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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Joy Mills: Uma Jornada Evolutiva (3ª parte)

Esta é a terceira parte da entrevista de Cynthia Overweg, a Joy Mills, a decana da Sociedade Teosófica nos EUA, que faleceu no final de dezembro passado. Esta entrevista  foi publicada na revista da Sociedade Teosófica dos EUA, a Quest.

Naturalmente recomenda-se a leitura das primeiras duas partes, aqui e aqui, respetivamente.

Quando Joy terminou o secundário em 1937, o país ainda estava sofrendo os apertos da Depressão e o dinheiro era pouco, mas com a ajuda de empréstimos ela conseguiu ir para o Milwaukee State Teachers College, no Wisconsin. Em 1940, quando era uma estudante com 21 anos, uma amiga da faculdade deu-lhe a conhecer a Teosofia e Joy juntou-se à Sociedade Teosófica. “A Teosofia tornou o mundo compreensível para mim. Preencheu-me de tantas maneiras e abriu uma porta para o invisível.”

Em junho de 1941, Joy licenciou-se em educação e passou o verão a trabalhar na sede nacional em Wheaton. Tentou obter uma vaga numa escola no outono, mas isso não se materializou. Sidney Cook, que era o presidente da Secção norte-americana na altura, perguntou-lhe o que queria fazer se não lhe aparecesse trabalho. Ela disse-lhe que queria continuar os estudos. “Ele foi muito amável e generoso e disse-me que ajudaria”. Cook pagou-lhe metade das propinas de pós-gradução na Universidade de Chicago. A outra metade foi paga por uma bolsa de estudo da universidade.


Sede da Sociedade Teosófica nos EUA (Wheaton, Illinois)

Quando os Estados Unidos entraram na 2ª Guerra Mundial em dezembro de 1941, algumas das instalações da universidade foram entregues aos militares. Para ganhar dinheiro, Joy ajudou no esforço de guerra. Levantava-se cedo pela manhã e ia para o refeitório, onde cerca de um milhar de marinheiros aguardava pelo pequeno-almoço. “Eu punha comer na mesa todas as manhãs para os marinheiros lá estacionados“, diz ela.

Joy recebeu o grau de mestre em Inglês no ano seguinte e Cook convidou-a a se juntar à equipa em Olcott. “Ele pediu-me para pensar nisso primeiro, mas não tive de o fazer. Eu sabia onde queria estar.” O seu primeiro trabalho foi coordenar um curso por correspondência para os novos membros. No ano seguinte, Cook pediu-lhe para fazer algumas palestras. “ Estava a me testar.”


Sidney A. Cook (1887-1965)
Foi líder da Secção dos EUA
entre 1931 e 1945 e vice-presidente
internacional da ST Adyar entre 1946 e 1959.


O objetivo era enviá-la a algumas cidades no Michigan, onde existiam ramificações da Sociedade. “Mas, eu não tinha vestuário adequado nem dinheiro suficiente, pois os salários do pessoal então eram muito baixos.” Contudo, o pessoal de Olcott foi fazer compras em lojas de artigos usados por ela. “Foi maravilhosa a maneira como me ajudaram. Encontraram roupas que me faziam parecer apresentável.” Pela primeira vez na sua vida, Joy teve um sentido de pertença. Estava num ambiente em Olcott que nutria o seu corpo e a sua alma. “Entendi que aspirava a algo maior que mim própria. Tinha uma missão e este era o meu povo, os meus amigos. Estava em casa.”

À medida que Joy foi estudando “A Doutrina Secreta” e outra literatura teosófica, o princípio de Unidade sobressaía – a Unidade que ela havia experienciado enquanto criança nas Ozark. “HPB sempre o salientou. Tudo está radicado e deriva de uma fonte que é Una e não múltipla. É mais do que monista, é não dual.”

Quando ela ficou mais familiarizada com as contribuições dos fundadores da Sociedade, a sua admiração por Henry Olcott e H.P. Blavatsky cresceu. “O trabalho de Olcott pela causa Budista é simplesmente inacreditável. Ele é o responsável pelo renascimento do Budismo como uma grande força cultural no sudeste asiático e fez isso enquanto presidente da Sociedade. HPB é uma das mulheres mais notáveis que jamais existiu. Ela trouxe os ensinamentos antigos para o Ocidente e pessoas de todo o mundo e de todas as classes sociais foram atraídos por isso. Ela fez-nos recordar que a compaixão é a “lei das leis”.


Henry Steel Olcott (1832-1907)


Durante os anos de guerra, a alimentação, o óleo de aquecimento e a gasolina eram racionados. O pessoal em Olcott recebia senhas de refeição e porque Olcott era um campus vegetariano, era-lhes distribuído mais queijo, manteiga, leite e outros bens, pois não precisavam das senhas para carne. Para conservar óleo de aquecimento, os gabinetes do segundo andar e a biblioteca foram encerradas, “Ficámos mais próximos uns dos outros”, recorda Joy. “Éramos como uma família e este era um sentimento formidável. Era a primeira família estável que tinha tido na minha vida.”


No final da guerra, Jim Perkins foi eleito presidente da Secção norte-americana. O número de membros tinha decrescido acentuadamente e muitos membros tinham sido mortos na guerra. “Jim delineou um programa conhecido como Spotlight [SPOT-Speed Popularization of Theosophy] para redinamizar a Sociedade”, refere Joy. “Começámos em 1946 com seis cidades no circuito e eu daria um conjunto de aulas durante seis semanas.” Foi um programa com muito sucesso. Joy alugava uma sala, habitualmente num hotel e colocava anúncios nos jornais para divulgar as aulas. Durante um período de três anos, ela ajudou a fundar mais de 100 novas lojas.


