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sábado, 23 de Agosto de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (6ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a sexta de dez partes.



Leadbeater, Krishnamurti e depois

As atividades de Besant na Sociedade durante a sua presidência estão proximamente associadas com as de outro teosofista proeminente, embora controverso, Charles Webster Leadbeater (1854-1934). Em grande medida, sob a sua influência, foram introduzidos ensinamentos teosóficos na S.T. que eram considerados pelos Blavatskyanos como estando desviados dos ensinamentos originais de Blavatsky e dos seus Mestres. Ironicamente chamados de “neo-teosofia” por F.T. Brooks, um escritor teosófico e tutor de Jawaharlal Nehru nos primeiros anos do século XX, estes ensinamentos eram considerados por aqueles que se limitavam aos escritos de Blavatsky e Judge como heréticos, de acordo com as opiniões que apareciam na literatura teosófica dos anos 20 do século passado.

A “neo-teosofia” incluía dois atos altamente significativos e inovadores: a descoberta por Leadbeater, em 1909, do veículo físico para o Instrutor do Mundo vindouro – conhecido como Maitreya ou o Cristo – Jiddu Krishnamurti (1895-1986), e também uma aliança desde 1917 com a Igreja Católica Liberal (antes, Igreja Vetero-católica) sob a direção dos Bispos Leadbeater e James Wedgwood. Como se as atividades acima mencionadas não fossem suficientemente controversas para muitos dentro do movimento teosófico, Leadbeater, o homem por trás destas inovações, estava ele próprio sob um manto de escândalo.

Em 1906 foram levantadas acusações pela secretária da Secção Esotérica na América, Helen Dennis, de que ele estava ensinando ao seu jovem filho e a outros rapazes masturbação como forma de prática oculta. Esta denúncia, que levantou o espectro da pederastia aos olhos do seu acusador, conduziu ao abandono da Sociedade por parte de Leadbeater. Depois da sua readmissão em 1908 com a ajuda de Besant, Leadbeater descobriu pouco tempo depois J. Krishnamurti, um jovem rapaz hindu que segundo ele haveria de ser o veículo para o Instrutor do Mundo vindouro. Muito do trabalho da Sociedade girava em torno do treino do rapaz e da preparação do caminho para a vinda do Instrutor do Mundo.


Jiddu Krishnamurti

Em 1911, outra organização conhecida como a Ordem da Estrela do Oriente (O.E.O) foi fundada em Benares por George Arundale – que rapidamente se tornou uma organização mundial com a ajuda da Senhora Besant – especificamente para aquele propósito. No órgão oficial da Ordem da Estrela do Oriente, The Herald of the Star 1.1 (11 de janeiro de 1912): 1-2, J. Krishnamurti (ou quem escreveu em seu nome) notou que George S. Arundale, o diretor do Colégio Central Hindu, foi o verdadeiro fundador da Ordem, conhecida na altura da sua formação como a “Ordem do Sol Nascente”. O seu propósito era “juntar todos aqueles…que acreditavam na vinda próxima de um grande Instrutor, e estavam desejosos de trabalhar de algum modo para se preparar para Ele.”

Não muito tempo depois, o Secretário-geral da Secção Alemã, Rudolf Steiner, desencantado com a O.E.O. e desagradado com a presidência de Besant, agiu de forma a levar o Conselho Geral da S.T. a aconselhar a Presidente no sentido de fechar a Secção alemã e a criar uma nova Secção para algumas lojas alemãs (Theosophist de fevereiro de 1913, p. 637). Cinquenta e cinco de sessenta e nove das lojas alemãs seguiram Steiner, que rapidamente organizou uma nova sociedade, a Sociedade Antroposófica, no início de 1913. Apesar das deserções de Steiner e de outros, a Sociedade Teosófica, contudo, ganhou mais membros do que perdeu. A promessa da vinda iminente do Instrutor Mundial no veículo de Krishnamurti contribuiu para uma controvérsia sem precedentes dentro da Sociedade Teosófica e também para a sua maior popularidade, isto até 1929, altura em que Krishnamurti renunciou ao seu papel e deixou a Sociedade. Depois disso, a Sociedade nunca recuperou a popularidade que teve nos anos 1920.


Rudolf Steiner

O segundo acontecimento que gerou controvérsia foi a promoção da Igreja Vetero-Católica (mais tarde Católica Liberal) por parte de membros da Sociedade. Esta promoção foi principalmente uma ideia original de C.W. Leadbeater, que com James Ingall Wedgwood (1883-1951), ajudou a fundar a Igreja. Os teosofistas, especialmente aqueles não pertencentes aos grupos de Adyar, viam os rituais da I.C.L. e a aceitação da sucessão apostólica, onde o episcopado é uma realidade, como não tendo lugar no ensinamento teosófico. À medida que os anos 1920 progrediam, houve uma tentativa de combinar as alegações centradas no Instrutor Mundial com o ritual da I.C.L., incluindo a seleção de doze “apóstolos” para Krishnamurti, mas por fim todo o plano se desintegrou com a rejeição por parte de Krishnamurti do papel de Instrutor Mundial.

Depois de 1929, a S.T. redimensionou-se e voltou aos ensinamentos geralmente associados à Teosofia. Depois da morte de Besant em 1933, a presidência passou para George Arundale (1934-1945), que continuou o ativismo que foi tão típico do mandato de Besant. Durante a sua presidência, a sua esposa, Srimati Rukmini Devi (1904-1986), fundou a Academia Internacional das Artes a 6 de janeiro de 1936 (mais tarde conhecido como Kalakshetra, “o campo ou o lugar sagrado das Artes”), tendo como objetivos (1) “enfatizar a unidade essencial de toda a Arte verdadeira” (2) “trabalhar para o reconhecimento das artes como vitais para o crescimento individual, nacional, religioso e internacional”, e (3) “providenciar aquelas atividades, pois são acessórias para os objetivos referidos.”


