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sábado, 25 de junho de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (3ª parte)

Continuamos esta semana, com a tradução do artigo de Daniel H. Caldwell, “O mito do terceiro volume desaparecido de A Doutrina Secreta”. É fundamental ler a e partes publicadas nas semanas anteriores.

Página de entrada do site Blavatsky Study Center
editado por Daniel H. Caldwell


O MANUSCRITO DO VOLUME I E O MANUSCRITO DE WÜRZBURG

Escrito apenas seis anos depois dos acontecimentos que ele próprio descreveu, Bertram Keightley conta-nos que à sua chegada a Londres em maio de 1887, a Senhora Blavatsky “colocou tudo o que havia de manuscritos completos [de A Doutrina Secreta] nas mãos do Dr. [Archibald] Keightley e de mim próprio… Ambos lemos todo o conjunto de manuscritos – uma pilha com quase 1 metro de altura – o mais cuidadosamente possível (retirado de “Reminiscências de H.P. Blavatsky e A Doutrina Secreta”, pela Condessa Constance Wachtmeister et al., edição da Quest, 1976, p.78 [NT: este livro existe em português] também citado em “Historical Introduction” to the Secret Doctrine “Collected Writings”, I.41).


Bertam Keightley (1860-1944), tio
de Archibald Keightley


Bertram refere que este manuscrito original estava dividido em três partes ou volumes:

- Volume I: História de alguns grandes ocultistas

- Volume II: Evolução do Cosmos

- Volume III: Evolução do Homem

A referência de Bertram a “tudo o que havia de manuscritos completos” dirige-se obviamente, ao manuscrito original de A Doutrina Secreta, escrito entre 1884 e abril de 1887, que estava na própria caligrafia de HPB.

Qual era a ordenação e o conteúdo do volume I – o volume que continha a história de alguns grandes ocultistas, que Bertram e Archibald Keightley leram em maio de 1887?

Numa carta datada de 23 de setembro de 1886 (apenas oito meses antes dos Keightley lerem os três volumes em Londres), HPB escreveu ao Coronel Henry S. Olcott:


Henry Steel Olcott (1832-1907)

“Envio-te o manuscrito de “A Doutrina Secreta”…Por agora envio apenas o primeiro volume da Secção Introd. Existem no 1º volume introdutório sete secções ou capítulos e 27 apêndices, vários apêndices ligados a cada secção da 1 à 6, etc…Tudo isto constituirá um volume e não é a D.S. mas um prefácio…Portanto, está disposta de forma a que os apêndices possam estar junto com as Secções ou retirados e colocados num volume separado ou no fim de cada um…Se se tirar os ap.. então não terá mais de 300 páginas nas secções Int. mas estas perderão interesse [citado a partir de de Zirkoff , SDIntro., 30-1].

Este manuscrito enviado ao Coronel Olcott não era o manuscrito original na caligrafia de HPB mas uma cópia feita pela Condessa Constance Wachtmeister e pela Srª Maria Gebhard. Este manuscrito do “1º volume” é parte do “manuscrito de Würzburg” agora preservado nos Arquivos da Sociedade Teosófica de Adyar, Madras, Índia.

(Para aqueles interessados no Manuscrito de Würzburg, grande parte do volume I do manuscrito foi publicado de forma seriada nas páginas do The Theosophist em agosto de 1931 e Outubro de 1932 a Novembro de 1933; vol.52, pt.2, p. 601-7; vol.54, pt. l, p. 27-36, 140-50, 265-71, 397-401, 538-42, 623-8, e pt. 2, p. 9-14, 137-43, 263-6, 391-5, 505-9, 633-7; vol. 55, pt. 1, p. 12-6, 143-6. Consultar o índice do volume XIV dos Collected Writings para mais excertos do manuscrito. As estâncias de Dzyan conforme encontradas no volume II deste manuscrito foram publicadas como as “Estâncias no Manuscrito de Würzburg”, p. 514-20 no volume III de “A Doutrina Secreta”, na edição dos “Collected Writings”, Adyar, 1978; Wheaton, 1993. Ver também a p.34 de "Historical Introduction" à Doutrina Secreta de de Zirkoff para um facsimile de uma página do manuscrito de Würzburg. Esta página contém uma das Estâncias de Dzyan. Cópias em microfilme do “manuscrito de Würzburg” existem; consultei o microfilme enquanto pesquisava sobre este assunto).


O manuscrito de Würzburg foi
recentemente editado por David Reigle.


O volume I do manuscrito de Würzburg consiste de apenas cinco secções e um apêndice. Ver aqui o conteúdo do volume I do manuscrito de Würzburg. A carta de HPB para Olcott (acima citada) sugere que o manuscrito de Würzburg sobrevivente está incompleto e possivelmente representa apenas um terço do primeiro volume original de “A Doutrina Secreta”.