Joy Mills

Continua na próxima semana.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Joy Mills: Uma Jornada Evolutiva (2ª parte)

Na semana passada publicámos a 1ª parte da tradução deste texto que no fundo acaba por ser uma homenagem a Joy Mills, uma das figuras mais carismásticas do movimento teosófico da 2ª metade do século XX e que viria a falecer no final do ano passado, conforme dei conta oportunamente no meu perfil do Facebook.

Sendo isto uma história de vida, é imperioso ler a primeira parte da entrevista que Cynthia Overweg fez a Joy Mills e que foi publicada na revista da Sociedade Teosófica dos EUA, a Quest. Agradece-se a Richard Smoley, editor da referida revista, a autorização expressa para a publicação deste artigo.

Continuando... 

Quando Joy nasceu em Lakewood, Ohio, em 1920, o mundo ainda recuperava da devastação da 1ª Guerra Mundial e os EUA começavam a sua ascensão como potência económica e militar. As mulheres norte-americanas tinham finalmente ganho o direito ao voto, apenas dois meses antes do nascimento de Joy.


Joy Mills


O pai de Joy era um engenheiro e a mãe, professora. A sua vida inicial foi normal até que uma tragédia familiar virou tudo de pernas para o ar. Quando tinha oito anos, Joy foi confrontada com uma questão crucial: o que acontece depois da morte? A sua mãe, Mary Conger, morreu de ataque cardíaco fulminante aos 49 anos de idade. O seu pai transmitiu a triste notícia a Joy numa frase simples: “A mamã morreu”. Muito pouco foi dito entre pai e filha nesse dia devastador de maio de 1929. Enquanto Joy estava ajoelhada junto à cama da sua mãe, parecia-lhe que ela estava apenas a dormir, mas existia uma aceitação triste no ar. “Inclinei-me para beijar a sua face e ela estava fria. Foi a minha primeira impressão sobre a natureza temporária da vida física.”

A morte da sua mãe, recorda Joy, “espoletou uma necessidade de melhor entender o que significa ser humano. Aprendi que se matutarmos nessa questão tempo suficiente, uma questão mais profunda emerge e que está na raiz da nossa própria existência: “Quem sou eu?”

Não muito tempo depois da morte da sua mãe, Joy teve um vislumbre de como encontrar a resposta para esta questão. Estava visitando as montanhas Ozark, no Missouri, com os seus tios maternos e três primos. Um dia caminhou pelos bosques sozinha, sentindo uma ligação profunda com a natureza e um sentido de liberdade excitante. “Tive uma experiência naqueles bosques que alterou a minha perceção de vida”, disse Joy.

As Ozark são conhecidas pelos seus carvalhos e pelos cornus, juntamente com pinheiros que podem atingir mais de trinta metros de altura. Joy tinha caminhado durante algum tempo, absorvendo as imagens e sons da floresta. Subitamente viu-se perante uma árvore imponente. “Tornei-me consciente do poder e da vida naquela árvore. Então, tornei-me una com a árvore. Poderia ter deslizado para dentro dela.” Nesse instante, ela soube que a vida na árvore e a vida dentro dela eram a mesma vida. “A certo nível, mudou-me. É o que HPB chama de “contemplação direta”, uma perceção que muitas vezes é espontânea, com a perceção a se fazer a um nível mais profundo.”


Montanhas Ozark


Em outubro de 1929, cinco meses depois da morte da mãe de Joy, o catastrófico crash na bolsa de valores atinge Wall Street. Marcou o início na Grande Depressão e de uma década de turbulência económica que afetou milhões de famílias. Os tempos difíceis deram origem ao ponto de viragem mais difícil na juventude de Joy. O seu pai perdeu o trabalho de engenheiro e passava a maior parte do tempo à procura de trabalho. Assoberbado pelas circunstâncias e pelas exigências de ser pai solteiro, enviou Joy para viver com pessoas desconhecidas. “Eu fui entregue a uma família que vivia noutro bairro e apenas via o meu pai nos fins-de-semana. Tudo aquilo que me era familiar foi-me tirado, por isso reprimi os meus sentimentos e vivia nos meus livros. Eram o meu único refúgio.”

Dois anos mais tarde, quando o seu pai casou com uma mulher muito mais nova, ele tentou juntar-se novamente à filha, mas a madrasta de Joy abusava verbalmente dela e negligenciava-a. “Queria dizer ao meu pai, mas tinha medo do que pudesse acontecer e portanto aceitava”. O seu pai rapidamente percebeu que a reunião que imaginara não iria funcionar. “ Escutei-o a dizer aos meus tios paternos que me poderia pôr num convento”, recorda-se Joy. “Como alternativa, eles ofereceram-se para me adotar e ouvi o meu pai dar o seu consentimento. Eu estava a ser dada para fora e isso realmente magoou.”

Uma vez legalmente adotada, Joy ficou com o sobrenome do seu pai adotivo e a criança que havia sido batizada como Mary Joy Conger tornou-se Joy Mills. Aos doze anos, a sua vida começou de novo com pessoas que cuidavam muito melhor dela. “Eu tive uma infância solitária e perturbada e nunca me senti querida. É claro que não sou a única a ter essa experiência. Mas estou grata por ter-me empurrado para o meu interior e forçado a me perguntar muitas questões sobre a vida. Alimentou o meu desejo de compreender porque é que há tanto sofrimento no mundo.”




