provável que a autora não tenha conseguido dar melhor e mais clara forma às suas explicações; sendo certo que ela fez tudo o que podia, em tão desfavoráveis circunstâncias – e mais não se pode exigir a nenhum escritor. 

Ao longo das últimas semanas, o Lua em Escorpião publicou um conjunto de material significativo sobre o enigma do terceiro volume de "A Doutrina Secreta". O texto de Caldwell é talvez a principal referência sobre esta questão, contendo uma análise minuciosa de toda a sequência cronológica referente a publicação da obra central da Teosofia e limitando-se ao período mais aproximado em que os eventos principais tiveram lugar.

A segunda parte consistiu na tradução de uma troca de ideias ocorrida no melhor fórum de debate de Teosofia, o Theosophy Nexus. Com isso, foi possível ter algum conhecimento dos principais argumentos pró e contra e também perceber que é possível discutir questões fraturantes entre teosofistas.


H.P. Blavatsky


Então, que conclusões evidentes podemos tirar?

Em primeiro lugar, não há fundamento para dizer que o material do volume III é espúrio ou uma falsificação.

Em segundo lugar, há indicações claras de que havia intenção de publicar um volume III, mesmo durante a vida de Blavatsky, com base no material que havia sido escrito antes da reordenação da obra.

A partir daqui só podemos fazer conjeturas.

É altamente provável que Blavatsky fizesse muitas alterações ao manuscrito e mesmo depois de receber as primeiras provas, como era seu hábito.

Acreditar ou não que  Besant recebeu o manuscrito de HPB com o "encargo" de o publicar conforme refere no prefácio desse mesmo volume (p.14 do vol. V da edição em português de "A Doutrina Secreta"), depende da avaliação de caráter que cada um possa fazer de Besant. E em relação a isto encontramos posições bem extremadas.

Como sempre nestas questões, sobre eventos passados há muitos anos, é difícil ter repostas definitivas. Mas é certamente possível coligir os dados que existem e discuti-los com outros teosofistas, de modo civilizado, sem insultos pessoais. Como escreveu José Manuel Anacleto, no n.º 42 da revista Biosofia (p.33): "O que está em causa são enganos, não são pessoas. Seria leviano ou pretensioso alguém dizer que, nas mesmas circunstâncias, não teria cometido esses ou outros erros; e não se pode esperar ou exigir perfeição ou infalibilidade de um estudante ou investigador de esoterismo."


FIM

sábado, 27 de agosto de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (12ª parte)

Continuamos a tradução da discussão que teve lugar no fórum de internet Theosophy Nexus, sobre a legitimidade do terceiro volume de "A Doutrina Secreta".




Peter lembra o que escreveu Alice Leighton Cleather, um antiga aluna de Blavatsky, em “ A Great Betrayal” [Uma grande traição], a que acima já se aludiu.


Alice Leighton Cleather (1846-1938)


Nicholas Weeks chama então a atenção para a opinião de James Pryse [que alinhou com Judge contra Besant e Olcott] aquando da cisão da Sociedade Teosófica em 1895 - sendo por isso o seu testemunho especialmente relevante - que escreveu o seguinte.

“Para fazer justiça ao Sr. Mead e à Senhora Besant…desejo testemunhar, que de acordo com o meu conhecimento pessoal, as acusações frequentemente repetidas de que teria um deles, ou ambos, efetuado alterações não autorizadas na edição revista (terceira) de “A Doutrina Secreta”, adulterando o manuscrito do terceiro volume e suprimido o quarto, são de todo em todo falsas e sem suporte em qualquer facto…pois eu mesmo estive por quatro anos na sede em Londres, como encarregado do Serviço de Publicações, quando se imprimia “A Doutrina Secreta” revista, e naturalmente tive todas as oportunidades de saber o que se passava…”

(…)

“Ao rever a primeira edição de “A Doutrina Secreta”, ele [Mead] repetiu precisamente o mesmo trabalho que fizera anteriormente em relação aos manuscritos de HPB – somente isso e nada mais. Para qualquer pessoa familiarizada com as particularidades literárias e mecânicas da publicação de livros, era óbvio que o manuscrito não se achava preparado em forma conveniente para impressão e que a revisão de provas fora de tal modo descuidada que até erros gramaticais evidentes, cometidos inadvertidamente pela autora, mantiveram-se. Nenhuma alteração foi feita pelo Sr. Mead ou pela Senhora Besant, senão aquelas que deveriam ter sido feitas no manuscrito original antes de ser impresso.”