Como descreve HPB o tema do volume I original? Na sua carta de 14 de julho de 1886 para Olcott, ela dá a seguinte informação:

“Vou enviar a teu cuidado e à tua responsabilidade o “Prefácio para o leitor” e o 1º capítulo da “Doutrina Secreta”. Existem mais de 600 páginas de papel de ofício como um livro preliminar introdutório, mostrando os inegáveis factos históricos provados sobre a existência dos Adeptos antes e depois do período Cristão, da aceitação de um sentido esotérico duplo em ambos os Testamentos pelos Pais da Igreja e provas de que a verdadeira fonte de todos os dogmas cristãos assenta nos mais antigos MISTÉRIOS arianos durante os períodos védico e bramânico, provas e evidências disso. Dentro de quinze dias enviarei o Prefácio e o 1º capítulo. [citado em de Zirkoff, Introdução da DS 28-9].

Nesta carta, HPB descreve não só os conteúdos do primeiro volume original de “A Doutrina Secreta” mas também os conteúdos do manuscrito de Würzburg que sobreviveu. Em 3 de março de 1886 numa carta para A.P. Sinnett, HPB descreveu os conteúdos deste mesmo primeiro volume de “A Doutrina Secreta”:

Blavatsky e Olcott sentados e Sinnett de pé
Foto: ST Espanha, Loja Espanha

“Terminei um enorme Capítulo Introdutório ou Preâmbulo, Prólogo, chame-lhe o que quiser; apenas para mostrar ao leitor que o texto tal como é apresentado - cada Secção começando com uma página da tradução do Livro de Dzyan e do Livro Secreto do “Buddha Maitreya” Champai chhos Nga (em prosa, não os conhecidos cinco livros em verso indecifráveis) - não é ficção.”

Foi-me ordenado assim, fazer um rápido esboço do que era conhecido historicamente e na literatura, nos clássicos e nas histórias sagradas e profanas – durante os 500 anos que precederam o período cristão e os 500 anos subsequentes: da magia, a existência de uma Doutrina Secreta Universal conhecida dos filósofos e dos Iniciados de todos os países e até de vários pais da Igreja como Clemente de Alexandria, Orígenes e outros, que tinham sido eles próprios iniciados.

Também descrever os Mistérios e alguns rituais, e posso assegurar-lhe que as coisas mais extraordinárias serão expostas agora, a história completa da Crucificação, etc… mostrando que são baseadas num rito tão antigo como o mundo – a crucificação do Candidato em provação no torno, descendo ao Inferno, etc… tudo Ariano.




A história completa até aqui ignorada pelos Orientalistas é encontrada exotericamente nos Puranas e nos Brahmanas e explicada e complementada com aquilo que as explicações esotéricas fornecem.  [Letters of H.P. Blavatsky to A. P. Sinnett, ed. A. T. Barker, p.195; também citado por de Zirkoff em SD Intro., p.26].

Boris de Zirkoff e Geoffrey Barborka (SD Intro., p.68-70) acreditam que esta carta do mês de março descreve material que não está mais disponível. Existem razões para uma opinião contrária. De Zirkoff (69) diz que HPB na sua carta de 3 de março descreve “um enorme Capítulo Introdutório” e que “cada Secção começa com uma página da tradução do Livro de Dzyan”. Isto, estou em crer, é uma interpretação errónea do que HPB escreveu e que foi acima citado:


Geoffrey Barborka (1897-1982)

“Terminei um enorme Capítulo Introdutório ou Preâmbulo, Prólogo, chame-lhe o que quiser; apenas para mostrar ao leitor que o texto tal como é apresentado - cada Secção começando com uma página da tradução do Livro de Dzyan e do Livro Secreto do “Buddha Maitreya” Champai chhos Nga (em prosa, não os conhecidos cinco livros em verso indecifráveis) - não é ficção.”

A chave para a interpretação desta passagem é a frase “tal como o texto
é apresentado”, que se refere, estou em crer, ao texto central do segundo volume de A Doutrina Secreta (que lida com a cosmogonia), na qual cada secção começa com uma página da tradução do Livro de Dzyan.  Por outras palavras, HPB havia escrito um enorme “Livro Introdutório Preliminar”, “Capítulo Introdutório ou Preâmbulo, Prólogo, chame-lhe o que quiser” (Volume I) de modo a mostrar ao leitor que o texto principal no Volume II sobre cosmogonia “não era ficção”. Então HPB prossegue explicando que o que estava no primeiro volume: “Foi-me ordenado…fazer um rápido esboço daquilo que era conhecido.”


H.P. Blavatsky


Continua na próxima semana.

sábado, 18 de junho de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (2ª parte)

Na segunda parte deste artigo é iniciada a tradução do texto de Daniel Caldwell sobre o terceiro volume de "A Doutrina Secreta". Para perceber o contexto é fundamental ler a 1ª parte publicada na passada semana.


Único livro de Daniel H. Caldwell
editado em língua portuguesa.



Parte 1 - Introdução

Em 1897, Annie Besant publicou aquilo a que chamou de terceiro volume de “A Doutrina Secreta”, que tinha sido anunciado por H.P. Blavatsky mas deixado por publicar durante a vida da autora. Presentemente, o ponto de vista dominante é o de que o que Besant publicou não é o terceiro volume de Blavatsky, mas sim algo reunido a partir de vários documentos deixados por HPB.


