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sábado, 14 de fevereiro de 2015

Inscrições abertas para a ITC/2015

Já há tema, data e lugar para a realização da próxima Conferência Internacional de Teosofia (ITC). Assim, entre 6 e 9 de agosto próximos, em Haia, na Holanda terá lugar a ITC de 2015 subordinada ao tema “Helena Petrovna Blavatsky sob diferentes perspetivas com um só coração”.


Uma imagem de Haia


Qual é a nossa interpretação da obra escrita de HPB? Como é que ela inspira os teosofistas, sejam eles filiados numa organização ou independentes, a incorporar e transmitir a sua mensagem intemporal ao mundo moderno?

A Conferência de ITC terá lugar no Carlton Ambassador Hotel, que fica a cerca de 2 minutos a pé da Blavatsky House, também conhecida como a Sociedade Teosófica de Point Loma, que tem efetivamente sede nesta cidade holandesa.


Entrada do Carlton Ambassador Hotel


A inscrição para a ITC 2015 pode ser feita aqui. Existem várias modalidades, envolvendo o alojamento e as refeições. Os lugares estão limitados ao número de 150, pelo que a organização sugere a inscrição atempada, sendo que a mesma pode ser cancelada até 15 de julho.

Quem quiser ficar mais alguns dias em Haia, pode reservar noites no Carlton Ambassador Hotel  a um preço de 109 euros (single) e 119 euros (duplo). Estes preços incluem IVA, pequeno-almoço e Wifi ilimitado, mas não incluem a taxa da cidade que é de 3,81 euros por noite.

Uma alternativa é o EasyHotel The Hague City Centre. Este hotel fica a 5-10 minutos do local da ITC.

Fachada do Easy Hotel em Haia


Um breve resumo da história das ITC

É num espírito de fraternidade e cooperação que se realizam as “International Theosophy Conferences” (ITC) na qual se juntam teosofistas das diferentes tradições que foram surgindo depois do falecimento de Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891), a principal impulsionadora do movimento teosófico moderno.

As ITC começaram de forma praticamente informal em 1995, pelas mãos de uma teosofista da Loja Unida de Teosofistas, chamada Willie Dade, que juntava num fim-de-semana de cada ano, teosofistas do Arizona, da Costa Oeste dos EUA e da Europa. Com os anos, as ITC passaram a ser mais organizadas e difundidas, tendo em 2008 adotado o nome pelo qual são conhecidas atualmente. 

Depois de entre 2011 e 2013 as ITC se terem realizado nos EUA, em 2014 foi a vez do International Theosophical Centre, na Holanda receber a Conferência, num evento marcante na história da Conferência. Foi aqui que se estabeleceu a declaração de Naarden que reza assim:


Foto de grupo dos presentes na ITC/2014


Respeitando a diversidade e liberdade das diferentes correntes teosóficas, esforçar-nos-emos por agir como um farol de luz, para levar ao Mundo a Teosofia, de acordo com* os ensinamentos de H.P. Blavatsky e dos seus Mestres. De modo não dogmático e através de cooperação harmoniosa fortaleceremos o movimento teosófico para o benefício da humanidade.

No espírito da unidade e fraternidade, esforçar-nos-emos nos para tornar a Teosofia uma força viva no Mundo.

Comprometemo-nos através da aprendizagem, formação e da polinização-cruzada a popularizar e a preservar os ensinamentos vivos para as gerações futuras.

*em harmonia com / em conformidade com / de modo consistente com



O Lua em Escorpião descreveu o que se passou em Naarden, num post datado de setembro do ano passado. Mais pormenores sobre a declaração podem ser lidos aqui.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Reflexões sobre Deus

Mesmo no meio teosófico as perceções sobre Deus e a sua natureza são muito variadas. Muitos desconhecem (e alguns dos que conhecem têm dificuldade em compreender) as noções expressas pelos Mahatmas na carta ML-10. A própria Virginia Hanson na nota que antecede a carta escreve o seguinte:

“Agora chegamos àquela que é provavelmente a carta mais polémica. (…) Estas “notas” fizeram com que algumas pessoas rejeitassem toda a filosofia oculta por causa da negação do conceito tradicional de Deus.”

No grupo de Facebook da SociedadeTeosófica das Filipinas, a propósito de uma discussão sobre se a Ciência prova ou nega a existência de Deus, encontrei uma série de parágrafos escritos por Vicente Hao Chin Jr. bastante interessantes e que ajudam a perspetivar o conceito de Deus.

Escreve o teosofista filipino, cujo currículo pode ser visto aqui:

Vicente Hao Chin Jr.

“Um aspeto que muitas pessoas negligenciam sobre este tema é: que tipo de Deus estamos a tentar provar ou refutar? Normalmente assumimos um Deus que interage com a humanidade e o Universo – um Deus que faz julgamentos e que responde tal como um ser humano, um Deus que gosta de umas coisas e que não gosta de outras coisas e que até fica irado e ciumento, que se arrepende, condena e castiga pessoas à condenação eterna.

Se é este o tipo de Deus do qual estamos a falar, então não precisamos da ciência para refutá-lo. Apenas usando o raciocínio percebemos que o Deus antropomórfico semelhante ao homem não pode existir. Esta ideia está cheia de contradições. Como pode um Deus todo-poderoso ser ciumento e irado? Ou criar um mundo e uma humanidade sabendo de antemão que ele (ou ela) terá condenar parte das suas criações conscientes ao tormento e sofrimento eternos? Como pode ele ter presciência (omnisciência) e ao mesmo tempo mudar de ideias dependendo das boas e más ações das pessoas?