Nessa altura Joy era uma adolescente, lia Aristóteles e Platão enquanto outros da mesma idade estavam nos jogos de futebol ou nos locais onde os jovens se encontravam. “Eu tinha uma amiga na escola que adorava discutir Filosofia. Preenchia um vazio.” À medida que foi amadurecendo, uma questão sobre o conceito de liberdade emergiu. Como criança, liberdade significava para ela ser capaz de pedalar a sua bicicleta ao ar livre com o sol a brilhar na sua cara. Liberdade também significava livrar-se do isolamento e da solidão.

“Mas vejo o mundo de forma diferente agora”, diz ela. “Quanto mais compreendemos a Unidade de todas as coisas, mais compreendemos que a liberdade é um tipo de ilusão. A única liberdade genuína e verdadeira é estar livre dos desejos do Eu separado. HPB refere-se a isso como a “peregrinação obrigatória da alma”. Está é a nossa jornada coletiva evolutiva.”

Continua na próxima semana.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Joy Mills: Uma Jornada Evolutiva (1ª parte)

No passado dia 29 de dezembro, foi anunciado o falecimento de Joy Mills. Joy, que não é muito conhecida no meio teosófico de língua portuguesa, era a decana do movimento teosófico – morreu aos 96 anos – granjeando simpatias e respeito não só na Sociedade Teosófica de Adyar, à qual pertencia, mas também noutras organizações. Para chegar a essa conclusão basta escutar as palavras que lhe dedicou Herman C. Vermeulen, o líder da Sociedade Teosófica de Point Loma-Blavatskyhouse, na última Conferência Internacional de Teosofia. Joy escreveu vários livros, nenhum dos quais traduzido para língua portuguesa, e viajou bastante, tendo passado pelo Brasil, como refere a entrada que lhe é dedicada na Theosophy Wiki.

O texto de que hoje se publica a primeira de quatro partes, resulta de uma entrevista conduzida pela jornalista, dramaturga e realizadora de documentários Cynthia Overweg. A entrevista a Joy Mills foi publicada na revista da Sociedade Teosófica dos EUA, a Quest. Agradeço a Richard Smoley, editor da referida revista, a autorização expressa para a publicação deste artigo.

As várias revistas teosóficas prestaram ao longo dos anos tributo aos teosofistas mais proeminentes do movimento aquando do seu falecimento. Por exemplo, a revista Fohat publicou vários obituários. Inicialmente, pensei colocar no blogue um texto muito mais curto, à semelhança do que fiz quando faleceu Radha Burnier. Mas, esta entrevista a Joy Mills, pareceu-me conter vários elementos interessantes e importantes para o teosofista comum.


Joy Mills


Avancemos então para a primeira parte da entrevista de Cynthia Overweg a Joy Mills.



Joy Mills é uma escritora e instrutora muito estimada, que desempenhou funções como presidente nacional das Secções norte-americana e australiana e também como vice-presidente internacional da Sociedade Teosófica. Foi fundamental na criação da Quest Books [NT: cujo encerramento foi anunciado pelo atual presidente da Sociedade Teosófica de Adyar na última Convenção da Sociedade], a editora da Sociedade Teosófica nos EUA, tendo viajado bastante pelo mundo dando palestras e seminários. Em janeiro de 2011, foi-lhe atribuída a Medalha Subba Row, que é um reconhecimento de contribuições notáveis para a literatura teosófica e sua compreensão. Depois de várias semanas de entrevistas durante a primavera e verão de 2011, Joy partilhou abertamente os altos e baixos da sua vida, na esperança que pudessem provocar um sentimento de identificação com aqueles que procuram significado e propósito. O texto seguinte foi urdido a partir de muitas tardes de diálogo sobre a sua vida e trabalho, na sua casa no Instituto de Teosofia de Krotona em Ojai, na Califórnia.

Ao viajar pelos sopés das montanhas do norte da Índia, a beleza deslumbrante dos Himalaias ocidentais eram motivo de contemplação. As montanhas ficavam magicamente iridescentes sob o sol do meio-dia, e ela mal conseguia conter a excitação. Estávamos em 1972 e Joy Mills ia a caminho de Dharamsala para se encontrar com Sua Santidade o Dalai Lama na sua residência de exílio. Era uma grande honra para a Sociedade Teosófica e ela mal conseguia acreditar na sua sorte.

O encontro era o resultado da ideia de Joy de publicar o livro do Dalai Lama “Opening of the Wisdom-Eye”, que até então só estava disponível no sul da Ásia. Acompanhando-a nesta viagem memorável estava a sua boa amiga e colega, Helen Zahara, que era a editora sénior da Quest Books. “Conseguimos os direitos de publicação do livro do Dalai Lama e como já tínhamos uma viagem planeada para Adyar, a Helen e eu questionámo-nos se não podíamos conhecer Sua Santidade”, recorda-se Joy. Fizeram os preparativos através da Representação do Tibete em Nova Iorque, viajaram para Deli, apanharam o comboio para norte e depois arranjaram um táxi para levá-las a Dharamsala.


A relação entre Dalai Lama e a Sociedade Teosófica deu muitos frutos. 
Aqui um video recente do Dalai Lama a participar num encontro
 inter-religioso com o patrocínio da ST.


Quando chegaram à casa do Dalai Lama, mal tinham começado a organizar as suas ideias, Sua Santidade saudou-as  com o que Joy descreve como “um belo sorriso”. Ela lembra-se que Helen referiu que H.P. Blavatsky tinha apresentado o lado interno do Budismo ao mundo ocidental. “O que escreveu ela?”, perguntou o Dalai Lama.