Annie Besant (1847-1933)


Seguem-se alguns exemplos dessas opiniões:

Um “Terceiro volume” espúrio [foi] lançado em 1897, seis anos após a morte de H.P. Blavatsky. Compilado a partir de uma miscelânea de papéis encontrados nos seus pertences, este volume não faz parte de A DOUTRINA SECRETA original escrita por H.P.B. [prefácio do editor (1947) na reimpressão facsimile da edição de “A Doutrina Secreta” pela Theosophy Company, Los Angeles, Califórnia].

O volume III de “A Doutrina Secreta”…foi publicado em Londres em 1897 com um prefácio escrito por Annie Besant. Deve ficar claro contudo, que este volume não é o terceiro volume idealizado por HPB [Geoffrey A. Barborka, H. P. Blavatsky, Tibet and Tulku, p. 159].




O verdadeiro Volume III…desapareceu sem deixar rastro. [Boris de Zirkoff em H.P.B.'s Collected Writings, vol.7, p.226, nota de rodapé].

O volume III em perspetiva…nunca viu a luz do dia. [de Zirkoff em DS vol. 1, p.679 (Collected Writings edition).

É possível que HPB tivesse em mente um volume adicional [o terceiro] de “A Doutrina Secreta” que efetivamente nunca foi encontrado entre os seus papéis. [de Zirkoff em CW vol. 14, p.1] 

 


No volume I, Blavatsky havia prometido um terceiro volume e projetado um quarto. Essa promessa foi repetida no fim do volume II… Algum material havia sobrado do volume I tal como ela originalmente o concebeu…mas relativamente pouco havia efetivamente sido escrito…Quando Annie Besant tentou encontrar o material não publicado, ela foi capaz de localizar apenas muito pouco daquilo que pertencia ao que HPB pretendia para a continuação do livro. O pouco que Besant encontrou, foi combinado com algumas instruções que Blavatsky tinha escrito para os membros da Secção Esotérica…e esse material, uma evidente mixórdia, foi publicado…como o “terceiro volume” do trabalho de HPB. O “terceiro volume” contém indubitavelmente algum material – sobre as vidas de ocultistas famosos – que havia sido eliminado do primeiro volume do trabalho original, mas também continha bastante material que certamente nunca foi suposto integrar A Doutrina Secreta. [John Algeo, Getting Acquainted with The Secret Doctrine: A Study Course, ed. 1990, p. 23-4]

H.N. Stokes, editor de “The 0. E. Library Critic” defendia que os manuscritos do verdadeiro volume III desapareceram e nunca foram publicados. Ele escreveu cerca de dezassete artigos analisando as provas em relação aos manuscritos do volume III.


H.N. Stokes (1859-1942)

Podemos adicionar muitos outros nomes conhecidos à lista daqueles que têm opiniões semelhantes: Alice Cleather, Basil Crump, Charles J. Ryan, Victor Endersby, Walter A. Carrithers, Jr., Kirby Van Mater, Ted G. Davy, Richard Robb, Dara Eklund e muitos mais.

Este ponto de vista dominante era também a minha opinião inicial, mas depois de um estudo aturado do manuscrito de Würzburg de “A Doutrina Secreta” e de todos os outros documentos de fonte primária relevantes (1886-1897) sobre o assunto, já não estou mais convencido de que os escritores teosóficos acima mencionados estão certos nos seus pontos de vista em relação ao volume III.

De facto, estou inclinado a acreditar que as páginas 1-430 do volume III [NT: que correspondem ao volume V e volume VI até à pág. 75 da edição em língua portuguesa de “A Doutrina Secreta”] publicado em 1897 era o verdadeiro terceiro volume pretendido por HPB (as páginas 433-594 daquele volume [NT: correspondem às páginas seguintes à 79 no volume VI de língua portuguesa] consistem dos ensinamentos esotéricos dados por H.P. Blavatsky aos membros da Escola ou Secção Esotérica durante os anos de 1889-1891 e não estão em debate). As provas e o raciocínio para suportar esta posição serão de seguida apresentados.


H.P. Blavatsky


Continua na próxima semana.

sábado, 11 de junho de 2016

A controvérsia sobre o quinto e sexto volumes de "A Doutrina Secreta" (1ª parte)


Outubro de 1888. Era lançado em Londres o primeiro volume de “A Doutrina Secreta”. Dois meses depois sairia o segundo volume. Escrita por Helena Petrovna Blavatsky, “A Doutrina Secreta” tornar-se-ia uma obra incontornável da chamada literatura esotérica. Traduzida em várias línguas, continua a ser alvo de intenso estudo por estudantes de Teosofia (e não só) em todo o mundo, que tentam encontrar respostas para as muitas perguntas sobre a origem do Cosmos e da Humanidade. Uma obra desta envergadura, não poderia, como é óbvio, estar livre de controvérsias. Não vamos falar das acusações de plágio que foram feitas a Blavatsky há mais de 120 anos. Este artigo destina-se sobretudo a explanar os argumentos a favor e contra em relação à legitimidade do quinto e sexto volumes da edição em língua portuguesa, editada pela Pensamento.




Nas discussões que têm lugar entre os falantes de língua inglesa, discute-se o “terceiro volume” (e não o quinto e o sexto), porque aos dois volumes publicados durante a vida de Blavatsky, Annie Besant (a sua sucessora na Sociedade Teosófica, num processo também ele controverso) e G.R.S. Mead (o antigo secretário particular de Blavatsky) somaram-lhe um terceiro, em 1897.