James M. Pryse

“Pelo seu trabalho erudito e escrupuloso na execução da revisão, o Sr. Mead tornou-se credor da gratidão de todos os leitores esclarecidos de “A Doutrina Secreta”, como igualmente merece a Senhora Besant pela parte que lhe coube na árdua tarefa”.

“Quando eu ultimei a impressão dos Volumes I e II [correspondem aos quatro primeiros volumes na edição em português], a Senhora Besant depositou nas minhas mãos o manuscrito do Volume III…HPB havia reescrito algumas das páginas várias vezes, com rasuras e alterações, mas sem indicar qual das cópias era a definitiva; a Senhora Besant teve que decidir da melhor maneira que lhe pareceu.”

“Como o Volume III continha muito menos matéria que os outros, a Senhora Besant disse-me que ia ampliá-lo, acrescentando as Instruções da Secção Esotérica, uma vez que para tal recebera autorização de HPB. Essas Instruções, como de pode constatar, ocupam a maior parte do volume IV proposto, do qual não foram encontradas senão algumas páginas, o suficiente apenas para marcar o ponto em que HPB tinha parado de escrever. Estou a inclinado a crer que a autora tencionava incorporar aquelas Instruções ao Volume IV, e que era isso que tinha em mente quando escreveu, com tanto otimismo, que os dois últimos volumes estavam “quase concluídos”.” O texto original em inglês pode ser lido aqui.

E.T. Sturdy, que vivia em Avenue Road então, subscreve completamente Pryse.


E.T. Sturdy (1860-1957)

Depois do chamado caso Judge, Pryse manifestou animosidade face a Besant, chegando em 1897 a escrever publicamente que olhava para Besant com suspeição. No fim da vida, embora dissesse que “ela tinha sido enganada por charlatães inspirados por Dugpas”, nunca considerou que ela tivesse suprimido os volumes III e IV.

Considerava que “se fosse HPB a ter editado esse volume III, os teosofistas o haveriam valorizado, como foi a Srª. Besant e outros que o editaram, olharão para ela com uma justa suspeição.” No entanto esta suspeição teria a ver com a edição de Besant e não com a origem do material.

A perspetiva de Pryse evoluiu com o tempo. Perto da morte, em 1939 escreveu:

“As 30 000 alterações e por assim dizer correções do Sr. Mead na edição revista são excelentes. Mas ele foi muito conservador, deveria ter feito muitas mais.”

Weeks refere que as cartas trocadas entre Sinnett e Blavatsky também são importantes. Estas cartas podem ser encontradas aqui.


Alfred P. Sinnett


Numa delas, datada de 3 de março de 1886, HPB escreve o seguinte sobre o seu trabalho em “A Doutrina Secreta”:

“Terminei um enorme capítulo introdutório, Prêambulo ou Prólogo, chame-se-lhe o que se quiser (…). Posso-lhe assegurar que as coisas mais extraordinárias serão dadas agora, toda a história da Crucificação, etc…que se mostra ser baseada num rito tão antigo quanto o mundo”. Este é um tema tratado no volume V da edição em português (portanto no tal volume III em inglês, cuja validade está em apreciação neste artigo) sob o título “A prova do iniciado-Sol” (p.258).

Blavatsky também diz que lhe ordenaram escrever sobre “a existência de uma Doutrina Secreta Universal conhecida dos filósofos e iniciados de todos os países e mesmo de vários Pais da Igreja como Clemente de Alexandria, Orígenes e outros, que tinham sido, eles próprios Iniciados.”

O material sobre Clemente de Alexandria (que está no manuscrito de Würzburg tal como o da crucificação) pode ser encontrado no vol. V, secção III em “A Origem da Magia” (p.48).