Do mesmo modo que prontamente afastamos a ideia de Zeus como sendo Deus, também deveríamos pôr de lado deuses semelhantes ao homem, como encontramos nas religiões populares. É importante salientar que muitos teólogos cristãos não subscrevem essas noções vulgares de Deus.


Em 2002, a cantora Britney Spears disse que "Deus
 tinha uma longa barba branca" e que "cirandava pelo céu"
 (imagem: www.comeletusponder.com)


Por isso antes de falarmos sobre se a ciência prova ou refuta Deus, temos de perguntar: o que significa Deus? Se Deus é o todo da Natureza como acreditava Spinoza, então não necessitamos da Ciência para prová-lo ou refutá-lo. Acabámos de definir Deus como tudo o que existe. É uma tautologia.

Se concebemos Deus como um criador e projetista inteligente – alguém que planeia o Universo – temos de perceber que estamos a regressar a uma conceção humana de pensador e planeador. Só planeamos ou projetamos quando não sabemos o que vai acontecer no futuro. Como podemos reconciliar isto com a alegada omnisciência de Deus? Se Deus planeou, significa que existiu um tempo em que ele não sabia o que iria acontecer? Se ele já sabia de tudo de antemão, então não há necessidade de um plano ou de um projeto. E não apenas isto: se ele é presciente em relação a tudo, então nada pode ele mudar porque uma tal mudança implicaria que o seu conhecimento estaria errado. E se ele não pode mudar nada que já se sabia à partida, então ele não é omnipotente – de facto todo o universo torna-se apenas um completo autómato que funciona de acordo com este plano, ou de acordo com as leis que o governam.

A necessidade de desemaranhar tais assuntos dos muitos enganos é a razão pela qual Helena Blavatsky mergulhou profundamente e de forma abrangente na natureza de Deus, dos deuses e da emanação no seu primeiro volume de “A Doutrina Secreta”. O seu livro representa um dos mais importantes estudos jamais escritos sobre teogonia e cosmogonia.




Por exemplo, “A Doutrina Secreta” fala de seres divinos ou espirituais que são superiores a seres humanos mas que não são Deus no sentido mais elevado da palavra. São limitados ou imperfeitos mesmo que tenham poderes sobrenaturais. Estes seres superiores são superiores em relação à humanidade, da mesma forma que os seres humanos são superiores aos animais e às plantas. Os animais podem considerar-nos deuses, mas isso não é conceber Deus no sentido derradeiro.


O Mahatma Koot Hoomi (carta 88) escreveu [NT: esta carta é a ML-10, identificada como a nº88 na sequência cronológica e pode ser encontrada na p.53-64 do vol.II das Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett] : “A palavra ‘Deus’ foi inventada para designar a causa desconhecida daqueles efeitos que o homem tem admirado ou temido sem entender… a ideia de Deus não é uma noção inata, mas adquirida…O Deus dos teólogos é simplesmente um poder imaginário…um poder que até agora nunca se manifestou.”

sábado, 3 de janeiro de 2015

O projeto Teociência

Recentemente, o site Theosophy Forward, na sua secção de Boas Notícias apresentou um texto do teosofista francês Jacques Mahnich, que relatava a sua intenção de iniciar um novo projeto que aproximasse a Ciência e a Teosofia. É minha opinião, e tive oportunidade de dizê-lo pessoalmente ao Jacques em Naarden, que não há efetivamente melhor modo de popularizar a Teosofia.

Mas quem é Jacques Mahnich?

Segundo a nota biográfica que consta do programa da último ITC,  Jacques passou a sua carreira profissional na indústria de engenharia aeronáutica, tendo-se especializado em sistemas propulsores de aeronaves.

É membro da Sociedade Teosófica (Adyar) francesa desde 1978. Presentemente é presidente do ramo de Saint-Jean em Paris e leva a cabo conferências e cursos de formação em Teosofia.

É também o co-fundador de um blogue dedicado à pesquisa das origens das estâncias de Dzyan.

Jacques Mahnich


O projeto Teociência

Uma busca pela compreensão da REALIDADE conforme descrita pelas Tradições e pela Ciência, ou dito de outro modo, a construção de pontes entre Ciência e as Tradições.

Bem vindos ao local onde investigadores e buscadores da REALIDADE  se encontram!

Vivemos num mundo maravilhoso. A nossa tarefa é a de descobrir/ recuperar o que é esse mundo. À nossa frente (e em nós, porque somos parte dele) temos uma Realidade UNA que é vista, entendida e construída por uma infinidade de conceitos humanos, seja através do filtro da Ciência ou através do filtro de tradições. Ambos têm estado presentes por milhares de anos e têm construído e refinado muitos modelos desta Realidade UNA. Ambos trouxeram alguma compreensão à nossa busca e moldaram muitos dos nossos comportamentos. Por Tradições, entenda-se todas as tradições por todo o planeta e em todas as épocas que trouxeram algum do entendimento da REALIDADE na qual vivemos. Isto inclui todas as principais tradições religiosas e qualquer outra filosofia ou movimento espiritual.

A Ciência e as Tradições são como um velho casal, têm vivido há tanto tempo lado a lado, abordando a Realidade com diferentes linguagens. Existiram períodos de lua-de-mel, onde ambas estavam do mesmo lado e existiram períodos de fortes confrontações e conflitos, conduzindo à aparente separação atual. Enquanto as Tradições alimentaram os seres humanos desde que estes existem na Terra, a aquisição de conhecimento através da Ciência decorreu a um ritmo mais lento, embora os últimos trezentos anos tenham trazido uma aceleração na velocidade e alcance das descobertas científicas. Os últimos quarenta anos foram ainda mais drásticos e muitas das novas descobertas estão a redesenhar o panorama da nossa vida. Uma delas é a internet, que abriu, de modo sem precedentes, uma via para interligar e comunicar entre pessoas de todo o mundo. As descobertas científicas são agora publicadas em tempo real e estão acessíveis na rede.