A Voz do Silêncio”, respondeu Helen. Dirigindo a próxima questão a Joy, ele perguntou, “Qual é a essência de “A Voz do Silêncio”?” Ao início, Joy não conseguia pensar. Perguntou-se a si própria como poderia falar do livro de um modo breve. “Bem”, – disse ela finalmente – “aborda os Paramitas”, as seis “perfeições” do Budismo Mahayana. O Dalai Lama parecia genuinamente entusiasmado. “Ah, então é autêntico. É verdadeiro”. Joy estava emocionada por ter sido capaz de apresentar este pequeno grande livro de HPB ao Dalai Lama, e este encontro é uma das suas memórias mais prezadas.

Joy tinha cinquenta e dois anos quando conheceu pela primeira vez o Dalai Lama. Tem agora noventa e um [NT: à data da entrevista]. Não havia nada nos seus anos de formação que pudessem prever que um dia ela chegaria à porta da residência do Dalai Lama, representando a Sociedade Teosófica. Apesar de a sua vida ser rica em realizações e serviço, também se confrontou com dificuldades e abandono. A estrada que em última instância a conduziu à Teosofia e a um respeito profundo pelo Budismo, particularmente pela escola Dzogchen  do Budismo Tibetano, começou quando ela era ainda criança.

Continua na próxima semana.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Estamos conscientes depois da morte? (2ª parte)

Na semana passada, foi publicada a 1ª parte deste artigo escrito pelo teosofista inglês Adam Warcup, no qual é abordada a temática das Experiências de Quase Morte e a sua explicação à luz da Teosofia. 
É fundamental ler essa 1ª parte antes de prosseguir.

Uma vez mais se agradece à Secção da Nova Zelândia da Sociedade Teosófica a autorização para a tradução deste artigo.

Estamos conscientes depois da morte? (2ª parte)

por Adam Warcup

Foto de Adam Warcup,muito provavelmente
do final dos anos 70/ início dos anos 80


De certa forma, temos a sorte de Sinnett se ter interessado pelo Espiritualismo. As suas experiências nas sessões espíritas levaram-no a acreditar que podemos sobreviver à morte e comunicar com os vivos através de médiuns. Este cenário implicaria, obviamente, que retivéssemos a consciência depois da morte. Apesar dos Mahatmas lhe terem dito que são as “cascas” dos kama rupas que podem comunicar através dos médiuns, ele não conseguia aceitá-lo. Estava constantemente à procura de uma brecha, um mecanismo que permitisse que alguns dos “espíritos” fossem a verdadeira ex-personalidade. Os Mahatmas firme e consistentemente negaram tal possibilidade. Porquê?

Este assunto gravita em torno da ideia de que o homem alterna entre dois estados de ser. Durante a vida ele vive num mundo de Causas; entre vidas ele vive num mundo de Efeitos. O significado destes dois termos parece ser o seguinte: um mundo de Causas é aquele em que podemos agir com livre arbítrio; podemos colocar em movimento novas cadeias de causa e efeito. Embora restringidos pelo karma passado, somos livres de escolher. Ao invés, num mundo de Efeitos, não somos livres, mas vivemos num sonho por nós fabricado. Nesse mundo não podemos dar início a novas causas, mas viver as consequências de causas postas previamente em movimento.

Há um paralelo óbvio entre a morte e o sono. Durante a vida, alternamos entre a vigília e o sono. Numa perspetiva micro, estar acordado corresponde à esfera das Causas e dormir à esfera dos Efeitos. Nesta analogia, um sonho corresponderia ao estado devachânico. Embora estejamos conscientes nos nossos sonhos, normalmente não passamos diretamente de uma consciência desperta para um sonho. Existe um intervalo durante o qual não estamos de todo conscientes.


Este é o livro mais conhecido
de Warcup e que está esgotado.
Pode aceder a uma versão em pdf
clicando aqui.


Basta pensar um pouco para perceber a lógica por trás deste ciclo de alternâncias. Se fosse para vivermos permanentemente num mundo de Causas, nunca teríamos tempo suficiente para aprender e crescer. Estaríamos tão ocupados “a fazer” que nunca teríamos a hipótese de digerir os frutos das nossas ações. Investigações recentes sobre o cérebro mostraram que precisamos do sono, e especialmente do sono com sonhos, para funcionarmos eficientemente no dia seguinte. Da mesma forma é na morte. Precisamos do nosso tempo no Devachan, não apenas como uma recompensa, mas como um período de digestão e assimilação. Assim os estados pós-morte, em termos da consciência, devem ser subjetivos e parecem-nos de certo modo como sonhos, quando comparados com a nossa consciência desperta, normal e objetiva.

Não podemos esperar que seres num tal estado consigam comunicar com os vivos. Mas mesmo que assim seja, porque perdemos toda a consciência imediatamente depois da morte?

Outra ideia fundamental é a de que toda a gente tem uma quantidade de “energia vital” alocada. Não é tanto no sentido em que temos um número predeterminado de anos para viver; mas como se tivéssemos combustível num depósito que quando consumido, significa que essa incarnação está acabada. Existem, como é óbvio, exceções. Aqueles que morrem por acidente ou suicídio ainda não gastaram toda a sua força vital e devem viver o resto do período alocado no mundo astral, antes de passar pelos processos de pós-morte normais. Tais seres ainda estão na esfera das Causas. Embora lhes falte um corpo físico, ainda retêm o seu linga sharira (corpo astral). Alguns retêm a consciência, embora a maioria passe o tempo remanescente num sono sem sonhos.