H.P. Blavatsky


Daniel Caldwell reforça os seus argumentos citando Boris de Zirkoff, o compilador dos Collected Writings de Blavatsky:

…provas conclusivas mostram que as Secções XXVI e XXVII [do vol.III da DS, 1897] foram escritas por HPB em 1885, como o primeiro rascunho [da DS]…

…[Contudo, estas podem agora ser encontradas em dois artigos dos Collected Writings, Vol.VII, p.105-134 e p 230-240]

Boris prossegue referindo que as Secções XLIII-LI (volume VI da edição em português) ressaltam dizendo que há um fio condutor entre as mesmas. Um dos capítulos “O Mistério de Buddha” é referenciado no volume I nas páginas 52 e 118, da edição original em inglês [em português, não aparece].

“A natureza altamente metafísica dos ensinamentos contidos nestas secções e o facto de alguns deles delinearem certos aspetos da Tradição Ocultista não abordados por HPB noutros escritos, incluindo os dois volumes originais de “A Doutrina Secreta” dariam a perceber ao estudante que existe efetivamente uma porção de texto que inicialmente estava destinado ao Terceiro Volume deste trabalho….”

Caldwell refere que esta porção referida por de Zirkoff estava no manuscrito de Würzburg.


Boris de Zirkoff


Reigle, firme defensor da legitimidade do volume III aborda a questão dos milhares de alterações feitas por Mead e Besant:

“Isto é sem dúvida verdade, e não está em discussão. Durante os últimos anos da vida de Blavatsky, depois da chegada de Mead para ajudar, ela entregou-lhe todos os seus escritos para edição antes de publicá-los. Ela não só aprovou os seus milhares de alterações durante este período, como especificamente os solicitava” e fornece ligações para uma série de documentos importantes.

A ligação para o prefácio do terceiro volume em inglês de 1893 está disponível aqui, o de 1897  aqui, para a crítica de Mead aqui.

Peter realça que Blavatsky não estava contudo viva para validar as alterações de Mead, que na verdade, quase sempre aprovava.


G.R.S. Mead


Fergus alega que a confiança cega no testemunho de Keightley merece sérias reservas, pois este esteve em grande parte do período entre o outono de 1889 e a morte de HPB, em maio de 1891 ausente de Inglaterra (na verdade apenas lá esteve durante dois meses), portanto poderia desconhecer exatamente o estado de coisas relativamente ao terceiro volume.

A discussão acaba tensa com Jon Fergus a considerar que houve violação dos princípios do Theosophy Nexus devido a acusações por parte de Caldwell a Boris de Zirkoff e à Loja Unida de Teosofistas.

Continua na próxima semana.

sábado, 20 de agosto de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (11ª parte)

Esta semana o Lua em Escorpião dá continuidade à tradução da discussão que teve lugar no fórum de internet Theosophy Nexus.


Universal Theosophy é o site associado
do Theosophy Nexus

Reigle acrescenta que as suspeitas de o volume ser espúrio implicam desonestidade por parte de Besant, uma acusação que ele considera grave quando se sabe que ela foi “uma das pessoas mais honestas que se conhece”. Reigle vê na divisão existente no movimento teosófico originada pelo caso Judge a origem destas suspeitas. A opinião de Boris de Zirkoff -  um dos principais teosofistas do séc. XX – responsável pela edição dos Collected Writings, lançando dúvidas sobre a honestidade do 3.º volume prevaleceu. Contudo, ele próprio fez muitas correções ao trabalho de Blavatsky, nomeadamente retificando fontes e citações, sendo igualmente vítima de críticas também por mexer no trabalho original de Blavatsky. Reigle, porém, classifica o seu trabalho como exemplar.

Ele cita também Besant, que apesar de considerar que o capítulo “O Mistério do Buddha” contém vários erros, misturando o que é exotérico com o que é esotérico, assegura que:

“Salvo a correção de erros gramaticais e a eliminação de modismos de todo estranhos ao idioma inglês, os textos permanecem tais como H.P.B. os deixou”. Por aqui, se vê, alega Reigle que Besant não tinha inclinação para fazer alterações arbitrariamente.