[CLIQUE AQUI PARA VER A INTERVENÇÃO DE JACQUES MAHNICH NO ITC2014]

O que é aqui proposto é um “local virtual” para buscadores sérios da REALIDADE, envolvidos nesta busca para discutir e partilhar ideias, conceitos, experiências e relatórios de investigações, de modo a identificar os temas e construir o caminho de convergência entre a Ciência e as Tradições. O caminho será longo e sinuoso, e os verdadeiros buscadores terão que estar bem equipados para não caírem nas várias armadilhas ao longo do caminho. A humildade será provavelmente uma atitude segura. Só sabemos que não sabemos…

Desejamos que esta iniciativa traga alguns benefícios ao mundo ao identificar alguns troços onde a Ciência e as Tradições convergem e que forneça também alguma luz orientadora e melhor compreensão da Realidade UNA, reduzindo portanto a quantidade de sofrimento no mundo.

Sobre o Projeto Teociência

Construir uma ponte entre as Tradições (incluindo a Teosofia) e a Ciência têm sido desde sempre parte das atividades dos teosofistas por todo o mundo. O primeiro livro teosófico –“Ísis sem Véu” - foi já um chamamento para esta abordagem. Desde essa altura, miríades de livros foram publicados sobre o tema e muitos grupos estiveram e continuam a estar ativos por todo o mundo. Por outro lado, desde essa altura, a Ciência progrediu tremendamente. Desde 1970, mentes científicas de renome abriram o âmbito da investigação científica para fora dos limites da observação física. A perspetiva atual da Física de Partículas e da Cosmologia evoluiu de modo a incluir muitos mais dos modelos da Natureza com os quais se podem estabelecer paralelismos com os ensinamentos da Religião-Sabedoria. Por fim, as tecnologias de internet estão a possibilitar o acesso de informação a um público mais vasto e a mentalidade dos investigadores parece se abrir para modelos de uma Realidade mais ampla.




O Projeto TEOCIÊNCIA é uma proposta para energizar sinergias e encorajar partilha de conhecimento entre as comunidades de buscadores. O roteiro proposto para o desenvolvimento desta iniciativa pode ser sumarizado nos seguintes passos principais:

1.  Construir um comité de líderes/diretivo, uma rede de líderes dos grupos teosófico-científicos no mundo. Este fórum irá estabelecer os objetivos/políticas e os procedimentos necessários.


2. Lançar uma ferramenta de comunicação/partilha – o site THEOSCIENCE.ORG – onde boletins informativos, publicações e outra informação relevante podem ser colocados.


3. Organizar temas comuns para investigação de forma a promover abordagens sinergéticas e encorajar a polinização cruzada.


4. Desenvolvimentos posteriores, como conferências internacionais de Teociência poderão vir a ser organizadas.



[NT: Acima o video da intervenção de Jacques Mahnich, na 139ª Convenção Anual da Sociedade Teosófica, em Adyar, realizada na passada semana. Na sua intervenção, Jacques falou do Manifesto para uma Ciência pós-materialista. ]


Roteiro preliminar para os primeiros passos do Projeto Teociência:

a)      Fase 1 – Construir a estrutura

- Um blogue de internet será dedicado à primeira fase. Apoiará um esforço coletivo para implementar os objetivos, metodologias, políticas e procedimentos para as operações. O acesso será limitado à equipa de líderes durante a fase inicial.

- Identificar voluntários das áreas da Ciência e das Tradições para formar uma equipa de líderes. Todas as linhas de pensamento serão bem acolhidas e encorajadas, em linha com a recente Declaração de Naarden do ITC (agosto de 2014).

- Projeto e aprovação de uma carta para o Projeto, incluindo metas e objetivos.

- Projeto e aprovação de metodologia(s) para as atividades de investigação.

- Lançamento do site de internet THEOSCIENCE.ORG e da revista eletrónica semestral THEOSCIENCE.

b)      Fase 2 – Desenvolver esforços de investigação

- Identificar as principais áreas de interesse onde a Ciência e as Tradições podem chegar a um entendimento comum da Realidade Una (ou seja, matéria, energia, forças, campos, cosmologia, antropologia…)

- Identificar “experts” em cada tema

- Mapear conhecimento existente em ambos os lados nestes temas (o “estado da arte” atual)

- Desenvolver planos de investigação

Uma imagem da página do Theoscience

Jacques Mahnich (clicar no link para obter o e-mail) – Iniciador do projeto


sábado, 20 de dezembro de 2014

Manifesto para uma Ciência pós-materialista (2ª parte)

Na semana passada, publicámos a 1ª parte do Manifesto para uma Ciência pós-materialista, pelo que aconselhámos a leitura da introdução e dos primeiros 9 pontos do Manifesto antes de prosseguir com a leitura do post desta semana.

Se já o fez, os 9 pontos seguintes do Manifesto são os seguintes:


10. A atividade mental consciente pode ser experimentada em morte clínica durante uma paragem cardíaca (isto é o que tem sido chamado de "experiência de quase-morte" [EQM]). Estes pacientes relataram perceções fora-do-corpo verídicas (ou seja, perceções que se podem provar coincidir com a realidade) que ocorreram durante a paragem cardíaca. Os pacientes também relatam profundas experiências espirituais durante as EQMs desencadeadas por paragem cardíaca. Note-se que a atividade elétrica do cérebro cessa poucos segundos após uma paragem cardíaca.