Foi a partir da chamada “versão de Adyar” publicada em 1938 (também esta com seis volumes), que a versão existente em língua portuguesa nasceu. A edição da Pensamento tem 6 volumes, correspondendo os dois primeiros ao volume I original em inglês, o terceiro e o quarto ao volume II e os dois últimos ao tal volume III publicado depois do falecimento da Velha Senhora. Sem ter isto presente, a leitura do artigo resultará numa manifesta confusão.





O VOLUME "MALDITO"

A Loja Unida de Teosofistas (LUT), uma das organizações que é uma das diversas ramificações que nasceram da sociedade matriz, fundada por Blavatsky, Olcott e Judge (e outros menos conhecidos) em 1875, em Nova Iorque, disponibiliza em na internet e publica em livro, a versão fac-simile de “A Doutrina Secreta”.

No prefácio da Theosophy Company, a editora associada à LUT (para aqueles pouco familiarizados com a história do movimento teosófico e as diversas organizações teosóficas aproveito para sugerir a leitura de “A Teosofia e as Sociedades Teosóficas”, que o Lua em Escorpião publicou há cerca de dois anos) podemos ler o seguinte:

“Além da versão original de 1888 – a única autorizada pela Senhora Blavatsky – várias outras edições deste trabalho surgiram. Uma delas, a chamada “Terceira Edição Revista” de 1893, é vítima de vários milhares de alterações, algumas delas triviais, outras verdadeiras mutilações do texto original. Incluída em impressões posteriores desta chamada “Edição Revista” está o espúrio “Terceiro volume” de A DOUTRINA SECRETA, lançado em 1897, seis anos após a morte de H.P. Blavatsky. Compilado a partir de uma miscelânea de papéis encontrados nos seus pertences, este volume não faz parte de A DOUTRINA SECRETA original escrita por H.P.B..


Helena Blavatsky (1831-1891)


A “Terceira Edição Revista” foi seguida por outra de 1938, desta vez em 6 volumes, chamada a “Edição de Adyar”. Além dos índices remissivos, um retrato biográfico da autora, várias alterações tipográficas e a inclusão de material para tentar justificar a publicação do espúrio “terceiro volume”, esta edição de Adyar é substancialmente idêntica à anterior versão “revista”.

Além dessa, outra edição de A DOUTRINA SECRETA foi lançada. Para além de “correções” sem fundamento do Sânscrito usado pela autora e a inclusão de material sectário irrelevante, esta edição é praticamente uma reprodução fiel do texto original. A sua exata autenticidade, contudo, não pode ser determinada sem uma laboriosa comparação com o original [NT: esta é uma referência à edição de Boris de Zirkoff].

A DOUTRINA SECRETA genuína tem apenas dois volumes. Embora originalmente A DOUTRINA SECRETA fosse constituída por quatro volumes, apenas dois foram entregues à tipografia por H.P.B.. Os dois volumes remanescentes, embora completos, ou quase completos, foram retidos por motivos claramente indicados no final do segundo volume da edição original (v.798 [da edição em inglês original; vol. IV da versão em português, p.366]).”


Boris de Zirkoff (1902-1981)

A edição de 1938 serviu de base à tradução para língua portuguesa, mas não só. A única tradução existente noutros idiomas é baseada nesta versão.

Em 1979, a Sociedade Teosófica de Adyar abandonaria esta versão, passando a publicar a versão de Boris de Zirkoff e o “terceiro volume” passou a ser vendido separadamente. O seu conteúdo pode também ser encontrado no volume XIV dos Collected Writings (Escritos Reunidos) de HPB.

Já no presente século, chegaram os primeiros ecos de protesto contra a “edição de Adyar” ao universo teosófico de língua portuguesa, pelas mãos de Carlos Aveline, o líder da LUT luso-brasileira. Neste texto, é referido que:


Carlos Cardoso Aveline
 (Foto: Jornal O tempo de Belo Horizonte)

“Pouco depois da morte da Sra. Blavatsky, Annie Besant estava entre os principais líderes do movimento teosófico quando abandonou a ética e os ensinamentos originais da filosofia esotérica. Ela decidiu então adulterar o texto de “A Doutrina Secreta”, usando a desculpa de “revisá-lo”, e publicou uma edição ilegítima da obra, que foi preparada com ajuda de G. R. S. Mead e outros membros desorientados da Sociedade de Adyar.”

Aveline também “informa” os teosofistas que entendem o inglês e seguindo a mesma linha encontramos o texto do britânico Matthew Webb (também da LUT) no seu excelente site Blavatsky Theosophy.

Durante o século XX a visão de que este 3º volume era espúrio foi predominante, em grande medida como resultado do que escreveu Boris de Zirkoff – possivelmente o teosofista mais importante do século passado – sobre esse volume.




Este artigo que o blogue Lua em Escorpião publica é composto de duas partes centrais. A primeira é o texto de Daniel Caldwell, “O Mito do Terceiro Volume desaparecido de A Doutrina Secreta”, cuja tradução para português foi amavelmente autorizada pelo autor. A segunda parte é uma troca de argumentos bastante elucidativa, exatamente sobre este tema, que teve lugar no melhor fórum de discussão sobre Teosofia, o Theosophy Nexus. Também neste caso um dos administradores da plataforma anuiu ao meu pedido de tradução do conteúdo desta discussão.