Mais um documentário sobre Anie Besant


Reigle acrescenta que não foi o manuscrito de Würzburg que serviu de base para o volume III. Este manuscrito é uma parte de uma cópia feito a partir do manuscrito original de “A Doutrina Secreta” e que foi enviada para a Índia para correção por parte de Subba Row. Essa cópia foi enviada em partes, sendo que as restantes se perderam. Caldwell estima que o manuscrito que não desapareceu representa cerca de um terço da totalidade. A diferença na terminologia existente no manuscrito (de 1886) e o que consta no terceiro volume resulta do facto de HPB estar continuamente a fazer correções e alterações, mesmo depois da publicação ter ido para o prelo. Nas “Reminiscências de H.P. Blavatsky e de A Doutrina Secreta” da Condessa Wachtmeister poderá ser encontrada a descrição dos Keightley sobre o modo como foi escrita “A Doutrina Secreta”. Como já foi referido, em 2014 foi publicado o manuscrito de Würzburg pelas mãos de David e Nancy Reigle. O livro contém ainda o artigo “O Mito do terceiro volume da Doutrina Secreta” por Daniel Caldwell e uma cronologia, que existe também separadamente em livro.

Jon Fergus, embora mantenha a sua posição, dá uma resposta exemplar, cheia de sensatez, pondo em perspetiva toda a herança de Annie Besant, muitas vezes denegrida injustamente.

Reigle continua a juntar argumentos. Outro, bastante relevante, vem de uma comunicação com data de 6 de dezembro de 1922, entre Bertram Keightley e Charles Blech, um teosofista francês. Escreveu Keightley:


Reigle escreve assiduamente no blog "The Book of Dzyan"


“(…) Em primeiro lugar, o nosso amigo (neste caso particular, Chakravarti), não teve de todo, nada a dizer, nem nada a ver com a segunda edição de A Doutrina Secreta (chamada a edição de Besant), e foi mais o Senhor Mead do que a Senhora Besant, que ficou encarregue dela.

Quanto às pretensões de H.P.B. relativamente a volumes futuros – para além dos dois publicados sob sua própria supervisão – todo este material foi publicado no terceiro volume, que contém absolutamente tudo aquilo que H.P.B. deixou em manuscrito [citado em “The O.E. Library Critic, 4 de julho de 1923].




Isto são factos. Mas tantas intrigas, fábulas e romances sobre a história passada da ST têm circulado, que ninguém se consegue manter informado sobre elas. Corrigi-las é simplesmente uma tarefa impossível e eu já desisti dela há muito tempo.”

Blech conclui:

“Por mais que as suas paixões o encegueirem (…) não creio que os membros da S.T. possam suspeitar do testemunho do Senhor Bertram Keightley.”

Original em francês aqui e tradução para inglês aqui.

Quanto ao argumento que o material do volume III parece mais fraco que o resto de “A Doutrina Secreta”, Reigle escreve:

“As estâncias de Dzyan são únicas. Nada se lhes compara. Mas as estâncias e os seus comentários formam apenas um terço dos dois volumes de “A Doutrina Secreta”. Os dois terços remanescentes, sobre simbolismo e comparações com a ciência moderna, respetivamente, também não se comparam às secções sobre as estâncias. Não vejo qualquer diferença entre estes dois terços dos volumes I e II e o material do volume III.




Fergus adianta contudo que deverá se separar o que foi publicado em vida, do que foi publicado postumamente.

Realce-se que esta discussão decorre durante muitos dias em tom cordial. Nem sempre é assim, como aconteceu quando se falou da publicação das Instruções Esotéricas, um assunto que ainda haveremos de tratar no Lua em Escorpião. Na verdade, o Nexus é avesso a discussões que reabram velhas feridas do movimento. Teosofistas das várias tradições são membros da comunidade e a maior parte das discussões é sobre o que H.P.B escreveu, não só na Doutrina Secreta, mas também noutros livros.

Jon Fergus replica alegando que a frase dos Keightley é bastante anterior à morte de HPB e que existe uma larga distância entre o manuscrito de 1891 e a versão final do chamado terceiro volume. Reconhece contudo que não é possível ter uma opinião definitiva e que tudo se baseia em declarações de alguém e em conjeturas.


Archibald Keightley (em pé) acompanhado de
outro teosofista razoavelmente conhecido
e que irá apoiar Judge quando este rompeu
relações com Besant e Olcott. 