Um dos cientistas que  colaborou na elaboração do manifesto
é brasileiro o Dr. Alexander Moreira-Almeida, que tem ligações
ao movimento espírita (foto:www.religionandpsychiatry.com)


11. Experiências controladas em laboratório têm documentado que os médiuns de pesquisa qualificados (pessoas que afirmam que podem se comunicar com as mentes de pessoas que morreram fisicamente) às vezes podem obter informações altamente precisas sobre pessoas falecidas. Isto suporta ainda mais a conclusão de que a mente pode existir separada do cérebro.

12. Alguns cientistas e filósofos de pendor materialista recusam-se a reconhecer esses fenómenos, porque os mesmos não estão de acordo com a sua conceção exclusiva do mundo. A rejeição de investigação pós-materialista da natureza ou a recusa em publicar descobertas científicas robustas que suportam uma estrutura pós-materialista são a antítese do verdadeiro espírito de investigação científica, que é o de que os dados empíricos devem ser sempre adequadamente tratados. Dados que não se encaixam em teorias e crenças preferenciais não podem ser descartados a priori. Essa dispensa é do domínio da ideologia, e não da ciência.

13. É importante perceber que os fenômenos psi, as EQM aquando de paragem cardíaca, e as provas reproduzíveis de mediums de pesquisa credíveis, parecem anómalos somente quando vistos através da lente do materialismo. 




14. Além disso, as teorias materialistas não conseguem explicar como o cérebro pode gerar a mente, e são incapazes de explicar a evidência empírica, a que se alude neste manifesto. Este falhanço diz-nos que agora é a hora de nos libertarmos dos grilhões e vendas da velha ideologia materialista, para alargar o nosso conceito do mundo natural, e abraçar um paradigma pós-materialista.

15. Segundo o paradigma pós-materialista:

a) A mente representa um aspeto da realidade tão primordial como o mundo físico. A mente é fundamental no universo, isto é, não pode ser derivada a partir da matéria e reduzida a algo mais básico.

b) Existe uma profunda interligação entre a mente e o mundo físico.

c) A mente (vontade / intenção) pode influenciar o estado do mundo físico, e operar de uma forma não-local (ou prolongada), ou seja, não se limita a pontos específicos no espaço, tal como cérebros e corpos, nem a pontos específicos no tempo, tais como o presente. Dado que a mente pode influenciar não-localmente o mundo físico, as intenções, emoções e desejos de um experimentador podem não estar completamente isoladas dos resultados experimentais, mesmo em modelos experimentais controlados e cegos.

d) As mentes são aparentemente ilimitadas, e podem unir-se de modos que sugerem uma unidade, uma Mente Una que inclui todas as mentes individuais.

e) As EQM durante paragens cardíacas sugerem que o cérebro funciona como um emissor-recetor da atividade mental, isto é, a mente pode funcionar através do cérebro, mas não é produzida por ele. As EQM que ocorrem durante paragens cardíacas, juntamente com evidências de mediums de investigação, sugerem ainda a sobrevivência da consciência, após a morte do corpo, bem como a existência de outros níveis de realidade que são não-físicos.

f) Os cientistas não devem ter medo de investigar a espiritualidade e experiências espirituais, uma vez que representam um aspeto central da existência humana. 


Dr. Charles J. Tart

16. A ciência pós-materialista não rejeita as observações empíricas e de grande valor das conquistas científicas realizadas até agora. Ela busca expandir a capacidade humana de compreender melhor as maravilhas da natureza, e no processo redescobrir a importância da mente e do espírito como sendo parte da estrutura central do universo. O Pós-materialismo é inclusivo da matéria, que é vista como um componente básico do universo.

17. O paradigma pós-materialista tem implicações de longo alcance. Ele altera fundamentalmente a visão que temos de nós próprios, devolvendo-nos a nossa dignidade e poder, como seres humanos e como cientistas. Este paradigma promove valores positivos, como a compaixão, o respeito e a paz. Ao enfatizar uma ligação profunda entre nós e a natureza em geral, este paradigma pós-materialista também promove a consciência ambiental e a preservação da nossa biosfera. Além disso, não é novidade que, apesar de estar esquecido há 400 anos, uma compreensão transmaterial experienciada pode ser a pedra angular da saúde e bem-estar, como tem sido defendido e preservado em antigas práticas mente-corpo-espírito, tradições religiosas e abordagens contemplativas.

18. A mudança da ciência materialista para a ciência pós-materialista pode ser de importância vital para a evolução da civilização humana. Pode ser ainda mais crucial do que a transição entre o geocentrismo e o heliocentrismo.

Nós vos convidamos, cientistas do mundo, a ler o Manifesto por uma Ciência pós-materialista e a assiná-lo, se você quiser mostrar seu apoio (veja http://opensciences.org/).

* O Manifesto para uma ciência pós-materialista foi elaborado por Mario Beauregard, PhD (Universidade do Arizona), Gary E. Schwartz, PhD (Universidade do Arizona), e Lisa Miller, PhD (Universidade de Columbia), em colaboração com Larry Dossey, MD, Alexander Moreira-Almeida, MD, PhD, Marilyn Schlitz, PhD, Rupert Sheldrake, PhD, e Charles Tart, PhD.

**Contacto

Para mais informações, entre em contacto com o Dr. Mario Beauregard, Laboratório de Avanços na Consciência e Saúde, Departamento de Psicologia da Universidade do Arizona em Tucson, EUA.