Um dos Mahatmas (KH) com quem Sinnett
se correspondeu durante a sua permanência na Índia


Mas para aqueles que seguem o curso normal desde a gestação passando pelo nascimento, infância, adolescência, maturidade, senescência e morte, é difícil esperar que se empreenda uma nova etapa de vida imediatamente depois da morte. De facto, é-nos dito que os acontecimentos no mundo dos Efeitos seguem uma sequência análoga. Da inconsciência que se segue à morte, entramos num estado gestacional, que precede o nascimento e o despertar no estado devachânico. Neste último, vivemos através das nossas experiências de vida prévias, envelhecendo gradualmente à medida que o material da encarnação anterior se exaure, “morrendo” de novo para esse mundo. A inconsciência uma vez mais sobrevém, até que nascemos num novo corpo físico e se retoma uma existência consciente.

Quando o corpo físico morre, o corpo astral “morre” também. Portanto as formas que sustentaram a consciência desperta desintegraram-se. Isto explica a observação do mahatma sobre a consciência deixar o corpo como uma chama deixa um pavio. Leva tempo para um novo centro de consciência se formar e para o Ego devachânico despertar para um novo mundo.


Imagem: renegadetribune.com


Mas alguns podem perguntar: se podemos experienciar outros mundos estando vivos, porque não depois da morte? A resposta reside num entendimento dos mecanismos que permitem estes outros estados de consciência durante a vida. Algumas experiências do género estão relacionadas com o linga sharira (corpo astral), mas como este corpo não se pode deslocar para longe do corpo físico, isto explica poucos casos. A maioria deriva do mayavi rupa (corpo de sonho) que é formado, temporariamente, pelo pensamento e pela vontade, a partir dos elementos do mundo psíquico. Poucas pessoas podem formar ou projetar tal “corpo” conscientemente, mas alguém que tenha experienciado um sonho vívido que não se desvaneceu pouco depois de despertar, formou um mayavi rupa inconscientemente. Contudo, tê-lo feito com ou sem conhecimento, requere um ato de vontade e isto apenas pode ser realizado enquanto na esfera de Causas. Depois da morte, somos conduzidos ao longo de uma corrente de acontecimentos que nós próprios pusemos em movimento. Somos, nessa ocasião, incapazes de modificar o seu curso.

O facto crucial sobre uma Experiência de Quase Morte é o de que o indivíduo em causa não morreu. Embora tenha estado próximo disso e independentemente de quão milagrosa foi a recuperação, o facto de o indivíduo continuar a viver demonstra que a força vital não estava exaurida. Não era altura de morrer. Assim, as experiências ocorridas são em vida, embora não sejam menos extraordinárias por essa razão. Podemos inferir que o sujeito projetou um mayavi rupa, e nesse estado, passou por uma Experiência de Quase Morte. Existe uma questão adicional para ser respondida com respeito ao que existe de comum nas experiências, mas isso está para lá do âmbito deste artigo.

The Theosophical Journal Set/Out 1988


sábado, 19 de dezembro de 2015

Estamos conscientes depois da morte? (1ª parte)

Não obstante existir um conjunto substancial de literatura teosófica em língua portuguesa – desde às obras-primas à de qualidade inferior – vários autores do universo anglo-saxónico (e não só) que deram contributos importantes para uma mais fácil apreensão da sabedoria perene (como por exemplo, da magnum opus de Blavatsky, “A Doutrina Secreta”) não  se encontram traduzidos para português.

Um desses casos é Adam Warcup, cuja escrita clara e muito bem estruturada é um auxiliar precioso para o estudante de Teosofia. Warcup é um experiente estudante de Teosofia e concentrou-se fundamentalmente em “A Doutrina Secreta” e nas “Cartas dos Mahatmas”. Foi também Secretário-geral (ou seja presidente) da Sociedade Teosófica da Inglaterra e também residente na Escola de Teosofia de Krotona (nos EUA) onde lecionou vários cursos, e ainda hoje viaja pelo mundo dando palestras.


Adam Warcup (à esquerda) com Tim Boyd, o atual Presidente
da Sociedade Teosófica de Adyar


Um desses cursos pode ser visionado na internet e tem como base a sua obra mais conhecida “Cyclic Evolution – A Theosophical View” [Evolução cíclica - Uma visão teosófica]. Este livro, publicado em 1986, apresenta de forma bastante clara e sintética os três esquemas da evolução (física, intelectual e monádica). Infelizmente, o livro é uma raridade e não existe disponível gratuitamente online. A visualização dos vídeos acima referidos foi-me altamente recomendada por um experiente estudante de Teosofia, obrigando contudo, a um domínio razoável do inglês, pois não tem legendas disponíveis.




Outro dos livros editado por Adam Warcup é “An Enquiry into the nature of Mind” [Investigando a Natureza da Mente], mas esse está disponível online. É baseado numa palestra dada por Warcup na Convenção Anual da Sociedade Teosófica da Inglaterra em 1981 e analisa a mente sob várias perspetivas, a relação entre as suas partes inferior e superior, as suas faculdades, a relação entre os manasaputras e o homem, etc…

A Quest Books, braço editorial da Sociedade Teosófica nos EUA tem disponível vários CD/DVD com palestras deste importante teosofista (um excerto de uma dessas palestras está  no vídeo abaixo).




A relevância do texto de qual hoje se publica a primeira parte (ver aqui na íntegra a versão em inglês) deve-se ao facto de muitos estabelecerem uma relação direta entre a realidade das Experiências de Quase Morte (EQM) e o que nos sucede depois de efetivamente morrermos. A maior parte das pessoas julga que o processo é idêntico e que estas descrições estão de acordo com o que está expresso na literatura teosófica. Porém, assim não é, pelo menos no que diz respeito à chamada Teosofia  da 1ª geração. Nesse sentido, o artigo de Warcup é, apesar de sintético, bastante esclarecedor. Uma das maneiras de despertar o interesse da Teosofia é sem dúvida explicar fenómenos como as EQM e as investigações sobre reencarnação (iniciadas pelo Dr. Ian Stevenson) à luz desses ensinamentos, daí que este texto – um dos poucos que conhece que vai de encontro a esta necessidade – seja, do meu ponto de vista, importante.