Fergus não põe em causa a honestidade de Besant que carateriza como alguém “bem-intencionado e corajoso”, mas duvida que Mead lhe tenha dito que a intenção de publicar as Instruções Esotéricas nesse volume era a de matar a Secção Esotérica. Portanto nalguns casos poderá ter sido vítima das intenções dos outros e de ter sido influenciada. O teosofista canadiano admite que a declaração de HPB de que o volume III estava quase pronto poderia ter sido uma precipitação e e que só existiria um rascunho que por essa razão, quando saiu, tinha muito pior qualidade que os volumes anteriores, publicados durante a vida de HPB.

Reigle considera a declaração feita por Bertram Keightley para o teosofista francês Charles Blech (já acima citada) como definitiva.

Por outro lado, Reigle refere que quer a edição de Mead (3.ª edição em inglês de 1893) e a de Josephine Ransom (edição de Adyar de 1938, a partir da qual foi feita a tradução para português) são excelentes trabalhos, contudo superados pela edição de Boris de Zirkoff que é presentemente a versão publicada pela Sociedade de Adyar (em inglês, claro).


Edicão inglesa de "A Doutrina Secreta" de 1938

Até 1995 Reigle considerava que a decisão de Adyar de retirar o volume III (ou seja os volumes V e VI da edição em língua portuguesa) de “A Doutrina Secreta” tinha sido acertada, mas depois de ler o artigo de Daniel Caldwell “O mito do terceiro volume perdido de A Doutrina Secreta”, Reigle defende a reposição do volume III como material legítimo do conjunto de “A Doutrina Secreta”.

Continua na próxima semana.


sábado, 13 de agosto de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (10ª parte)

Na semana passada terminámos a tradução do artigo de Daniel Caldwell,  "O mito do terceiro volume desaparecido de A Doutrina Secreta". Hoje iniciamos a tradução de uma discussão que teve lugar numa comunidade online de teosofistas.

O Theosophy Nexus é considerado por muitos teosofistas o melhor fórum de discussão sobre Teosofia atualmente em atividade. Está ligado ao site Universal Theosophy, também ele de grande qualidade. No Nexus debatem-se os ensinamentos teosóficos com profundidade e a maior parte das opiniões que lá surgem são de teosofistas experientes. O acompanhamento regular desta comunidade já permite uma boa aprendizagem.




Este assunto esteve lá em debate e portanto nada melhor do que traduzir algumas das intervenções. Para o efeito, o Lua em Escorpião teve a autorização expressa de um dos administradores do Nexus.

David Reigle (um dos principais, senão o principal expert em Sânscrito no movimento teosófico atual) refere: “Depois do conselho dos Keightleys, ela [HPB] mudou este material [referente à história de alguns Iniciados] do primeiro para o terceiro volume, o qual só foi publicado depois do seu falecimento.”

Jon Fergus, de quem o Lua em Escorpião já traduziu este post replica referindo que não crê que a secção que se encontra no 3.º volume seja o que HPB inicialmente planeou.


Jon Fergus

Reigle responde que efetivamente a visão que Jon apresenta era a da maioria dos estudantes de “A Doutrina Secreta”, incluindo ele próprio e Daniel Caldwell (um investigador independente que gere o portal em língua inglesa que contém mais material sobre Blavatsky, tendo o Lua em Escorpião já traduzido textos nunca antes publicados deste autor). Caldwell tem um papel central nesta questão. Foi a investigação dele que mudou a opinião de muitos no meio teosófico. Iniciada na 2ª metade dos anos 80 e encorajada pelo falecido John Cooper (teosofista australiano que esteve encarregue de compilar as famosas Cartas de HPB, o primeiro volume das quais publicado em 2004 pelas mãos de John Algeo e que tanta polémica deu), essa investigação foi publicada em 1995 no American Theosophist com a designação “O Mito do Terceiro Volume Desparecido de A Doutrina Secreta”, revisto em 2004 e publicado em 2014 no livro editado por David e Nancy Reigle “The Secret Doctrine Würzburg Manuscript”, que contém um terço do primeiro manuscrito da magnum opus de Blavatsky.