Email: mariobeauregard@email.arizona.edu 




*** Tomámos em consideração duas maneiras de se referir ao paradigma emergente apresentado neste manifesto: a versão com hífen (pós-materialismo [post-materialism]) e a versão sem hífen (postmaterialism). A forma com hífen foi selecionada por uma questão de clareza, tanto para cientistas como para leigos.

**** O Resumo do Relatório da Cimeira Internacional sobre Ciência, Espiritualidade e Sociedade pós-materialista pode ser consultado aqui: Cimeira Internacional sobre o pós-materialista Ciência: Resumo Report (PDF).

Para se tornar um signatário do presente manifesto, por favor enviar e-mail ao Dr. Mario Beauregard com seu nome, grau académico, campos de estudo, título e instituição.


Para consultar a lista de autores do manifesto e a lista de cientistas que o subscrevem clique aqui e vá até ao final da página.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Manifesto para uma Ciência pós-materialista (1ª parte)

Recentemente circulou entre vários estudantes de Teosofia a notícia de que um grupo de cientistas de vanguarda tinha redigido um manifesto para uma ciência pós-materialista.

O manifesto foi da autoria de Mario Beauregard (PhD), Gary Schwartz (PhD) e Lisa Miller (PhD), em colaboração com Dr. Larry Dossey, Dr. Alexander Moreira-Almeida (PhD), Marilyn Schlitz (PhD) e dois investigadores mais conhecidos, Rupert Sheldrake (PhD) e Charles Tart (PhD).

Como já escrevi anteriormente, a Teosofia, embora reconheça as limitações da ciência moderna, tem nela um aliado poderoso para, à medida que aquela evolui, mais facilmente convencer a humanidade em geral das verdades da Sabedoria Eterna.


Foto de: http://www.quantumactivist.com
 
O novo paradigma que este corajoso grupo de cientistas propôs é por essa razão visto com entusiasmo pelo movimento teosófico, pelo menos, por aqueles que acompanham a evolução da ciência mais de perto.

Avancemos para a tradução, sendo que o link para o texto original está associado ao título abaixo.


Manifesto para uma ciência pós-materialista


Desde o seu nascimento, a ciência tem evoluído continuamente devido a uma razão fundamental: a acumulação de provas empíricas que não podem ser acomodadas por opiniões enraizadas. As alterações decorrentes têm sido muitas vezes insignificantes, mas nalguns casos foram titânicas, como por exemplo na revolução quântico-relativista das primeiras décadas do século XX.

Muitos cientistas acreditam que uma transição do género é presentemente necessária, porque o enfoque materialista que tem dominado a ciência na era moderna não pode explicar um conjunto crescente de descobertas empíricas no domínio da consciência e espiritualidade.

O seguinte manifesto para uma Ciência Pós-materialista escrito por um grupo de académicos e investigadores contemporâneos tenta visualizar como poderá uma perspetiva científica emergente.

Dr. Larry Dossey, Editor Executivo


Somos um grupo de cientistas de renome internacional, de uma variedade de campos científicos (biologia, neurociência, psicologia, medicina e psiquiatria), que participaram numa cimeira internacional sobre ciência pós-materialista, espiritualidade e sociedade. A cimeira foi coorganizada pelos doutorados Gary E. Schwartz, Mario Beauregard, da Universidade do Arizona e Lisa Miller, da Universidade de Columbia. Esta cimeira foi realizada no Canyon Ranch em Tucson, Arizona, entre 7 e 9 de fevereiro de 2014. O nosso objetivo foi discutir o impacto da ideologia materialista na ciência e a emergência de um paradigma pós-materialista para a ciência, espiritualidade e sociedade. 


Foto: Huffington Post (ver aqui o artigo publicado no Post
sobre o assunto)

Chegámos às seguintes conclusões:

1. A mundivisão científica moderna é predominantemente baseada em suposições que estão intimamente associadas com a física clássica. O materialismo - a ideia de que a matéria é a única realidade - é uma dessas suposições. Um pressuposto relacionado é o reducionismo, a noção de que as coisas complexas podem ser compreendidas, se as reduzirmos às interações das suas partes, ou às coisas mais simples ou mais fundamentais, tais como partículas materiais minúsculas.

2. Durante o século XIX, esses pressupostos estreitaram-se, transformaram-se em dogmas, e fundiram-se num sistema de crença ideológica que veio a ser conhecido como "materialismo científico". Este sistema de crença implica que a mente não é nada mais que a atividade física do cérebro e que os nossos pensamentos não podem ter qualquer efeito sobre os nossos cérebros e corpos, as nossas ações e no mundo físico.

3. A ideologia do materialismo científico tornou-se dominante no meio académico durante o século XX. De tal modo dominante, que a maioria dos cientistas começou a acreditar que ela estava baseada em evidências empíricas estabelecidas, e que representava a única visão racional do mundo.


Capa do livro de Charles Tart, um dos
cientistas que colaborou na redação do manifesto


4. Os métodos científicos baseados na filosofia materialista têm sido muito bem sucedidos, não só por aumentarem a nossa compreensão da natureza, mas também por trazerem maior controlo e liberdade através de avanços na tecnologia.

5. No entanto, o domínio quase absoluto do materialismo no mundo académico tem restringido seriamente as ciências e dificultado o desenvolvimento do estudo científico da mente e da espiritualidade. A fé nesta ideologia, como um quadro explicativo exclusivo para a realidade, obrigou os cientistas a negligenciar a dimensão subjetiva da experiência humana. Isto levou a uma compreensão extremamente distorcida e empobrecida de nós mesmos e do nosso lugar na natureza.