Antes de avançarmos para o texto de Daniel Caldwell, queria referir que o objetivo deste artigo é dar ao leitor uma visão abrangente, que abarque os argumentos contra e a favor, para que o mesmo perceba também que é injustificável qualquer postura dogmática sobre este tema, bem como o tom de alguns ataques, absolutamente inaceitáveis entre (supostos) teosofistas.

Continua na próxima semana.

sábado, 14 de maio de 2016

ITC 2016 – Conferência Internacional de Teosofia deste ano decorrerá nos Estados Unidos

Depois de dois anos na Europa, as Conferências Internacionais de Teosofia (ITC) regressam aos EUA. 



Em 2013, a ITC teve lugar em Nova Iorque, na costa leste do país, mas em 2016 a Conferência irá se realizar no extremo oposto do país, mais exatamente em Santa Barbara, na Califórnia. Terá início a 11 de agosto, uma quinta-feira e terminará no dia 15, um domingo.


Um retiro espiritual que dá pelo nome de “La Casa de  Maria” acolherá o evento e albergará muitos dos participantes. Espera-se que a Conferência seja muito concorrida, pelo que se está interessado em assistir à mesma, convém reservar lugar. As inscrições estão já abertas.


Um mapa de "La casa de Maria"

"Teosofia e a Responsabilidade Social" é o tema da ITC 2016

A ITC de 2014 que se realizou em Naarden e que teve um recorde de participantes permanece como um marco importante destas conferências, que nasceram de modo muito informal nos anos 90 do século passado. Na ITC 2014 foi elaborada uma declaração, conhecida como a declaração de Naarden onde está expresso o compromisso daqueles que suportam e participam nas ITC.


Perto de 140 pessoas estiveram presentes na ITC 2014


A página oficial das Conferências salienta as seguintes passagens como contendo os elementos centrais da declaração:

“Comprometemo-nos através da aprendizagem, formação e da polinização-cruzada a popularizar e a preservar os ensinamentos vivos para as gerações futuras.”

“O nosso objetivo principal e que todos partilhamos, é o de manter vivo o espírito do ITC 2014.”


Eugene Jennings, um associado da LUT (à direita) é o presidente
da ITC. À esquerda está Herman Vermeulen, vice-presidente
e líder da ST Point Loma. Tim Boyd, o segundo a contar da
direita é o presidente da ST Adyar e a seu lado está Linda Oliveira,
presidente da secção australiana.

A página oficial refere:

O passo seguinte no processo de polinização-cruzada e de preservar os ensinamentos vivos é aprendendo uns com os outros. Como é que as diferentes tradições olham e interpretam os ensinamentos teosóficos? Qual é o posicionamento da Teosofia no mundo de hoje e como é que os teosofistas valorizam o seu compromisso na manutenção dos ensinamentos vivos para as gerações futuras?


No video acima, Tim Boyd mostra algumas fotos e fala sobre o ITC 2012


O tema para 2016 é:

Teosofia e responsabilidade social - Aplicando os ensinamentos de H.P. Blavatsky sobre a mente e o coração  

A próxima Conferência será certamente tão enérgica e inspiradora como as anteriores. Os teosofistas estão cientes do desafio que enfrentam, dando um passo ou mesmo um salto em frente.

No verdadeiro espírito de fraternidade eles podem consegui-lo através da partilha e colaboração, e ao terem mentes abertas.


Busto de Helena Blavatsky, fundadora do movimento
teosófico moderno


Mais detalhes na página oficial do ITC

Na página oficial do ITC são dadas indicações de como chegar a La casa de Maria. Alguns voluntários irão também estar disponíveis para ajudar a transportar os participantes para o local, mas para isso é necessário preencher um formulário e enviar um e-mail para Carolyn Dorrance, uma associada da Loja Unida de Teosofistas, organização que aliás tem um dos seus núcleos mais ativos exatamente em Santa Barbara. Relembre-se que além de teosofistas da Sociedade Teosófica de Adyar , da Loja Unida de Teosofistas e da Sociedade Teosófica de Point Loma – Blavatskyhouse também habitualmente assistem ao evento teosofistas independentes. A Sociedade Teosófica de Pasadena abandonou as ITC há alguns anos.

No que diz respeito ao alojamento cerca de 40 quartos estão disponíveis. Cada quarto tem três camas individuais e uma casa de banho com duche. O preço dependerá se a ocupação é feita por um, duas ou três pessoas.



As refeições são vegetarianas. Para outro tipo de preferências alimentares deverá ser contactada previamente a organização.

A organização também aceita donativos.