George S. Arundale

Ao segundo propósito do Kalakshetra esteve associado um renascimento e desenvolvimento da antiga cultura da Índia. Para Arundale, a dança indiana revelava um ritual oculto, nas suas palavras “o ocultismo da beleza”. Depois dele, veio um protegido de Leadbeater, C. Jinarajadasa (1946-1953), que, além dos seus vários contributos para a Sociedade, demonstrou um interesse ativo na publicação de muitos documentos relacionados com a história da Sociedade desde os primeiros anos da S.T.. Sendo um dos principais autores teosóficos, Jinarajadasa evidenciou uma distinta inclinação académica nos seus trabalhos publicados e de forma a levar a cabo o terceiro objetivo da Sociedade, inaugurou em 1949 a Escola da Sabedoria na sede internacional da Sociedade Teosófica em Adyar, na mesma data em que a S.T. iniciou a sua atividade, a 17 de novembro. Chamava-se o Centro Internacional de Estudos Teosóficos nos anos 70, mas foi rebatizada de Escola da Sabedoria em 1985.

Na comunicação aquando da inauguração da escola, Jinarajadasa declarou que o seu propósito era “capacitar os seus estudantes a se tornarem, de acordo com o seu temperamento e aptidão, filósofos, cientistas, professores éticos, artistas, juristas de direito económico, estadistas, educadores, urbanistas e todos os tipos possíveis de servidores da humanidade” (“A Escola da Sabedoria: discurso inaugural proferido a 17 de novembro de 1949”, Theosophist, 71.3 [dezembro de 1949]: 156).


C. Jinarajadasa

Depois de Jinarajadasa veio N. Sri Ram (1953-1973), responsável pela construção do atual edifício da Biblioteca de Adyar, John S. Coats (1973-1979) e a atual presidente internacional da S.T., Radha Burnier (1980-) [NT:A senhora Burnier faleceu a 31 de outubro de 2013 e as eleições que se seguiram foram ganhas pelo norte-americano Tim Boydque assumiu a presidência da S.T. Adyar no final de abril de 2014]. Coats morreu a 26 de dezembro de 1979. De janeiro a junho de 1980, Surendra Narayan atuou como vice-presidente responsável e Burnier tomou posse em julho de 1980.


John S. Coats

Continua na próxima semana.

sábado, 16 de Agosto de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (5ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a quinta de dez partes.


Outra associação, a Loja Unida de Teosofistas, foi organizada por um anterior membro da F. U. e S.T. em Point Loma e da Sociedade Teosófica de Hargrove. Robert Crosbie (1849-1919), um canadiano vivendo em Boston que se tornou teosofista sob a influência de W.Q. Judge, originalmente deu o seu apoio a Tingley como sucessora de Judge. Por volta de 1900 mudou-se para Point Loma para ajudar no trabalho que ela havia lá iniciado. Em 1904, perdendo, por motivos particulares, confiança na liderança e nos métodos de Tingley, deixou Point Loma, mudando-se para Los Angeles, onde se associou durante algum tempo à Sociedade Teosófica de Hargrove e a vários teosofistas, que iriam mais tarde apoiar a L.U.T., entre os quais estava John Garrigues.


Robert Crosbie

Em 1909, Crosbie, com estes seus conhecidos, que partilhavam a sua perspetiva que apenas a Teosofia original de Blavatsky e Judge continha os ensinamentos da Teosofia como se pretendia que fossem transmitidos nos tempos modernos (i.e., nas últimas décadas do século XIX e posteriormente), formaram a Loja Unida de Teosofistas em Los Angeles. O que separava este grupo das demais sociedades teosóficas era (e continua a ser) o seu enfoque na Teosofia original e em escritos que sejam filosoficamente concordantes com os de Blavatsky e Judge, com exclusão das cartas dos mestres K.H. e M. escritas entre 1880 e 1886 ao destacado escritor teosófico, A.P. Sinnett, vice-presidente da S.T. e rival de H.P. Blavatsky, ou seja, as Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett. Contudo, as constantes em O Mundo Oculto de Sinnett são aceites, bem como a Carta do Maha-Chohan. A razão para rejeitar a maior parte das cartas é que as cartas privadas não são substituto para os efetivos ensinamentos teosóficos; igualmente, vários membros da L.U.T. consideram que as cartas nunca se destinaram a ser publicadas.

A L.U.T. rejeita líderes e instrutores (todos os associados da L.U.T. são descritos como estudantes) e enfatiza a anonimidade daqueles que escrevem em nome da L.U.T. Até o próprio Crosbie não reclamava nenhum estatuto especial, embora ele seja muito estimado pelos associados. Depois da morte de Crosbie, a Loja de Los Angeles fundou a Theosophy Company em 1925 para servir de agente fiduciário para os associados. Não se reconheciam líderes, embora John Garrigues fosse tido como uma figura principal na L.U.T. de Los Angeles, juntamente com Grace Clough e Henry Geiger, até à sua morte em 1944, insistindo os estudantes da L.U.T. que o princípio da anonimidade mais do que compensa as suas desvantagens.

A L.U.T. tornou-se numa associação internacional de grupos de estudo através dos esforços de outra importante figura no Movimento Teosófico, o parse indiano B.P. Wadia (1881-1958). Inicialmente membro da S.T. Adyar, à qual ele se juntou em 1903 e na qual desempenhou várias funções – incluindo o de secretário de Annie Besant – ele desvinculou-se em 1922 devido à sua perceção que a Sociedade Teosófica “se havia desviado do Programa Original”. De 1922 a 1928 ele permaneceu nos E.U.A. e ajudou a fundar lojas da L.U.T. em Nova Iorque, Washington, D.C. e Filadélfia. Depois da sua partida para a Índia via Europa, ele encorajou os estudantes locais a fundar lojas da L.U.T., incluindo as de Antuérpia, Amsterdão, Londres, Paris, Bangalore e Bombaim. De momento, as lojas e grupos de estudo da L.U.T. estão localizados ao longo dos E.U.A. e na Bélgica, Canadá, Inglaterra, França, Índia, Itália, México, Holanda, Nigéria, Suécia e Trinidad (Índias Orientais). Devido aos consideráveis contributos de Wadia, ele é a única pessoa, com exceção de Crosbie, dentro da L.U.T. que é identificada pelo nome.