6. A ciência é antes de tudo um método não-dogmático e de mente aberta, de aquisição de conhecimento sobre a natureza através da observação, investigação experimental e explicação teórica de fenómenos. A sua metodologia não é sinónimo de materialismo e não deve estar comprometida com nenhuma forma particular de crenças, dogmas ou ideologias. 


Mario Beauregard
(foto:vancouversun.com)

7. No final do século XIX, os físicos descobriram fenómenos empíricos que não podiam ser explicados pela física clássica. Isto levou ao desenvolvimento, durante os anos 1920 e início dos anos 1930, de um revolucionário novo ramo da física chamado mecânica quântica (MQ). A MQ questionou as bases materiais do mundo, ao mostrar que os átomos e partículas subatómicas não são realmente objetos sólidos, pois não existem com certeza em localizações espaciais definidas e os tempos definidos. Mais importante ainda, a MQ explicitamente introduziu a mente na sua estrutura concetual básica, uma vez que se verificou que as partículas a serem observadas pelo observador - o físico e o método utilizado para a observação - estão ligados. De acordo com uma interpretação de MQ, este fenómeno implica que a consciência do observador é vital para a existência dos acontecimentos físicos que estão sendo observados, e que os acontecimentos mentais podem afetar o mundo físico. Os resultados das experiências recentes suportam esta interpretação. Estes resultados sugerem que o mundo físico não é mais o componente principal ou único da realidade, não podendo ser totalmente entendido, sem fazer referência à mente.

8. Estudos psicológicos têm demonstrado que a atividade mental consciente pode influenciar causalmente o comportamento e que o valor explicativo e preditivo dos fatores agênticos (por exemplo, crenças, objetivos, desejos e expetativas) é muito alto. Além disso, investigações em psiconeuroimunologia indicam que nossos pensamentos e emoções podem afetar significativamente a atividade dos sistemas fisiológicos (por exemplo, imunológico, endócrino, cardiovascular) conectados ao cérebro. Em outros aspetos, os estudos de neuroimagem de auto-regulação emocional, psicoterapia, e o efeito placebo demonstram que os episódios mentais influenciam significativamente a atividade do cérebro.

9. Os estudos dos chamados "fenômenos psi" indicam que às vezes podemos receber informações significativas sem o uso de sentidos comuns, e de formas que transcendem os constrangimentos habituais do espaço e do tempo. Além disso, a investigação psi demonstra que podemos influenciar a mentalmente – à distância –dispositivos físicos e organismos vivos (incluindo os seres humanos). A investigação psi também mostra que mentes distantes podem se comportar de modos que estão não-localmente correlacionadas, ou seja, hipoteticamente as correlações entre as mentes distantes não são mediadas (não estão ligados a qualquer sinal energético conhecido), não são mitigadas (não se degradam com o aumento da distância), mas são imediatas (parecem ser simultâneas). Estes episódios são tão comuns que não podem ser vistos como anómalos, nem como exceções às leis naturais, mas como indicações sobre a necessidade de um quadro explicativo mais amplo, que não pode ser ditado exclusivamente pelo materialismo.




No video anterior temos Rupert Sheldrake, outro dos cientistas que colaborou na redação do manifesto.

Os restantes 9 pontos serão apresentados na próxima semana.

sábado, 15 de novembro de 2014

Lua em Escorpião faz três anos

No passado dia 11 de novembro, o Lua em Escorpião celebrou o seu terceiro aniversário.

No último ano, o blogue continuou o seu crescimento, sendo que foi inclusivamente citado no site Theosophy Forward, por ocasião do seu segundo aniversário e também num fórum de discussão de Teosofia de língua inglesa.

Não há contudo qualquer intenção de traduzir para inglês o conteúdo do blogue (apesar de já terem existido solicitações para que alguns textos fossem passados para inglês) e inclusive, por questões de prioridade, os posts passarão doravante a deixar de ser semanais. A colocação das mensagens permanecerá a ser feita aos sábados, mas não todos os sábados.



A necessidade de aprofundar o estudo nalgumas áreas exige disponibilidade mental e de tempo que entram em choque com a obrigação de ter textos para colocar no blogue com uma data fixa.

Existem naturalmente momentos em que a prioridade é a exteriorização e outros em que consideramos que o tempo é adequado para o estudo e reflexão e consequentemente há ajustamentos que se tornam necessários fazer.

De qualquer modo, os temas fundamentais que pretendia ver tratados no blogue já o foram, com duas exceções. Esses casos, que preferia para já não identificar, serão alvo de posts mais extensos possivelmente só em 2015.

Que fique claro que existem já vários textos na forja para tradução e também uma ideia relativamente clara de qual a série que será publicada no próximo verão.




O blogue mantém-se como um espaço aberto (dentro de certos limites), tendo neste último ano sido traduzidos textos de Vicente Hao Chin Jr. (Sociedade Teosófica de Adyar), Matthew Webb, Odin Townley e "The Theosophical Movement" (Loja Unida de Teosofistas), Pim van Lommel (médico, não teosofista), Katinka Hesselink (antigo membro proeminente da ST Adyar) e Daniel Caldwell (teosofista independente).

Durante o verão e parte já do outono, foi publicado em 10 partes, o conhecido artigo do Dr. James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Santucci é um professor de Religião Comparada na California State University.

Desde novembro de 2013, o blogue conta com a colaboração do Ivan Silvestre que tem sido o responsável pela série "A arte e o transcendente".