Fergus mantém-se irredutível, argumentando com a diferença de qualidade entre este terceiro volume e os dois anteriores, no que é apoiado por Nicholas Weeks (teosofista bem conhecido no meio, ligado à tradição de Point Loma e cujo texto mais conhecido será “Theosophy’s Shadow” [A Sombra da Teosofia], uma forte crítica à tradição de Alice Bailey).

Reigle saúda a discussão aberta (ao que eu acrescentaria que nunca é de mais reafirmar a necessidade de as pessoas discutirem pontos de vistas diferentes com urbanidade), mas responde que a afirmação de Bertram Keightley (ele e o seu sobrinho Archibald ajudaram a editar a primeira “Doutrina Secreta”) foi o que o fez mudar de opinião:


David Reigle

“HPB havia dado o manuscrito completo de “A Doutrina Secreta” aos Keightleys e estes sugeriram a sua reordenação. Bertram escreveu:

“(…) em vez do primeiro volume consistir na história de alguns grandes Ocultistas, como ela [HPB] pretendia, aconselhámo-la a seguir uma ordem natural de exposição e começar com a evolução dos Cosmos e daí para a Evolução do Homem e então para lidar com a parte histórica num terceiro volume abordando as vidas de alguns grandes Ocultistas…”.

Fergus reage alegando que muito tempo passou entre a afirmação de Bertram e a publicação do terceiro volume por parte de Annie Besant. Lembra que um mês antes de morrer, Blavatsky disse que o manuscrito do terceiro volume está “quase pronto”, sendo muito estranho que leve 6 anos a ser publicado e com um conteúdo pouco organizado, na opinião de Fergus.


Parte 3 do documentário sobre Annie Besant

HPB com efeito escreveu o seguinte na revista Lucifer de abril de 1891:

Há dois anos, a autora prometeu em “A Doutrina Secreta”, Vol.II p. 798 [p.366 do volume IV da edição em português de “A Doutrina Secreta”], um terceiro e até um quarto volume deste trabalho. O terceiro volume (que está praticamente pronto) trata dos antigos Mistérios da Iniciação, dá esboços – do ponto de vista esotérico – de muitos dos mais famosos e historicamente conhecidos filósofos e hierofantes (todos eles considerados pela ciência como impostores), desde a antiguidade ate à era cristã, e rastreia os ensinamentos de todos estes sábios à mesma e única fonte de todo o conhecimento e ciência – a doutrina esotérica ou RELIGIÂO SABEDORIA. Nem é necessário referir que dos materiais lendários esotéricos usados no próximo trabalho, as suas afirmações e conclusões diferem grandemente e muitas vezes chocam irreconciliavelmente com os dados fornecidos por quase todos os orientalistas ingleses e alemães….O objetivo principal do Volume III de “A Doutrina Secreta” é provar, ao identificar e explicar os véus nas obras dos antigos indianos, gregos e outros filósofos de renome e também em todas as antigas Escrituras – a presença de um método e simbolismo alegórico e esotérico ininterruptos: mostrar, tanto quanto possível, que com as chaves da interpretação conforme ensinadas no Cânone do Ocultismo Hindu-Budista Oriental, os Upanixades, os Puranas, os Sutras, os poemas épicos da Grécia e da Índia, o Livro Egípcio dos Mortos, os Eddas escandinavos, bem como a Bíblia hebraica e ainda os escritos clássicos dos Iniciados (como Platão, entre outros) – tudo, do início ao fim, dão um significado bastante diferente dos seus textos em letra morta.
Este texto também pode ser encontrado nos Collected Writings.

Fergus alega que comparando esta descrição com o conteúdo do Volume III há uma considerável discrepância. Quem abrisse esse volume, conhecedor da descrição de Blavatsky, ficaria desiludido.
Nicholas Weeks refere que é um pouco estranho terem levado 6 anos para publicar o 3º volume (que estaria quase pronto um mês antes de Blavatsky morrer). Porque não incluí-lo na re-edição de 1893? Para além disso, para quê juntar as Instruções Esotéricas, para engordar o volume quando este já tinha 432 páginas (no original, em inglês)?




Reigle considera que os argumentos de Caldwell são demasiado robustos para sequer sofrerem contestação.