Vermeulen, Jennings (centro) e à direita Jan Kind, o outro
vice-presidente das ITC

O Lua em Escorpião já acompanha as ITC desde 2013. Pode rever posts antigos sobre estes eventos clicando nas ligações abaixo

ITC 2013 aqui e aqui (mais informações e videos aqui)

ITC 2014 aqui, aquiaqui e aqui (mais informações e videos aqui)

ITC 2015 aqui , aqui e aqui (mais informações e videos aqui)




A colaboração entre as diversas tradições do movimento é fundamental para a renovação do movimento teosófico e para que este se torne uma força mais coesa para a transformação espiritual que o nosso mundo necessita.

sábado, 16 de abril de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (5ª parte)

Terminamos hoje a publicação do artigo "Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores" da autoria de Barend Voorham e Herman Vermeulen. Este último é o líder da Sociedade Teosófica de Point Loma-Blavatskyhouse, que tem sede na Holanda sendo uma das ramificações da Sociedade Teosófica original. Voorham é um dos teosofistas mais proeminentes desta mesma organização.

Para mais informações sobre a STPL deverá consultar a 1ª parte deste artigo, recomendando-se naturalmente a leitura das quatro partes anteriores a quem não o fez.


A Teosofia depois de Blavatsky


De modo algum queremos minimizar o papel de H.P. Blavatsky na divulgação da Teosofia, antes pelo contrário. Ela foi aquela que, depois de muitos séculos, levantou a ponta do véu. Só alguém que sabe alguma coisa sobre ensinar Theosophia, percebe que enorme tarefa isto é. Ela era o elo com os Mestres.

Três modos de expressar os sete aspetos da consciência no que se refere à constituição do Homem. 
Em cima: a classificação conforme dada por H.P. Blavatsky em “A Chave para a Teosofia” (9)
no meio: o “diagrama oval” de G. de Purucker (10); em baixo: o “modelo do piano”. Não se contradizem 
mutuamente: o diagrama oval refina a classificação de Blavatsky. O modelo do piano foi recentemente 
utilizado para ilustrar o ensinamento teosófico de que cada centro de consciência na nossa constituição
 transporta todas as faculdades em si mesmo, e é assim capaz de fazer contacto com cada um dos 
centros de consciência mais elevados ou inferiores (por “ressonância”).


Quando, depois da sua morte, alguns supostos ensinamentos espirituais são proclamados, sendo contrários ao que Blavatsky ensinou, temos simplesmente de determinar o seguinte: ou Blavatsky e os seus Instrutores estavam errados e existe aparentemente uma outra doutrina que contém mais verdade; ou então eles tinham razão. Neste caso, aquilo que é contrário a Blavatsky não é verdade.

Mas isto não significa que depois dela não existiram outros representantes dos Mestres, que pudessem clarificar os textos de Blavatsky e ao fazerem-no pudessem levantar um pouco mais o véu e mostrar um pouco mais da verdade. Devemos abordar os seus ensinamentos da mesma forma que abordamos os de Blavatsky. Se os seus textos refletirem as nossas ideias que já experienciámos como verdadeiras, então podemos confiar razoavelmente nos seus ensinamentos.

De facto, cada ser pensante, quando está num estado altamente intuitivo e compassivo é capaz de encontrar um caminho para uma explicação mais profunda. Se negarmos esta possibilidade, então estamos a tornar Blavatsky num ícone. A colocá-la num pedestal. E isto será tão injusto para ela, como rebaixá-la ou ignorá-la. Em ambos os casos, isso conduz à degeneração.

A tendência para venerar a fundadora de um movimento espiritual pode ser encontrada em quase todos os movimentos espirituais. Nasce de uma sincera, mas muitas vezes cega devoção. Para dar um exemplo: embora o Buda tenha enfaticamente proclamado que o homem deve alcançar a sua própria salvação, existem Budistas que rezam a Gautama e imploram-lhe por saúde e felicidade.


Uma imagem do Buda Gautama

Existem pessoas que têm uma imagem de Blavatsky em sua casa e em cada decisão importante “consultam” essa imagem. Blavatsky certamente não ficaria agradada. E isto é um eufemismo! Paradoxalmente, esta grande instrutora e principal fundadora da Sociedade Teosófica, é neste caso mais um obstáculo do que um auxílio para a vida teosófica, pois um teosofista deve aprender a tomar decisões de modo independente.


A verdadeira prova é a aplicação

Acreditamos que depois de Blavatsky, outros foram também ajudados e apoiados pelos Mestres. É sabido que existem cartas dos Mestres, escritas depois da morte de Blavatsky. Annie Besant da Sociedade Teosófica de Adyar recebeu em 1900, nove anos depois do falecimento de Blavatsky, uma carta de um Mestre. (11) W.Q. Judge também recebeu cartas de Mestres depois da morte de Blavatsky, o que por sinal, originou muitos problemas, porque nem toda a gente acreditou nele. Katherine Tingley e Gottfried de Purucker estiveram, por assim dizer, também em contacto com os Mahâtmas, anos após o falecimento de Blavatsky.


Gottfried de Purucker (1874-1942)


Seria ilógico se os Mestres virassem as costas à S.T.. Mesmo um homem ”mediano” não iria, a meio da sua missão, atirar a toalha ao chão. Iriam estes grandes e compassivos sábios agir dessa forma? Julgamos que não. É por isto que estamos convencidos que depois de Blavatsky, outros estudantes avançados explicaram e desenvolveram a Theosophia com a ajuda dos Mestres.