B.P. Wadia

Adyar


A Sociedade Teosófica, Adyar, é de longe a maior Sociedade (apesar da perda de grande parte da Secção Americana em 1895). O trabalho conduzido principalmente pelo Cel. Olcott e também em menor extensão pela Sra. Blavatsky durante a sua breve estadia na Índia, caraterizou-se por uma postura ativista, com a promoção do Hinduísmo e Budismo depois da sua chegada à Índia em 1879. O Cel. Olcott foi especialmente ativo em ajudar a iniciar um revivalismo Budista na Índia e no Sri Lanka e na melhoria da situação dos párias na Índia. Como primeiro americano a se converter ao Budismo no estrangeiro em 1880, trabalhou com grande entusiasmo para a causa do Budismo não só no Sri Lanka, mas também noutras nações budistas, promovendo a fundação de escolas budistas, escrevendo o Catecismo Budista – que tentou unir os Budistas do Norte e do Sul – e ajudando a conceber uma bandeira budista que todas as nações budistas pudessem adotar como seu emblema universal, simbolizando a unidade budista. Na Índia, Olcott fundou “escolas para os párias” para elevar as classes deprimidas.

Uma dessas escolas, nas proximidades de Adyar e hoje conhecida como Olcott Memorial School, já celebrou o seu centésimo aniversário. O seu propósito é oferecer educação livre para as crianças daquelas classes em domínios que proporcionem a auto-suficiência, como a alfaiataria, a jardinagem, a carpintaria e o trabalho tipográfico. Uma contribuição adicional feita por Olcott foi a criação da Biblioteca Oriental de modo a preservar os manuscritos indianos da negligência e a mantê-los na Índia. Os manuscritos estão guardados num novo edifício da Biblioteca de Adyar, formalmente inaugurado em dezembro de 1886.


Vista aérea da sede da ST Adyar


 Continua na próxima semana.

sábado, 9 de Agosto de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (4ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a quarta de dez partes.


Em 1898, a Srª Tingley rebatizou a S.T. na América como Sociedade Teosófica e a Fraternidade Universal. Enquanto “Líder e chefe oficial” ela prosseguiu as suas atividades em Teosofia aplicada, incluindo um ambicioso programa educativo, chamado Raja Ioga, que se iniciou em 1900 e que enfatizava a integração da formação e educação espiritual, mental e física. Da população estudantil inicial de cinco elementos, o número rapidamente saltou para 100 em 1902, dois terços dos quais eram cubanos, devido aos seus interesses permanentes em Cuba resultantes da Guerra Hispano-Americana de 1898 e ao apoio do Major Bacardí de Santiago aos objetivos de Tingley. Em 1919 o programa educacional foi expandido com a fundação da Universidade Teosófica. Com o encerramento das lojas em 1903, a maior parte dos membros mais talentosos e empenhados foram consequentemente para Point Loma, participando não só nas experiências educativas mas também em atividades relacionadas como a agricultura e horticultura, escrita, investigação, edição de publicações e produções teatrais e musicais.

Contudo, por volta de 1920, estas atividades começaram a desaparecer, principalmente devido a problemas financeiros. Com a morte de Tingley em 1929, a direção estabelecida pelo seu líder mais académico e intelectual, Gottfried de Purucker, foi uma vez mais no sentido da Teosofia teórica, com ênfase no ensinamento e estudo das obras teosóficas centrais. Rebatizando a S.T. e F.U. como Sociedade Teosófica, de Purucker avançou com um Movimento de Fraternização – em parte devido ao aproximar do centésimo aniversário do nascimento de H.P. Blavatsky – com o objetivo derradeiro de reunir todas as sociedades. A unificação, contudo, não foi possível, mas convenções e outras atividades de cooperação entre Adyar e Point Loma realizaram-se ao longo dos anos 1930.


Gottfried de Purucker


Mais para o final da liderança de de Purucker, ele tomou a decisão prática de vender a propriedade comunitária de Point Loma, chamada Lomaland e realocar a Sociedade em Covina, uma pequena comunidade a leste de Los Angeles. Naquele mesmo ano (1942), de Purucker faleceu e a Sociedade foi, nos três anos seguintes, liderada por um gabinete até que um novo líder, o Cel. Arthur Conger, foi eleito em 1945.

De acordo com um relato de um dissidente, pouco tempo depois desta eleição, aqueles membros do gabinete que não reconheciam o estatuto esotérico de Conger como “porta-voz dos Mestres” (que alegava assim o mesmo estatuto que H.P. Blavatsky) foram destituídos de todas as responsabilidades na S.T. Estes antigos funcionários e vários outros indivíduos nos EUA e na Europa acabaram por sair das instalações da S.T.: alguns voluntariamente anularam o seu estatuto de membro, outros viram o seu estatuto de membros involuntariamente cancelado. O trabalho da tradição de Point Loma estabelecido por Tingley foi continuado por alguns grupos organizados nos Estados Unidos e na Europa, sendo um desses grupos a Publicações Point Loma, que foi constituído em 1971 como uma instituição religiosa e educacional sem fins lucrativos.

Entretanto, a Sociedade Teosófica de Covina permaneceu sob a liderança de Conger até à sua morte no início de 1951. William Hartley (1879-1955), um antigo membro residente da Sociedade foi o sucessor escolhido de Conger, mas James A. Long (1898-1971) foi aceite pelo gabinete da S.T. em vez dele, sendo que o argumento para a sua escolha assentava no facto de que o documento original que continha o sucessor designado por Conger não existia, apenas existia uma fotocópia. Hartley, em conjunto com os seus seguidores, deixou Covina e deu continuidade à sua “Sociedade Teosófica” (Point Loma). Em 1958 Dick J.P. Kok (Holanda) sucedeu a Hartley e desde 1985 é liderada por Herman C. Vermeulen (ainda com sede em Haia, na Holanda).