De referir que este texto encontra-se publicado na edição de junho de 1990 da revista "Theosophy in NZ", da responsabilidade da Secção da Nova Zelândia da Sociedade Teosófica, tendo o presidente daquela Secção expressamente autorizado a sua tradução. Contudo, a publicação do artigo foi feita inicialmente no "Theosophical Journal" de Setembro/Outubro de 1988, revista esta que era publicada em Londres e que já não existe.


Estamos conscientes após a morte?

por Adam Warcup


Recentemente, as Experiências de Quase Morte têm vindo a despertar muito interesse. Um número significativo de pessoas registaram experiências notáveis na sequência de doenças graves ou de acidentes. Falam do facto de estarem conscientes delas próprias fora dos seus corpos físicos, de serem arrastadas por uma espécie de túnel e de emergirem num mundo belo onde foram recebidas e acarinhadas. Infelizmente para elas, não puderam ficar e foram puxadas de novo para os seus corpos físicos. A inferência que somos convidados a fazer sobre estes relatos é a de que, quando morrermos, também passaremos por uma experiência semelhante, com a diferença de que não voltaremos à vida terrena. Isto implica que haverá uma continuação da consciência das nossas vidas atuais, através da transição a que chamamos morte, para o Kama Loka [NT: segundo o Glossário Teosófico é o "plano semimaterial (...), onde as personalidades  desencarnadas (...) permanecem até se desvanecerem totalmente"] e o Devachan [NT: de acordo com o Glossário Teosófico é "um estado intermediário entre duas vidas terrestres, na qual o Ego entra, depois da sua separação do Kâma-Rupa e da desintegração dos princípios inferiores"] .  Esta imagem está também em consonância com os relatos fornecidos por alguns autores teosóficos, e portanto estas Experiências de Quase Morte parecem estar a confirmar os ensinamentos teosóficos conforme foram apresentados.





Contudo, os estudantes das Cartas dos Mahatmas estarão conscientes que esta imagem apelativa do processo da morte se revelam discordantes dos ensinamentos que aí se encontram. A seguinte passagem ilustram este facto:

“Assim, quando o homem morre, a sua “Alma” (quinto princípio) torna-se inconsciente e perde toda a memória tanto das coisas internas como das coisas externas. Se a sua estada no Kama Loka tiver de durar apenas alguns momentos, ou horas, dias, semanas, meses ou anos; se ele teve uma morte natural ou violenta; se isto ocorreu na juventude ou na velhice, e se o Ego era bom, mau ou indiferente, em todos estes casos a sua consciência deixa-o tão subitamente quanto a chama deixa o pavio, quando assoprada.”
Carta 20C

E ainda:

“No Kama Loka aqueles que retêm a sua memória não desfrutarão dela na hora suprema da recordação. Aqueles que sabem que estão mortos no seu corpo físico só podem ser adeptos ou feiticeiros; e estas duas são as exceções à regra geral.”
Carta 20C


Estas não são passagens isoladas; são representativas do teor geral dos ensinamentos nesta área. Isto levanta duas questões: porque é que as Experiências de Quase Morte sugerem o contrário e porque é que haveríamos de perder a consciência quando morremos?

sábado, 17 de outubro de 2015

ITC/2015 – Um balanço à distância

No final da primeira semana de agosto realizou-se em Haia, mais uma Conferência Internacional de Teosofia (ITC). Depois da muito participada edição do ano anterior, esta Conferência teve um ambiente mais familiar, sendo que o número de presentes terá rondado as sete dezenas. As ITC constituem um esforço notável de criar pontes de entendimento no movimento teosófico, que desde sempre foi palco de lutas de egos, divisões, discórdias, acusações mútuas, incompreensões e equívocos.



Depois do êxito do ano passado, que culminou com a redação da chamada declaração de Naarden, a iniciativa foi alvo de alguma oposição, com acusações da prevalência de um grupo sobre outro, havendo quem tivesse tentado arrastar problemas particulares de uma Secção nacional da Sociedade Teosófica para a própria iniciativa (é tão descabido que nem merece que se coloque cá o link). Sem grandes resultados, estas ações negativas são apenas de um eco já centenário de oposição ao avanço do movimento teosófico, que continua com dificuldade em lidar com os tempos modernos. Por um lado tem a concorrência das diatribes new-age, especialmente sedutoras para aqueles que veem na prática da espiritualidade uma espécie de hobby, que só encontra espaço em momentos compartimentados, e por outro lado, num tempo em que os estímulos e a quantidade de informação são em tal abundância, a Teosofia tem dificuldade em ser encontrada por aqueles que buscam para além da mediocridade dominante.


Entrada do Carlton Ambassador Hotel, local onde se realizou a
ITC 2015


Grande parte dos teosofistas de referência dos tempos atuais estão na casa dos 60 anos e alguns já na dos 70, e não se vislumbra na geração sucessora um número suficiente de estudantes que permita assegurar a continuação do movimento, pelo menos em patamar de qualidade semelhante ao atual (onde há já muito por fazer). Há quem inclusive refira que o movimento está em perigo. A colaboração entre as várias tradições do movimento é pois crucial para a sobrevivência do mesmo. Sem uma efetiva cooperação estabelecida em bases sólidas e eticamente irrepreensíveis, a Teosofia poderá tornar-se apenas uma predileção de um clube de excêntricos, acabando por se tornar na prática absolutamente irrelevante. Naturalmente há-de reflorescer noutra altura, como sempre aconteceu, mas seria absolutamente lamentável que o esforço de muitos que porfiaram pela Teosofia desde 1875 fosse em vão.