Existe uma pedra-de-toque que sirva para avaliar os mensageiros? Com certeza que sim. Acima de tudo e antes de mais, eles devem ser exemplos vivos dos seus ensinamentos. Devem praticar o que apregoam. Além disso, reconhece-se a árvore pelos seus frutos. O mensageiro proporcionou mesmo uma maior perceção? Em que medida ele contribuiu para moldar a fraternidade em termos práticos? 

E finalmente: a doutrina que ele veicula, conflitua com a da Tradição Esotérica, de quem Blavatsky foi a última e grande representante, e não nos referimos às suas palavras (que são apenas ferramentas) mas ao conjunto integrado de ensinamentos? Isso não significa que um novo mensageiro não possa explicar e desenvolver os seus ensinamentos. Claro que pode: o propósito da missão dele é fazer isso. Não deve apenas repetir as palavras de Blavatsky. Se compararmos o primeiro grande trabalho de Blavatsky “Ísis sem Véu” com “A Doutrina Secreta”, notaremos que o último livro não se contradiz com o primeiro, mas explica-o e complementa-o em vários pontos. Quando Gottfried de Purucker apresenta o seu famoso diagrama oval, (10) ele certamente não contradiz a divisão setenária da consciência humana dada por Blavatsky. (9) Mas, vai um passo adiante. Quando se apreende a ideia do digrama oval, é-se capaz de melhor perceber o significado mais profundo de Blavatsky. Leia-se por exemplo a estância 7 do volume I de “A Doutrina Secreta” e o comentário de Blavatsky sobre esta estância, especialmente o primeiro verso com a frase do Livro Egípcio dos Mortos. (12) 



Combine-se isto com o diagrama oval e compreender-se-á o que Blavatsky tentava comunicar.


Mesmo nós, editores da presente revista “Lucifer”, inspirados por uma citação de H.P. Blavatsky, desenvolvemos este diagrama oval de algum modo, ao desenhar em cada ego, uma oitava de um piano; uma modesta tentativa de tornar o ensinamento um pouco mais claro. Em resumo, quando a Teosofia é-nos realmente provada, devemos aplicá-la. Porque, ao fazê-lo mostramos que realmente a entendemos. Digerimos os ensinamentos e novo alimento espiritual pode ser ingerido.

Notas:

9. Ver: H.P. Blavatsky, A Chave para a Teosofia, capítulo 6, secção 5.
10. G. de Purucker Fundamentals of the Esoteric Philosophy, Point Loma Publications, San Diego 1990, p. 225.
11. http://www.katinkahesselink.net/lastkh.htm
12. Ver ref. 7, Vol. 1, p. 213-222 [p.250-258 da edição em português].
13. H.P. Blavatsky,‘Psychic and Noetic Action’. Collected Writings, The Theosophical Publishing House, Wheaton 1990, Vol.12, p. 368-369.

sábado, 9 de abril de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (4ª parte)

Esta semana continuamos com a publicação da quarta e penúltima parte do artigo de Barend Voorham e Herman Vermeulen saído na edição de março de 2015 da revista Lucifer, da Sociedade Teosófica de Point Loma- Blavatskyhouse. Recomenda-se naturalmente a leitura das anteriores partes ( ).


Confiança nos instrutores

A Teosofia moderna foi dada à humanidade pela Sociedade Teosófica (S.T.), fundada em 1875 em Nova Iorque por H.P. Blavatsky, Henry Steel Olcott, W.Q. Judge e mais outros treze.


Henry Steel Olcott, um dos fundadores
da Sociedade Teosófica (1832-1907)


Contudo, estes pioneiros – pelo menos três deles – alegavam que os verdadeiros fundadores eram os Mestres de Sabedoria e Compaixão. Nos últimos 150 anos, existiram as especulações mais rebuscadas sobre quem eram estes Mestres. Poucos os conheceram. De acordo com Blavatsky, são seres humanos que estão muito acima da média dos humanos em termos de capacidades, sabedoria e especialmente compaixão. Desde 1875, houve um dilúvio de ensinamentos teosóficos, e apesar da maior parte destes ensinamentos poder ser encontrado nos textos religiosos e filosóficos da Antiguidade, não raras vezes em linguagem velada, são tão novos e estranhos para muita da moderna humanidade, que para a parte maior dela será muito difícil compreender alguma coisa.

Viver em 2015, 140 anos depois da fundação da S.T., torna muito mais fácil entender alguns dos ensinamentos teosóficos. O karma e a reencarnação, por exemplo, são hoje em dia, mais ou menos familiares e portanto muito mais fáceis de entender. Mas no fim do século XIX tudo era novo e estranho.