Arthur L. Conger


James Long continuou a liderar aquela Sociedade Teosófica [a de Covina]. Um número de acontecimentos significativos teve lugar durante a sua liderança. A Universidade Teosófica e todas as lojas (instituídas durante a presidência de de Purucker) foram encerradas; as secções nacionais (incluindo a propriedade sueca de Visingsö) foram também encerradas; as atividades de impressão e edição, sede e biblioteca foram deslocadas para Altadena e Pasadena em 1951; e a Sunrise, uma revista mensal, foi criada. Long também se deslocou em longas viagens internacionais para palestras, visitando os membros de fora dos EUA. Depois da sua morte em 1971, Grace F. Knoche tornou-se a líder desta Sociedade Teosófica. [NT: Depois da morte de Knoche em 2006, Randell C. Grubb passou a ser o líder].


James A. Long

Durante o agitado ano de 1898, outra organização teosófica surgiu, com a fundação do Templo do Povo por William H. Dower (1866-1937) e Francia LaDue (1849-1922), que acreditavam seguir as instruções do Mestre ao se separarem da T.S. e F.U dirigida por Tingley, e, de acordo com a sua própria declaração, ao estabelecerem as “bases mentais, físicas e espiritual da futura sexta raça”. Saídos da loja de Syracuse (Nova Iorque) da S.T. e F.U., mudaram-se em 1903, juntamente com o seu grupo, para a Califórnia, onde se fixaram numa zona a leste de Oceano, estabelecendo aí a sua sede conhecida como Halcyon. Em 1904, Dower abriu o Hotel e o Sanatório Halcion por forma a continuar a sua prática médica, tratando doenças como a tuberculose, distúrbios nervosos, alcoolismo e toxicodependência. No ano seguinte (1905), a Temple Home Association foi constituída, sendo definido um plano para uma cidade com locais para casas para venda ou para arrendamento, organizando assim uma colónia cooperativa com LaDue, também conhecida como Estrela Azul, que se tornaria a primeira líder – Guardiã-chefe – do Templo. Em 1908, o Templo foi constituído sob o nome “Guardião-chefe do Templo do Povo, uma única instituição”. Depois da morte de LaDue em 1922, Dower tornou-se o segundo líder do Templo, supervisionando a construção do templo Memorial Estrela Azul. Começado em 1923 e completado em 1924, o Templo Memorial Estrela Azul foi construído de acordo com simbolismo matemático e geométrico ilustrando a unidade de toda a vida, ou o eu superior. Depois da morte de Dower em 1937, Pearl Dower tornou-se a terceira Guardiã-chefe, que organizou a propriedade de acordo com as suas especificações presentes, uma propriedade de 95 acres [NT: cerca de 38,5 hectares] consistindo de 52 casas, 30 das quais são propriedade do Templo, a Biblioteca William Quan Judge, que também inclui os escritórios do Templo e um apartamento para os visitantes. O sucessor de Dower em 1968 foi Harold Forgostein, que pintou 22 quadros no início dos anos 30 a pedido de Dower, representando as contribuições dos nativos norte-americanos para o entendimento do equilíbrio na Natureza e cenas da vida de Hiawatha, ambos importantes nos ensinamentos do Templo. Estes quadros estão agora no Centro Universitário do Templo. Forgostein permaneceu lider do Templo até 1990; a guardiã-chefe atual é Eleanor L. Shumway.


Francia La Due

Continua na próxima semana.

sábado, 2 de Agosto de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (3ª parte)

Continuamos com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Esta semana é publicada a terceira de dez partes.


História posterior

Com a morte de H.P. Blavatsky a 8 de maio de 1891, a liderança da Secção Esotérica (naquela altura chamada de Escola Oriental de Teosofia) passou para W.Q. Judge e Annie Besant. Poucos anos depois, acusações foram dirigidas contra Judge de que ele estaria “usando indevidamente os nomes e caligrafia dos Mahatmas”. Por outras palavras, alegava-se que ele recebia mensagens dos Mestres, ou, como Besant afirmou “dando uma forma enganosa a mensagens recebidas psiquicamente do Mestre”. Embora Besant e Olcott deixassem cair as acusações em julho de 1894, elas foram reabertas no final desse mesmo ano por Besant, que propôs uma resolução em dezembro de 1894, durante a Convenção da S.T. Adyar para que o Presidente Olcott “instasse de imediato a que o Sr. W.Q. Judge se demitisse” da vice-presidência da Sociedade. A resolução foi aprovada, mas Judge recusou demitir-se. Mais tarde, na convenção da Secção Americana da S.T. em Boston (28-29 de abril de 1895), os delegados votaram a favor da autonomia da Secção Americana em relação à Sociedade Teosófica de Adyar com Judge a ser eleito presidente vitalício, autodesignando-se aquele organismo de “Sociedade Teosófica na América”.


William Quan Judge

Quer esta separação seja interpretada como uma dissidência - a posição da S.T. Adyar – ou como o reconhecimento de que nunca houve qualquer ligação de natureza legal entre a S.T. Adyar e a S.T. original de Nova Iorque, de acordo com a interpretação da “Sociedade Teosófica na América” – é uma questão de opinião. Isto é discutido por W.Q. Judge em “The Theosophical Society”, The Path 10 (maio 1895): 55-60, reimpresso em Echoes of the Orient: The Writings of William Quan Judge 2, compilado por Dara Eklund (San Diego: Point Loma Publications, 1980), p. 197-202. A votação da Secção Americana teve como consequência a expulsão por parte de Olcott, de Judge e de todos aqueles que o seguiram. Isto incluiu mais de 5 000 membros nos Estados Unidos e noutras sociedades afiliadas noutros locais, incluindo lojas em Inglaterra e na Austrália.