Responsáveis do ITC da esquerda para a direita: D. Grossman,
 E. Jennings (presidente), J. Peeters, J. Kind, H. Vermeulen (estes
dois últimos vice-presidentes), B. Peters, M. Gijsbers, S. Plocki,
J. Knebel, P. Wiskie, E. Bomas, J. Colbert e A. Hejka-Ekins não
estão na foto, mas também ocupam cargos no ITC.

Mas, voltemos à ITC 2015. É opinião de muitos, que esta Conferência foi novamente excelente, com ótimas intervenções por parte da grande maioria dos palestrantes.

Como já se escreveu antes, o tema da ITC deste ano foi: “Helena Petrovna Blavatsky sob diferentes perspetivas com um só coração”. Tal como sucedeu em relação às últimas edições, os vídeos da Conferência estão disponíveis no site da ITC e tive a oportunidade de os visionar na íntegra. Eis a minha seleção.

No primeiro dia, cada uma das organizações presentes (Sociedade Teosófica de Adyar, Loja Unida de Teosofistas e Sociedade Teosófica de Point Loma - Blavatsky House) fez uma apresentação sobre as suas origens, as bases em que assentam e o modo como divulgam os ensinamentos teosóficos. Das três apresentações feitas, a mais conseguida, do meu ponto de vista, foi a de Herman Vermeulen, da ST Point Loma. Este primeiro dia contou ainda com o momento alto da Conferência, a palestra de Jon Knebel, o teosofista que ficou encarregue de dar continuidade ao trabalho de edição e publicação da Cartas de Helena Blavatsky, cujo volume I, da responsabilidade de uma equipa chefiada por John Algeo (recentemente agraciado com a medalha Subba Row), foi alvo de enorme controvérsia, pela inclusão de cartas espúrias, sem o devido aviso ao leitor. Mais de doze anos já passaram sobre a edição deste polémico volume. Durante a conferência, Knebel anunciou o que segundo volume sairá algures em 2016 e o terceiro e quarto volumes seguir-se-ão. No entanto, Knebel continua à procura de mais material e durante a sua palestra anunciou que ainda iria se deslocar a Adyar para esse efeito, depois de já ter passado por Londres. Recorde-se que este processo de compilação do material publicado por HPB iniciou-se em 1924 pelas mãos de Boris de Zirkoff, que era um parente distante da Velha Senhora. À data da sua morte (em 1981), doze volumes dos Collected Writings haviam sido publicados. Dara Eklund deu continuidade a este projeto publicando mais dois volumes e um índice. Contudo sete conjuntos de manuscritos com a correspondência pessoal de HPB ficaram por publicar, e só quando a equipa liderada por Algeo iniciou a preparação do primeiro volume é que o projeto saiu do limbo em que havia ficado depois da morte de Boris de Zirkoff.


Jon Knebel


Sem dúvida que vale a pena assistir à exposição de Knebel, que escolheu algumas passagens de cartas de HPB que revelam algumas das caraterísticas e estados de espírito da fundadora do movimento teosófico moderno.

No segundo dia, o tema foi “Helena Blavatsky, HPB e o ciclo messiânico atual”. O decano James Colbert, associado da Loja Unida de Teosofistas, e um símbolo destas Conferências foi o primeiro orador, contando com a ajuda de Helena Kerekhazi. A não perder também é a intervenção de Barend Voorham, que fala do fenómeno denominado Tulku e da diferença entre Helena P. Blavatsky e HPB. Sobre este tema aproveito para recomendar o livro de Geoffrey Barborka, “HPB, Tibet and Tulku”.
Da parte da tarde deste segundo dia, discutia-se o modo de melhor capturar a essência da mensagem de Blavatsky. O teosofista francês Jacques Mahnich deu uma ótima palestra sobre o assunto, fornecendo várias linhas de orientação e sugestões para uma abordagem mais profícua à vasta e para muitos inescrutável obra de HPB.



Joy Mills foi outro dos símbolos do movimento teosófico atual que esteve presente, embora “à distância” nesta edição da ITC. A nonagenária norte-americana, residente em Krotona, foi entrevistada de propósito para o evento. Mills ainda fala com muito entusiasmo sobre o legado de Blavatsky, e com uma clareza notável. Foi também exibido um vídeo mais antigo, retratando parte de seminário dado pela mesma Joy Mills sobre a “Ética de A Doutrina Secreta”. Qualquer dos dois momentos (que estão no mesmo vídeo) valem a pena, Joy Mills faz uma exposição muito clara e enriquecedora sobre a obra de Helena Blavatsky.




No terceiro dia, falou-se sobre como manter viva a mensagem de Blavatsky para as gerações futuras. Sabine van Osta, da ST Bélgica, Joop Smits da ST Point Loma e Caroline Dorrance da LUT deram contributos bastantes interessantes. Van Osta falou da possibilidade de aproveitamento das novas tecnologias, Smits sobre como seguir as pegadas de HPB de forma a se tornar num instrutor e Dorrance abordou o método seguido por Robert Crosbie, o fundador da LUT, para disseminação da Teosofia.

De referir que intercalando as várias palestras existiam discussões de grupo que depois eram sumarizadas em reuniões coletivas. Os vídeos destas reuniões estão também disponíveis. Naturalmente que quem tiver mais disponibilidade de tempo deve visionar toda a conferência, mas julgo que a seleção que fiz acima acaba por capturar o que de melhor teve esta edição da ITC.