Segundo aquele Sanscritista, o testemunho mais forte vem de Archibald Keightley que a 29 de abril de 1889 referiu:


“O terceiro volume de “A Doutrina Secreta” está em manuscrito pronto para impressão. Consiste principalmente de uma série de esboços de grandes ocultistas de todas as épocas e é um trabalho maravilhoso e fascinante. O quarto volume, que basicamente dará algumas pistas sobre ocultismo prático, já foi delineado, mas ainda não foi escrito” (Wachtmeister, 1893, p. 84).


Condessa Constance
Wachtmeister


Continua na próxima semana.

sábado, 6 de agosto de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (9ª parte)


Hoje termina a tradução do artigo de Daniel H. Caldwell, “O mito do terceiro volume desaparecido de A Doutrina Secreta”. É fundamental ler os posts das semanas anteriores antes de ler o post desta semana.




PARTE 7 - Apêndice – D.S. Volume III: Perspetivas diferentes por teosofistas contemporâneos

A primeira edição deste artigo foi originalmente publicada no “The American Theosophist” (Wheaton, Illinois) no número de final de primavera/início de verão de 1995, p. 18-25. Fiquei surpreendido pelo nível de interesse demonstrado pelo artigo. Um certo número de estudantes de Blavatsky escreveu-me concordando com a minha tese. Não obstante, muitos outros leitores discordavam completamente com a perspetiva que era expressa no meu artigo. Um dos estudantes discordantes postulava a teoria “disjecta membra” que possivelmente foi avançada em primeira instância pelo conhecido teosofista, G.R.S. Mead.




Em 1897, Mead, que era o secretário particular de H.P.B. durante os últimos dois anos da sua vida, escreveu, com respeito ao recentemente publicado Volume III de “A Doutrina Secreta”:

“É de certa forma uma experiência inédita para este autor, que editou, de uma ou de outra forma, quase tudo o que H.P.B. escreveu em inglês, com a exceção de “Ísis sem Véu”, estar a virar as páginas das folhas do Volume III de “A Doutrina Secreta”, como alguém do público em geral, pois com exceção das págs. 433-594 [os apontamentos esotéricos de HPB] não viu uma palavra dele que fosse antes…Qual é pois, a primeira impressão [deste volume III]? Não podemos disfarçar o facto de o primeiro sentimento ser de desapontamento. O espírito das estâncias e dos comentários, que fazem com que, do ponto de vista do teosofista, os primeiros dois volumes sobressaiam bastante em comparação com a demais literatura teosófica, está inteiramente ausente. As páginas [do volume III] são avidamente perscrutadas à procura de uma nova mina de ouro da mesma natureza das estâncias ou dos comentários, mas com exceção de um ou dois parágrafos nada é encontrado. De facto, até chegarmos à p. 359 e ao “O Mistério de Buddha” e às secções que preenchem as páginas 359-432, encontramos secções disjecta membra, a maioria das quais foram evidentemente excluídas dos volumes I e II, devido à sua inferioridade em relação ao resto da obra. O editor [senhora Besant] tinha-se comprometido a publicá-los, mas…seria melhor tê-los publicado como artigos independentes na Lucifer, em vez de tê-los incluído como parte de “A Doutrina Secreta”. É quase certo que se a Senhora Blavatsky tivesse vivido mais tempo, estas secções na sua forma atual não teriam sido incluídas na sua grande obra. Corporificam as suas capacidades menos importantes. “Lucifer”, Julho, 1897, p.353-54.

Ted G. Davy (um estudante de Blavatsky e antigo editor de “The Canadian Theosophist” durante muitos anos) aceita a teoria de “disjecta membra” de Mead. Por outras palavras, ele rejeita a minha tese conforme apresentada neste artigo. Em correspondência pessoal, Davy expressou a sua perspetiva da seguinte forma:




“Reli o seu artigo…e a minha opinião com respeito ao volume III não se alterou, estando ainda inclinado para aceitar a teoria de “disjecta” ou “rejecta  membra” de Mead…Julgando apenas pela sua qualidade, duvido que muito mais de dez por cento do seu conteúdo fosse material que H.P.B. pretendesse que fizesse parte do seu vol. III. Depois de ter escrito a D.S. e a Chave poucos meses antes da sua morte, os seus artigos na “Lucifer” tinham um nível comparável, o que contrasta gritantemente que aquilo que enfiado no volume III publicado…

Recentemente, enquanto pesquisava sobre os antigos Druidas, reparei que alguns dos parágrafos nas p. 258-259 dos CW, vol. XIV são muito semelhantes a passagens na D.S. II, p.759-60). Talvez existam outros exemplos de tais duplicações, que reforçariam a teoria disjecta.”