Depois da morte de W.Q. Judge em 21 de março de 1896, Ernest Temple Hargrove (1870-1939) foi eleito presidente da S.T. na América de Judge. A Escola Oriental de Teosofia (o novo nome da Secção Esotérica desde 1890) também se separou a 3 de novembro de 1894: um grupo permaneceu na Sociedade de Adyar com Annie Besant como líder externa e outro dentro da Sociedade de Judge sob uma líder externa cujo nome era para ter permanecido secreto até 1897, mas foi revelado (no New York Sun de 27-28 maio de 1896 e em Theosophy, o novo nome para o The Path de junho de 1896), que Katherine Tingley (1847-1929) seria a sucessora de Judge. Tingley seguiu e desenvolveu a direção que Judge perseguira nos últimos anos da sua vida, colocando menos ênfase na teoria e mais nas aplicações práticas dos ensinamentos teosóficos na área social e na da reforma educativa. Em fevereiro de 1897, ela colocou a primeira pedra de uma comunidade em Point Loma, San Diego, que se tornaria a nova sede internacional da S.T. na América (a antiga sede era em Nova Iorque). No mesmo ano, fundou a Liga de Fraternidade Internacional tomando o cargo, ela própria, como presidente, e tendo como objetivo realizar um conjunto de tarefas humanitárias, desde as educacionais às filantrópicas. Acrescente-se ainda que todas as lojas da sua Sociedade foram fechadas ao público em 1904.


Katherine Tingley


No final de 1897, Hargrove encontrava-se desagradado com as atividades de Tingley e possivelmente também com a relutância dela em partilhar o poder com ele ou com outra pessoa. Demitiu-se da presidência e tentou ganhar o controlo na convenção de 1898 em Chicago, mas não teve sucesso nem na Convenção nem na ação judicial subsequente. Como consequência da intensa oposição de Hargrove na convenção em relação aos conteúdos da nova constituição elaborada por Tingley (da qual ele nada sabia até à sua apresentação na convenção, conforme referido em Emmett GreenwaltCalifornia Utopia: Point Loma: 1897–1942 [San Diego: Point Loma Publications, 1978], p. 37-40), Hargrove deixou a Sociedade e formou a sua própria organização com cerca de 200 membros da S.T. na América de Tingley.
Com base em Nova Iorque, a reformada Sociedade Teosófica na América de Hargrove, foi mais tarde, em 1908, rebatizada como a Sociedade Teosófica, (John Cooper, “The Esoteric School within the Hargrove Theosophical Society,” Theosophical History 4.7-8: 179), com A.H. Spencer a se tornar no seu presidente em exercício. Manteve-se como uma organização viável durante muito tempo até a Sociedade, e possivelmente até a sua própria Escola Esotérica de Teosofia ter entrado num período de “recolhimento” do trabalho ativo. O último documento atribuído à E.E.T. é Aids e Suggestions No. 18, de 7 Dezembro, 1907; ver Cooper, “The Esoteric School within the Hargrove Theosophical Society,” p. 185. O “recolhimento” teve provavelmente lugar no final de 1938 embora John Cooper, “The Esoteric School within the Hargrove Theosophical Society,” p. 180, considere 1935 como a data efetiva. A Theosophical Quarterly, a maior revista da Sociedade, cessou a sua publicação em outubro de 1938.


Ernest Temple Hargrove

A direção da enérgica liderança de Tingley levou ao nascimento de dois organismos dissidentes: o Templo do Povo, fundado em 1898 e a Loja Unida de Teosofistas, constituída em 1909, por Robert Crosbie e outros em Los Angeles. De acordo com Jerry Hejka-Ekins numa comunicação privada (20 fevereiro de 1996), a L.U.T. efetivamente nasceu a partir da Sociedade de Hargrove pois Crosbie juntou-se a esta última depois de ter deixado a Sociedade Teosófica e Fraternidade Universal de Tingley. Hejka-Ekins acrescenta, contudo, que “ela [a L.U.T.] parece ser mais uma reação à Sociedade de Point Loma [a S.T e F.U.].”


Continua na próxima semana.

sábado, 26 de Julho de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (2ª parte)

Continuamos esta semana com a tradução do excelente artigo do professor James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas", iniciada na passada semana.


Durante a década de 80 do século XIX, quatro acontecimentos significativos ocorreram na história da Sociedade Teosófica: (1) o caso Coulomb (1884); (2) a formação da Secção Esotérica da Sociedade Teosófica a 9 de outubro de 1888, sob a direção de Madame Blavatsky; (3) a publicação em 1888, de A Doutrina Secreta – o trabalho seminal do Movimento Teosófico – e (4) o ingresso na Sociedade Teosófica em maio de 1889, de Annie Besant (1847-1933), a segunda presidente da Sociedade de Adyar e certamente a teosofista de Adyar mais proeminente do século XX.