De notar que a edição do próximo ano já está agendada para os dias 11 a 15 de agosto e realizar-se-á em Santa Barbara, na Califórnia. A organização estará a cargo da LUT e o tema será "Teosofia e Responsabilidade Social".

Foto de grupo do ITC 2015

sábado, 29 de agosto de 2015

Três níveis de recordação: instinto, consciência e intuição (5ª parte)

Com esta quinta parte, terminamos a tradução do artigo de Barend Voorham "Três níveis de recordação: instinto, consciência e intuição" retirado do nº3 da revista Lucifer de 2014. Recomenda-se a leitura da introdução publicada na parte 1.

Intuição

Quando estes aspetos superiores da consciência aparecem espontaneamente, sem raciocínio intelectual, designamos isso por intuição. Intuição também é uma espécie de lembrança. Os tipos de consciência mais espirituais têm as suas próprias experiências e impressões ao seu nível, também. Essas marcas estão igualmente registadas na natureza akáshica. E nós, vivendo na consciência pessoal, também temos acesso a isso. Podemos contemplá-las. A intuição é a perceção imediata da verdade. É sabedoria espiritual e manifesta-se como uma visão direta e impessoal.

Podemos pensar: “Estas não podem ser as minhas marcas. O alcance da consciência está confinado ao pessoal. Posso na melhor das hipóteses atingir a minha consciência e já é suficientemente difícil ouvi-la continuamente.” Recorde-se porém, que não há separatividade na natureza. Tudo está interligado. Também somos estas consciências superiores, se nos identificarmos com elas.

Aprender, dizia Platão, é recordar. Isto significa que podemos ativar as experiências espirituais a partir da corrente de consciência que somos. Tornamo-nos conscientes delas.


Busto de Platão

Em “Fédon”, Platão descreve uma história mítica sobre como as almas humanas vivem no mundo dos Deuses antes de nascerem. Aí veem as verdadeiras Ideias. Mas, quando nascem, têm de beber água do Rio Lete, o rio do esquecimento e esquecem-se daquilo que viram. As almas que beberam bastante lembram-se de muito pouco e as almas que beberam pouco lembram-se de bastante. Mas, cada alma está familiarizada com essa realidade espiritual, e quando olhamos de perto para dentro de nós próprios e ouvimos com atenção, sabemos disto.

Podemos, autoconscientemente tentar despertar esta memória divina em nós próprios. É possível treinar a intuição. Podemos aprender a focarmo-nos no que é verdadeiramente humano, espiritual, mesmo na consciência divina em nós. Como? Buscando por este tipo de memória que Blavatsky chama de “reminiscência”; ativamente recordando estas imagens espirituais (3).

Do pensamento cerebral ao pensamento universal

Como fazê-lo? Como nos conectamos com estas influências espirituais? Como nos sintonizamos com a “oitava do nosso piano”, a nossa consciência pessoal, de modo a nos identificarmos com a verdade e compaixão da nossa consciência superior em nós?

Helena Blavatsky

Primeiro, devemos nos esvaziar. Não devemos dar lugar a quaisquer pensamentos pessoais. Podemos nos perguntar quantos pensamentos reservamos todos os dias para assuntos que, à luz da espiritualidade, não têm importância alguma. Olhemos por exemplo para o que a televisão tem para oferecer e perceberemos como o nosso aspeto de pensamento inferior é estimulado por todo o tipo de informação e sensações desnecessárias. Quantas vezes nos preocupamos com a nossa prosperidade, sobre aquilo que pode correr mal, com possíveis doenças ou com a própria morte? Se nos esvaziarmos destas preocupações diárias, afinamos a nossa oitava num tom diferente e os pensamentos espirituais virão até nós naturalmente.

Não raras vezes atribuímos um nível de realidade ao mundo externo e ilusório, que o mesmo não merece. Podemos perceber contudo, que a nossa felicidade não depende de ilusões.  Entender que estávamos preocupados com nada de importante dá-nos um sentido de liberdade e espaço para perceções novas e mais abrangentes.

Há que reconhecer estas novas perceções e alimentá-las. Podemos fazer isto focando a nossa atenção. Meditando nas ideias universais. Criando uma imagem de pessoas compassivas, de um mundo onde as pessoas trabalham em conjunto e se ajudam mutuamente na prática. Pensemos de modo amplo e impessoal. Vivamos o ideal mais elevado que possamos imaginar.

A tónica espiritual irá alterar inclusive os nossos pensamentos quotidianos. Claro que ainda teremos que ir pôr o lixo e ir às compras para satisfazer as nossas necessidades diárias, mas mesmo os pensamentos necessários para estas atividades simples serão iluminados se pensarmos nelas com um Ideal mais alargado de compaixão. Assim enobrecemos o eu pessoal  e também o eu animal e o eu físico. No fim de contas, o nosso cérebro será igualmente iluminado.

Não devemos apenas pensar com o nosso cérebro. Devemos pensar a partir do ponto de vista maior, universal.


Somos uma corrente de consciência. Os nossos aspetos superiores residem nos planos espirituais. Tenhamos isso presente. Imaginemos um mundo justo e equitativo, onde a ajuda e cooperação mútuas não são a exceção, mas a norma. Imaginemo-lo de forma tão nítida e clara, de modo a recordarmos esta imagem no nosso dia-a-dia, em cada ação que empreendemos e em cada pensamento que temos. É esta memória que a humanidade em sofrimento necessita acima de tudo.

3. H.P. Blavatsky, The Key to Theosophy. Theosophical University Press, Pasadena 1985, Chapter 8.