Relativamente aos posts do último ano (ou seja posteriores a 11 de novembro de 2013 até à data), os mais lidos foram:

- A controvérsia em torno do Glossário Teosófico (Partes I e II)

- Teosofia pura e simples - A morte e a vida depois da morte (Partes I e II)

- A arte e o transcendente (II e III)

- Como detetar um falso guru

- A influência da Teosofia em personalidades famosas (Partes I, II, III, IV, V/1, V/2 e VI)

- Einstein leu mesmo a Doutrina Secreta? (Partes I e II)


sábado, 8 de novembro de 2014

A verdadeira tarefa da astrologia no século XXI

Robert Hand é possivelmente o astrólogo mais famoso atualmente vivo. Embora muito tempo haja já passado sobre a sequência de livros que editou, os mesmos continuam a ser bastante populares, especialmente o “Planets in Transit”, um livro incontornável, para a interpretação dos trânsitos astrológicos. Estranhamente nenhuma das obras de Hand está traduzida para português.




Com um currículo notável, Hand terminou recentemente o doutoramento em História Medieval, pela Universidade Católica dos EUA.

Há poucos dias, Hand publicou uma interessante mensagem através da sua conta de Facebook, que abaixo se traduz.

“Numa mensagem anterior falei do meu interesse em reconstruir as ligações entre a astrologia tradicional e moderna. Porque havemos de nos importar com isto? A resposta é simples.


Robert Hand (foto retirada do perfil de FB de Hand)


Todas as diferentes formas de astrologia - helénica, hindu, medieval e moderna – têm contributos importantes. Contudo, a síntese entre as formas de astrologia do Ocidente (helenística, medieval e moderna) e do Médio Oriente será mais fácil por duas razões. Em primeiro lugar são todas parte de uma tradição única e agora, uma vez mais, contínua. A astrologia hindu representa um desafio maior, embora, possa também fazer parte de uma eventual síntese. Nesta mensagem vou explicar porque não podemos simplesmente abandonar a astrologia dos séculos XIX e XX e fazer ressurgir algum tipo de combinação de métodos resultantes de formas tradicionais de astrologia.

Em palestras públicas várias vezes afirmei que o objetivo é criar uma astrologia tal qual deveria ter sido se a “experiência de quase-morte” [NT: note-se que a astrologia correu o risco de desaparecer, num processo iniciado no final séc. XVII e que só cessou no final do séc. XIX] nunca tivesse acontecido. Isto é próximo da verdade, mas não a é exatamente. A “experiência de quase-morte” provocou ou permitiu algo que não teria acontecido sem ela. Os astrólogos começam a tentar religar a astrologia com o sagrado. Aqui, refiro-me apenas à astrologia do Médio Oriente e do Ocidente. A astrologia hindu sempre teve e continua a ter, uma ligação com o sagrado, mas com uma tradição espiritual que está muito afastada das tradições do Ocidente. (Por questões de simplificação, quando me referir a “Ocidente” entenda-se que incluo o Médio Oriente. As duas culturas estão muito mais perto uma da outra do que qualquer uma delas está da Índia). Entenda-se que não acredito que de algum modo não haja equivalência ou até superioridade de algumas tradições espirituais indianas (incluindo aqui o Budismo) em relação às do Ocidente, mas a linguagem, os pressupostos culturais, as influências culturais, etc… são muito diferentes e necessitam de uma tradução com um alto nível de sofisticação para se tornarem completamente acessíveis ao Ocidente. Seria melhor se religássemos a astrologia ocidental com o sagrado em termos do sagrado tal como o entendemos no Ocidente, e à medida que a tradução concetual das tradições indianas e orientais fosse avançando, incluiríamos isso também.




Porque perdeu a astrologia ocidental a sua ligação com o sagrado? Quer na Europa, quer no Médio Oriente as religiões vieram à existência, e o Cristianismo e o Islão, que associavam a astrologia com o politeísmo, tornaram-se portanto hostis à astrologia. Com o Islão, a astrologia tornou-se de certo modo aceitável se fosse usada a um nível prático e evitasse assuntos que fossem do domínio da religião. Na Europa, a astrologia era no início completamente rejeitada, ao menos oficialmente. Então, na Europa Ocidental, a civilização colapsou ao ponto da astrologia não poder ser praticada, ao menos a um alto nível de sofisticação, devido à falta de conhecimento do Grego e da ciência grega, etc… Quando a astrologia voltou ao mundo ocidental vinda do mundo árabe, foi aceite com desconforto, mais ou menos nas mesmas condições que o tinha sido no Médio Oriente. Não era suposto se pronunciar sobre o sagrado. A associação entre a astrologia e o sagrado continuou num nível subterrâneo em ambas as culturas, sendo associada à magia, desde à branca à negra e à intermédia entre estes dois polos. Na prática, a astrologia era aceite em ambas as culturas, apenas se não interferisse com o sagrado e não se entrasse em contradição com o livre arbítrio (noutra oportunidade abordarei este assunto!).




Felizmente e por mais estranho que pareça, as mesmas forças que quase destruíram a astrologia no século XVIII, também enfraqueceram fortemente o poder do Cristianismo no Ocidente. No Médio Oriente um ressurgimento do fundamentalismo islâmico (ainda em curso) trouxe uma versão específica da “experiência de quase-morte” à astrologia islâmica.

Então no século XIX, quando a astrologia sofreu um reavivar em Inglaterra, duas linhagens distintas de astrologia emergiram gradualmente, uma linhagem pretensamente científica personificada por A.J. Pearce e uma linhagem religioso-espiritual da qual Alan Leo é provavelmente o melhor exemplo.