William Quan Judge e Henry Steel Olcott


(1)   No que respeita ao Caso Coulomb, Emma Coulomb, uma governanta da sede de Adyar, acusou Blavatsky de ter produzido fenómenos psíquicos fraudulentos e de ter escrito cartas em nome dos seus Mestres ou Mahatmas. Ela foi investigada por Richard Hodgson em nome da Sociedade de Investigação Psíquica (S.I.P.), cujo relatório de 1885 (que foi o segundo relatório publicado pela S.I.P. sobre Blavatsky, sendo que o relatório preliminar de 1884 era mais neutral) acusou-a de ter cometido esses delitos, pondo assim em causa a alegação de que os Mestres ou Adeptos realmente existiam.
Embora o relatório Hodgson tenha sido aceite pela S.I.P. na sua reunião geral realizada a 26 de junho de 1885, nunca foi a opinião oficial e institucional daquela organização. Hodgson escreveu a maior parte do relatório, mas o mesmo foi o produto de um comité que consistia não só de Hodgson mas também de E. Gurney, F.W.H. Myers, F. Podmore, H. Sidgwick, J. H. Stack e da Sra. H. Sidgwick. Pelo facto de o Relatório Hodgson nunca ter sido oficialmente aceite, a S.I.P. não poderia remover um relatório que nunca foi publicado. O que fez, ao invés, foi publicar uma declaração para “compensar por qualquer ofensa que [a S.I.P.] possa ter feito”, como declarado na nota editorial do artigo de Vernon Harrison “J’Accuse” (Journal of the Society for Psychical Research 53.803 (abril 1986): 286. O artigo começa com uma afirmação forte: “O Relatório do Comité designado para investigar fenómenos relacionados com a Sociedade Teosófica (chamado habitualmente de Relatório Hodgson) é o mais conhecido e controverso de todos os relatórios publicados pela Sociedade de Investigação Psíquica. Faz julgamento à Madame H.P. Blavatsky …; e a frase final em Declaração e Conclusões do Comité tem sido citada em livro atrás de livro, enciclopédia atrás de enciclopédia, sem qualquer indicação de que possa estar errada. Reza assim: “Da nossa parte não a consideramos como a representante de videntes ocultos, nem como uma vulgar aventureira. Julgamos que ela deverá ser para sempre recordada como uma das mais habilidosas, engenhosas e interessantes impostoras da história”. Harrison prossegue demonstrando que o “caso contra Madame Blavatsky no Relatório Hodgson NÃO ESTÁ PROVADO“. O dano contudo, estava feito. Enferma à data, Madame Blavatsky partiu de Adyar.

(2)    Blavatsky acabou por se instalar em Londres, onde estabeleceu – por sugestão de W. Q. Judge – a Secção Esotérica (ou S.E.) sob a sua direção como Líder Externo (os Líderes Internos eram os Mahatmas), conforme declarado num documento anónimo (mas provavelmente escrito por Annie Besant) “A Escola Oriental da Teosofia: Esboço Histórico” reimpresso no Theosophical History 6.1 (janeiro 1996):11, publicado originalmente na revista de Madame Blavatsky Lucifer 3.14 (15 de outubro de 1888). A S.E. era uma organização destinada a “promover os interesses esotéricos da Sociedade Teosófica através do estudo mais profundo da filosofia esotérica” (vide “A Secção Esotérica da Sociedade Teosófica”, 9 de outubro de 1888). Embora não tenha nenhuma ligação institucional com a S.T., a S.E. está apenas aberta a membros da S.T.; além do mais, todos os ensinamentos e atividades são conduzidas de forma privada.


A Doutrina Secreta, de Helena
Petrovna Blavatsky

(3)    O trabalho principal de H.P. Blavatsky, A Doutrina Secreta (1888), estabelece três proposições que servem como base da Teosofia para a maior parte dos teosofistas: (1) a existência de um princípio ou realidade absoluta e infinita, (2) a natureza cíclica ou periodicidade do universo e de tudo o que nele está contido, e (3) a identidade fundamental da alma individual com a alma-superior universal e a peregrinação de todas as almas através do ciclo de encarnações de acordo com a lei cármica. A Teosofia, neste sentido, é uma perspetiva da realidade última não-dualista ou monista, que se manifesta ou emana numa complementaridade dinâmica e progressão evolucionária.


(4)    O papel ativista de Olcott foi seguido pela segunda presidente da S.T., Annie Besant, que se envolveu em numerosas atividades dentro e fora da Sociedade, incluindo atividades tão diversas como investigações de ocultismo, educação, política, reforma social e a introdução do ritualismo dentro da Sociedade. Dentro das suas várias contribuições, Besant foi fundamental na fundação do Colégio Central Hindu em Benares em 1898, tornando-se ativa na política Indiana, servindo como Presidente do Congresso Nacional Indiano, formando a Liga do Autogoverno e mais tarde desenhando a Lei do Autogoverno (1925). Dentro da Sociedade Teosófica, ela fundou a Ordem Teosófica de Serviço em 1908, com a intenção de cumprir o primeiro objetivo da Sociedade - formar um núcleo de fraternidade universal da humanidade – levando a cabo trabalhos de compaixão e de alívio do sofrimento, incluindo atividades como doação de bens, remédios, roupas, etc… aos necessitados e a abolição da crueldade sobre os animais.

Annie Besant
Continua na próxima semana.

sábado, 19 de Julho de 2014

A Teosofia e as Sociedades Teosóficas (1ª parte)

Tal como já aconteceu no verão anterior com a divulgação de forma faseada, durante cerca de dois meses e meio, de um artigo de David Pratt sobre o Conde de St. Germain, o Lua em Escorpião irá publicar durante as próximas dez semanas um extenso texto da autoria do professor James A. Santucci intitulado “A Teosofia e as Sociedades Teosóficas”. Tendo em conta a temática normalmente abordada no blogue, com um grande enfoque na Teosofia, talvez fizesse sentido que este texto fosse publicado há muito mais tempo. Assim não aconteceu, mas julgamos que a espera compensou.


Prof. James Santucci

Santucci é um académico e portanto o texto é genericamente muito claro, direto,  descrevendo as (muitas) controvérsias e fricções no movimento teosófico de modo imparcial, optando por um registo descritivo. É também por esta razão um documento importante e precioso, pois muitos teosofistas que abordam esse tipo de assuntos têm o mau hábito de apresentar os factos que encaixam nos seus “pré-conceitos”.


Antes de entrarmos na tradução propriamente dita, dois agradecimentos, o primeiro dos quais ao Ivan Silvestre, que se disponibilizou para fazer a revisão da tradução. Jan Nicolaas Kind, editor do site Theosophy Forward, onde está alojada a última versão do artigo – exatamente a que foi usada para fazer a tradução para português – autorizou essa tradução (em consonância com o prof. Santucci com que também contactámos), bem como a utilização das fotos que acompanham o artigo que Kind disponibiliza em versão e-book no Theosophy Forward. É para ele que vai o nosso segundo agradecimento.