Richard Robb, responsável pelo Wizards Bookshelf e organizador do “Simpósio da Doutrina Secreta” de julho de 1984 em San Diego, Califórnia, também discorda da minha tese com respeito ao volume III:


Richard Robb é o fundador da Wizards Bookshelf
que funciona atualmente neste edifício
no estado do Michigan, EUA

“Tenho o seu artigo sobre o assim denominado volume III da DS…Uma refutação consistente da sua tese deverá estar baseada em mais do que meras evidências escritas. Se você estivesse familiarizado com a essência da SD in toto, com o seu apelo subjacente à mente superior e à intuição, veria num instante que o Volume III mais parece uma extensão de Ísis…um arranjo de factos físicos, destituídos do koan do Prof. Hannon. As vidas dos adeptos NÃO constam do Vol.III, apenas são referidas brevemente. O chamado vol. III é usado em parte na D.S., que tendo sido reescrita, veio naturalmente a incluir algumas partes escritas anteriormente. HPB não reescreveu toda a DS em menos de um ano. Conforme foi referido, uma vez que os leitores tenham assimilado os primeiros dois volumes, o terceiro volume irá aparecer. Assim, terá de ser MAIS esotérico que os primeiros dois volumes, não menos, como é o caso do Volume III/Material de Würzburg….Referindo-me novamente ao seu artigo sobre a DS III”, deparei-me com algo que pode ser pertinente. Com respeito às declarações de HPB sobre adivinhação por Qutamy na Agricultura dos Nabateus, do facto de ele ter recebido a sua revelação de um ídolo da Lua, que por sua vez o recebeu de “Saturno”, etc…Volume II, p. 455 lê-se: “Até o modo de adivinhação por meio do “ídolo da Lua” é o mesmo que praticavam David, Saúl e os Sumos-sacerdotes do Tabernáculo Judeu por intermédio dos Terafins. No volume III, 2ª parte da presente obra, os métodos práticos de tal adivinhação antiga serão encontrados.” Sabemos que teurgia de tal ordem não está definitivamente no volume III de Besant. Além do mais, é inconcebível que o mundo em geral tivesse tal poder nas suas mãos na sua presente condição materialista. Deverá aguardar por uma nova era, quando as atitudes forem muito diferentes e o conhecimento usado de modo não egoísta. Esta passagem é suficiente para me convencer de que não temos o verdadeiro Volume III, mas existem outras passagens que não me deixaram dúvida alguma sobre a hipótese do Volume III de Besant. Nem temos partes do verdadeiro Volume III. Está simplesmente a ser retido para a altura certa, o que é óbvio para mim.

De modo a analisar adequadamente as perspetivas de Mead, Davy e Robb, sugiro que o estudante interessado releia cuidadosamente o que foi atrás escrito no corpo principal deste artigo com respeito ao conteúdo do Volume I do manuscrito de Würzburg. Atenção especial deverá ser dirigida ao testemunho confirmado de Bertram Keightley no qual ele nos informa a ordem pela qual o manuscrito de “A Doutrina Secreta” foi reordenado. O volume I passou a ser o volume III.





Além do mais, repito o que foi anteriormente escrito neste artigo: “Foi feita uma tentativa para apresentar as provas por ordem cronológica de modo a que o leitor possa discernir a torrente natural de acontecimentos relacionados com a redação e edição do manuscrito de “A Doutrina Secreta”.” Esta chave cronológica foi ilustrada com citações relevantes de 1886 a 1891 documentando a redação por parte de H.P.B. daquilo que veio a ser finalmente o volume III.

FIM

O artigo de Caldwell termina com uma extensa bibliografia. Quando este artigo for colocado no Scribd, essa parte será também disponibilizada.