O grupo “científico” continuou a tentar fazer aquilo que não teve sucesso no século XVII, tornar a astrologia em algo aceite pela nova ciência. Não funcionou no século XVII e não funcionou também no século XIX. (Os meus comentários sobre esta abordagem científica à astrologia não significam que me oponho a uma abordagem científica à astrologia. O que defendo é uma abordagem científica à astrologia como parte de um esforço em duas frentes para perceber o que realmente é a astrologia, não algo destinado a tornar a astrologia “aceitável” para a ciência conforme esta está presentemente instituída. Isso, estou em crer, não pode acontecer mais por razões religiosas e ideológicas do que científicas).



Um grupo de astrólogos de tendência espiritual religou a astrologia ao sagrado através da Teosofia Blavatskiana. A Teosofia pôs no papel uma filosofia emprestada da religião oriental e que recupera o neoplatonismo clássico tardio. Reconectou a astrologia com ideias como a iluminação, autorrealização, etc…Quaisquer que sejam as suas inadequações como uma filosofia espiritual, preparou o terreno para uma evolução de acordo com estas linhas. A figura mais fortemente associada com esta evolução foi o já falecido Dane Rudhyar que concebeu as astrologias humanista e transpessoal, que enfatizavam o uso da astrologia como uma ferramenta para autorrealização, opondo-se à astrologia da idade média, iminentemente prática e orientada para acontecimentos. Consequentemente isto conduziu ao florescimento da astrologia psicológica pelas mãos de Liz Greene e outros.

Este tipo de astrologia não é bem vista pelos tradicionalistas puros. É visto como algo inconsistente, vago e autoindulgente. Esta não é a minha opinião, são opiniões que ouvi, amplamente expressas entre os tradicionalistas. Esta crítica tem algum fundamento pelo facto de os métodos da astrologia do século XX terem sido tecnicamente rudimentares. O simbolismo astrológico tornou-se tão impreciso que se podia interpretar qualquer coisa de qualquer maneira. De facto, a culpada disto não era a corrente de astrologia espirito-psicológica. A culpa foi da astrologia “científica” de finais do século XVII até ao século XIX, que extirpou à astrologia métodos e princípios que não eram entendidos e que faziam pouco sentido para o seu ponto de vista “científico”. Por exemplo, James Wilson, no seu Dicionário de Astrologia rejeitou completamente as regências. Regências e significadores são o cerne das Astrologias Medieval Ocidental e Hindu. Sem este conceito, o poder e a expressividade da astrologia ficam limitados. Todas as dignidades foram rejeitadas com exceção, e mesmo assim relutantemente, do signo e da exaltação. Deixaram a astrologia com um vocabulário muito limitado que foi tudo com que as escolas espiritual, psicológica e humanística ficaram. De modo a preencher as lacunas simbólicas deixadas por estas supressões, os modos posteriores de astrologia tiveram que expandir o simbolismo do que tinha restado e nesse processo tornaram a linguagem de astrologia menos precisa. Contudo, apesar de tudo isto, estas formas de astrologia espiritual, psicológica e humanística (as três não são de modo algum mutuamente exclusivas) são as maiores inovações da astrologia moderna. A parte da astrologia que é humana e centrada no espírito, que existia de modo claro no mundo antigo (embora não seja facilmente encontrada nos trabalhos práticos), foi recuperada.




Não se entenda que infiro que apenas as grandes inovações da astrologia moderna recaem nas áreas mencionadas no parágrafo anterior. Para começar, a astrologia moderna atualizou o ponto de vista cultural para o mundo moderno de muitos modos. A astrologia medieval estava dirigida para o mundo medieval. Uma mudança era necessária e foi feita. Contudo, neste particular quero abordar uma crítica à tradição feita muitas vezes pelos modernistas, mais concretamente a de que, não estando nós na Idade Média, como pode a astrologia antiga ou medieval ser relevante para nós? Falando como um historiador medievalista, devo dizer que se lermos Bonatti, por exemplo, no que respeita a processos legais, parece desconcertantemente moderno. A nossa cultura é descendente da cultura da Idade Média e somos muito mais parecidos aos nossos antepassados desse período do que muita gente pensa.

Em segundo lugar, a adição dos planetas modernos Urano, Netuno e Plutão foi um grande passo em frente. O grande número de corpos celestes menores em órbita é um pouco mais problemático, mas este é um tema prático. Como podemos lidar com tantos corpos e como dispô-los num tipo de estrutura para análise? Noutra oportunidade abordarei este tema.




Para além disso temos as grandes escolas dos pontos sensíveis que oferecem métodos bastante afastados de qualquer forma tradicional de astrologia (embora não completamente afastadas), a Escola Uraniana ou de Hamburgo e a Cosmobiologia dos Ebertin. Enquanto a escola Uraniana necessita, estou em crer, de alguma filtragem, as caraterísticas de ambas as escolas devem se tornar uma parte permanente da nova síntese. A Escola sideralista de Cyril Fagan e Garth Allen também deu grandes contributos à astrologia moderna, independentemente da ideia que possamos ter de um zodíaco sideral (uma questão para tratar noutra altura). Mais do que tudo, estes desenvolvimentos fizeram-nos olhar para o nosso desenvolvimento histórico nos tempos antigos. Enquanto os seguidores de três destas escolas tenderam a olhar para a astrologia como algo orientado para acontecimentos, não há nada em nenhuma delas que seja incompatível com uma abordagem à astrologia que seja humana e centrada no espírito.

Finalmente há o reavivar da astrologia horária e tradicional, mas este não é efetivamente um contributo para a astrologia moderna, mas as razões desta discussão e as razões porque temos que pensar numa síntese. Esta síntese é a verdadeira tarefa da astrologia do século XXI.