A TEOSOFIA E AS SOCIEDADES TEOSÓFICAS

Dr. James A. Santucci


O Dr. James A. Santucci é um Professor de Religião Comparada na California State University, Fullerton. Fez o seu doutoramento na Australian National University (Canberra, Austrália) em Civilização Asiática, com ênfase nos Vedas. É o editor da revista Theosophical History e de Theosophical History Occasional Papers e o autor de La società teosofica e An Outline of Vedic Literature.

Versões ou excertos deste artigo foram publicadas em: Syzygy 6.1-2 (Winter-Fall 1997): 221-45; em The Encyclopedia of Cults, Sects, and New Religions, ed. James R. Lewis (Amherst, NY: Prometheus Books, 1998): 388–9 (2nd ed.: 573), 476 (2nd ed.: 722-3), 480-3 (2nd ed.: 727-30), 483-7 (2nd ed.: 730–4), 503-5 (2nd ed.: 760-2), e 527-8 (2nd ed.: 802-3); e em Odd Gods, ed. James R. Lewis (Amherst, NY: Prometheus Books, 2001), 270-89. Esta versão foi atualizada em 2013 graças aos esforços de Janet Kerschner (Arquivista da Sociedade Teosófica na América, Wheaton, Illinois), S. Ramu (Diretor Geral, Theosophical Publishing House, Adyar), Kenneth Small (Point Loma Publications) e Jan Nicolaas Kind (Theosophy Forward). [Foi ainda editado para publicação na Internet por John Algeo.]

Notas da reunião de 8 de setembro
 de 1875 em Nova Iorque onde se
propôs a constituição da
Sociedade Teosófica



Teosofia

O movimento teosófico moderno está hoje representado nos Estados Unidos, principalmente através de seis organizações: a Sociedade Teosófica, sedeada internacionalmente em Adyar, Chennai, Índia; a Sociedade Teosófica sedeada em Pasadena, Califórnia; a Loja Unida de Teosofistas, constituída em Los Angeles, Califórnia; o Templo do Povo, com sede em Halcyon, perto de Pismo Beach, Califórnia, a Word Foundation de Dallas, Texas e a Publicações Point Loma em San Diego, Califórnia. Destes grupos, a Sociedade de Adyar é considerada pela maioria (embora não por todos) dos teosofistas como a organização matriz. Todos afirmam disseminar Teosofia, um termo popularizado e definido por Helena Petrovna Blavatsky (1831-91), como a sabedoria das eras, incorporando “conhecimento esotérico superior” – portanto, uma “Doutrina Secreta” – parcialmente recuperável de forma imperfeita e incompleta naquelas partes das escrituras das grandes religiões mundiais que expressam ensinamentos místicos e naquelas filosofias que evidenciam uma inclinação monista ou panteísta.


Helena Petrovna Blavatsky



História inicial


A Sociedade Teosófica foi fundada em Nova Iorque em 1875 tendo Henry Steel Olcott (1832-1907) como seu primeiro presidente, H.P. Blavatsky como sua primeira secretária correspondente, George Henry Felt e Seth Pancoast como vice-presidentes e William Quan Judge (1851-96) como conselheiro para a Sociedade. Inicialmente proposta a 7 de setembro pelo Cel. Olcot, a sociedade – intitulada “A Sociedade Teosófica” a 13 de setembro – iniciou a sua atividade a 17 de novembro com o discurso presidencial de Olcott.

Menos de três anos depois, em maio de 1878, a Sociedade Teosófica ligou-se a uma organização reformista hindu conhecida como Arya Samaj, liderada pelo Swami Dayananda Sarasvati (1824-83), cuja promoção dos Vedas – as antigas escrituras das tribos Arianas do Norte da Índia compostas entre 1600 e 500 A.C – como fonte da Verdade funcionou como alicerce da sua tentativa de fazer regressar o Hinduísmo a uma forma mais pura, livre de práticas e ensinamentos corrompidos que surgiram posteriormente, tais como a poligamia, casamento com menores, castas, sutee [NT: antigo costume, hoje proibido que obrigava a viúva a se sacrificar viva na fogueira do seu marido morto] e politeísmo. Devido às diferenças que surgiram depois de alguns meses de ligação – uma das quais era a adoção por parte do Swami de um deus pessoal supremo, uma proposição que não era aceitável por parte de muitos dos membros da Sociedade Teosófica – foi decidido modificar a associação distinguindo 3 organismos: (1) a Sociedade Teosófica, (2) a Sociedade Teosófica de Arya Samaj de Aryavarta, uma “sociedade de ligação” e (3) a Arya Samaj. Existiam diplomas separados para cada uma, com os membros de (2) a pertencerem simultaneamente a (1) e (3). Em 1882, todas as ligações foram quebradas devido aos ataques dirigidos aos teosofistas pelo Swami Dayananda em resposta aos seus líderes, Olcott e Blavatsky, se terem associado a Budistas e Parses e ao facto de se terem convertido formalmente ao Budismo no Ceilão (Sri Lanka) ao receberem o pansil (pancasila), “os Cinco Preceitos” em maio de 1880. Por esta altura, a sede da Sociedade Teosófica foi mudada por H.S. Olcott e H.P. Blavatsky primeiro para Bombaim, no início de 1879, e depois para Adyar, Madras (agora Chennai) em dezembro de 1882.


Henry Steel Olcott
Continua na próxima semana.

sábado, 12 de Julho de 2014

Três tipos de Karma (2ª parte)

Continuamos a tradução do texto "Três tipos de karma" da revista "The Theosophical Movement", iniciada na semana anterior.


B.P. Wadia, fundador da revista
"The Theosophical Movement"

"Isto também implica que a pessoa que fez, de forma sincera, um voto para purificar a sua natureza irá experienciar bons e maus efeitos súbitos, que de outro modo espalhar-se-iam durante muitos mais dias ou anos sob a forma de vários pequenos acontecimentos.

Agami é aquele karma que estamos a construir na vida atual, cujos efeitos serão sentidos nesta ou em futuras encarnações. É gerada pelos nossos pensamentos, sentimentos, palavras e ações, no quotidiano. Prarabdha karma é a porção ou aspeto do karma que está em operação na vida e corpo presentes, desde o nascimento, trazendo consigo todas as circunstâncias e mudanças. O Destino é o karma que amadureceu, não podendo, a sua expressão, ser evitada ou adiada. Por exemplo, não podemos mudar o sexo, família, nação ou raça na qual nascemos. O karma que é irreversível pode ser chamado de destino. O Sr. Judge define o Destino desta forma:

"Destino é a palavra aplicada a um karma tão forte e avassalador que a sua ação não pode ser contrariada por outro karma; mas no sentido em que todos os acontecimentos são dependentes do karma, tudo o que acontece está destinado."

O Destino é o karma em ação. (imagem examiner.com)

Na ausência do conhecimento da lei do karma descrevemos certos acontecimentos inevitáveis referindo: “Isto estava destinado”. Mas o destino é apenas a operação de determinadas causas poderosas, de modo a que nenhuma ação nossa ou qualquer outro karma possa evitar ou modificar o resultado. Para um karma deste género podemos afirmar, “o que não pode ser resolvido, deve ser suportado.” Experienciamos os efeitos do karma desta vida, bem como de vidas anteriores. O que experienciamos é o resultado do balanceamento de diversas causas kármicas.

O karma não opera sob o princípio de uma causa produzir um efeito; várias causas podem ser precipitadas em simultâneo. Da mesma forma, uma causa poderosa pode produzir efeitos em mais do que uma direção. Existe a lei do paralelograma das forças, onde as boas e más causas podem contrabalançar-se completa ou parcialmente e o que experienciamos é o resultante. Assim, atos de amor podem, até certo ponto, mitigar a severidade das consequências kármicas.

Temos ainda a doutrina da anulação do karma. De acordo com a bem conhecida lei da física, duas forças equivalentes opondo-se mutuamente, equilibram-se. “Uma pessoa pode ter na sua conta-corrente kármica uma causa muito desagradável e ao mesmo tempo uma causa de característica oposta. Se se manifestam ao mesmo tempo, poderão se contrariar mutuamente, nenhuma será visível e o equilíbrio será a compensação de ambas”, explica o Sr. Judge. Ele acrescenta que não é necessário que sintamos cada parcela de karma com o mesmo detalhe com que foi produzida, porque diversos tipos de karma podem se precipitar em simultâneo numa altura da vida, e o seu efeito combinado produz um resultado que, embora como um todo represente de forma precisa todos os elementos presente nele, ainda assim é um karma diferente de cada componente particular.

William Quan Judge, um dos
fundadores da Sociedade Teosófica

Existem três categorias de karma, porque o karma opera nos planos físico, psíquico e moral. Uma pessoa deformada com uma boa mente tem karma desagradável operando no seu corpo, estando karma positivo a ser experienciado na sua natureza intelectual. Para entender a anulação do karma devemos nos recordar que como não se podem somar libras e euros, ou libras e dólares, da mesma forma, ao contrariar karma negativo com karma positivo é essencial que ambos os tipos de karma sejam compatíveis. Dessa forma, parece que os resultados de ações feitas principalmente no plano mental não podem ser mitigados ou obliterados por ações produzidas no plano físico. Por exemplo, uma pessoa que passou muitos anos da sua vida torturando mentalmente outro ser humano não pode esperar anular esse ato dando grandes quantias de dinheiro aos pobres. Caridade feita a partir de um excedente, sem nenhuma preocupação particular pelos pobres, ou ainda pior, apenas com a intenção de ganhar mérito (punya), não pode trazer aperfeiçoamento do caráter moral.

Também é verdade que o karma manifesta-se em harmonia com o plano do desejo. Quando temos desejo por dinheiro, fama, reconhecimento, etc… - centrado no plano inferior, criamos um “centro de atração” nesse plano. Isto irá causar que o karma passado se manifeste nesse plano. Por outro lado, no caso de uma pessoa que tem desejos mais puros e que aspira ao mais elevado, fixa o “centro de atração” no plano superior. As energias no plano inferior são para aqui atraídas, o que resulta num aumento de espiritualidade. Assim, por exemplo, se gerámos bom karma dando grandes donativos em vidas passadas, e se o nosso coração está determinado em adquirir conhecimento espiritual então o mesmo bom karma do passado no plano físico irá manifestar-se no plano superior e podemos dar-nos conta de que somos ajudados, conseguindo o tipo certo de livros, um lugar calmo para meditação e estudo, e assim por diante.

O destino de hoje (prarabdha) resulta das nossas escolhas no passado. A escolha de hoje tece o nosso destino futuro. Se um homem toma a decisão de ir na direção correta, avança, se acontece o contrário, retrocede. O destino é tecido nas mentes dos homens com bons e maus pensamentos. Com o Agami Karma sendo gerado agora, podemos mudar o saldo do nosso karma acumulado. Além disso, quando o karma amadureceu e começou a se precipitar, podemos experienciar os seus efeitos com a atitude certa. Contudo, “aceitação” não deve ser equivalente a passividade ou impotência. Se formos capazes de mudar a situação, devemos fazer tudo o que está ao nosso dispor para modificá-la. Não é suposto permanecermos pobres, deficientes, ignorantes, fracos, oprimidos, ou em qualquer outra situação de sofrimento. Podemos usar a situação como matéria-prima e extrair as lições necessárias. Pode consistir em aprender as lições de firmeza e simpatia, ou desprendimento e paciência, e assim por diante. Um dos aforismos sobre o karma assinala que na vida presente podemos tomar medidas para reprimir tendências erradas e eliminar defeitos. Quando são feitos esforços intensos, a influência da tendência kármica é diminuída. O karma coloca-nos onde temos que estar, mas não nos prende."