Fazer um estudo dos primeiros anos da Sociedade Teosófica pode ser muito inspirador. As dificuldades que os pioneiros enfrentavam eram enormes. Existiam ataques hostis do mundo externo: cientistas que alegavam que os ensinamentos teosóficos eram superstição ultrapassada; a igreja Cristã, que não suportava o facto de a S.T. ter muita estima pelo Budismo e pelo Hinduísmo; os espiritualistas, a quem Blavatsky não negava os fenómenos, explicando-os contudo de forma muito diferente. Os maiores confrontos e problemas nasceram porém de antigos colaboradores que se opunham à S.T. e especialmente à sua principal fundadora, H.P. Blavatsky. O facto de a S.T. ter sobrevivido a todas estas dificuldades é para muitos estudiosos uma evidência de que a mesma foi de facto preservada pelos Mestres. Durante esses primeiros anos foi também claro que Blavatsky foi o elo entre os Mestres e a S.T.. É evidente que outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Henry Steel Olcott, presidente-fundador, desempenhou um papel muito importante na organização. Mas no que respeitava aos ensinamentos, H.P. Blavatsky era a autoridade. Graças a ela, algumas pessoas ligadas à Teosofia podiam se corresponder com os Mestres. Ela era conhecida como a “carteira oculta”. Quando ela deixava de estar num certo local, a influência dos Mestres perdia também vigor. Quando, forçada pelas circunstâncias, deixou a sede na Índia, a influência dos Mestres desapareceu também. (4)

Sede da Sociedade Teosófica matriz - Adyar, Chennai, Índia

Embora, depois da sua morte, o seu trabalho não tenha sido devidamente estudado por todos os teosofistas, ela permanecia como uma referência. Era a portadora da luz. Mas serão os seus escritos a palavra definitiva?


Méritos intrínsecos

A própria Blavatsky afirma num artigo que a Teosofia deve-se apoiar nos seus méritos intrínsecos. (5) Fez esta declaração no contexto da realização de fenómenos ocultos, com os quais ela tinha inicialmente tentado suscitar interesse nos ensinamentos teosóficos. A certa altura ela deixou de produzir estes fenómenos, porque não estimulavam o estudo da Teosofia, mas apenas despertavam o sensacionalismo.

Esta afirmação pode ser interpretada no sentido muito mais amplo: todos os ensinamentos, todos os textos, os de H.P. Blavatsky bem como os de outros autores teosóficos, devem provar-se por si mesmos. Não são verdade porque o autor pode produzir fenómenos ocultos ou porque foram inspirados por um Mestre. A prova é a convicção do pensamento. Chegamos a ela por pensar independentemente, não por acreditar nos outros! Quando testamos os ensinamentos com as nossas verdades já experienciadas e o teste confirma a doutrina, então podemos ter confiança na sua verdade.

A Teosofia é por definição não dogmática. Não obstante estimemos e amemos elevadamente H.P. Blavatsky, os seus textos devem ser abordados de modo tão crítico como qualquer outro texto. A Teosofia apenas é benéfica para o ser humano, se ele entender a verdade nela. Por outras palavras, uma atitude crítica perante um ensinamento e o teste permanente, com as suas próprias faculdades internas, é uma responsabilidade que não deve ser subestimada, porque se assim não for, em quê é que estamos a basear a nossa confiança de que Blavatsky era a mensageira dos Mestres?

Helena P. Blavatsky (1831-1891)


Claro que H.P. Blavatsky não forneceu a completa e absoluta verdade. Ela indicou os princípios da Teosofia aos buscadores da verdade, e deu um grande número de formulações dos mesmos com respeito à humanidade e ao planeta, mas nunca pretendeu dar “A Sabedoria dos Deuses” na totalidade, o que para já seria impossível. No final de “A Doutrina Secreta” ela escreve que as suas “exposições estão longe de ser completas” e que apenas quis “preparar o terreno”. (6) Os volumes III e IV de “A Doutrina Secreta” já haviam sido planeados e a sua publicação dependeria da receção dos volumes I e II, embora estivessem quase completos. Nunca foram publicados [NT: Na sua versão original, “A Doutrina Secreta” foi publicada em dois volumes, que correspondem, grosso modo, aos primeiros quatro volumes da edição em língua portuguesa. Esta controvérsia sobre os volumes III e IV será em breve abordada no Lua em Escorpião]. (7)


Portanto Blavatsky nunca deu a última palavra, mas antes a primeira, pelo menos no impulso de 1875 da Loja da Sabedoria e da Compaixão. Os ensinamentos que ela trouxe podem ser mais desenvolvidos e explicados. Ela também disse que no século XX “algum discípulo mais bem informado e com qualidades mui superiores poderá ser enviado pelos Mestres de Sabedoria para fornecer provas definitivas e irrefutáveis de que existe uma Ciência chamada Gupta-Vidyâ; e de que, como as nascentes do Nilo, outrora envoltas em mistério, a fonte de todas as religiões e filosofias atualmente conhecidas permaneceu esquecida e perdida para a Humanidade durante muitos séculos, mas foi finalmente encontrada.” (8)

Notas: 

4. Ver: H.P. Blavatsky, ‘Why I do not return to India’. Collected Writings, The Theosophical Publishing House, Wheaton 1990, Vol. 12, p. 157-158.
5. H.P. Blavatsky, ‘What of Phenomena’. Collected Writings, Theosophical Publishing House, Wheaton 1990, Vol. 9, p. 50.
6. H.P. Blavatsky sempre foi muito clara sobre este assunto. Ver por exemplo: A Doutrina Secreta, Vol I, p. viii [na versão original, p. 12 da edição em português], onde ela escreve que a Doutrina Secreta merece ser considerada, não porque invoque alguma autoridade dogmática, mas por se manter em íntima relação com os factos da Natureza e seguir as leis da uniformidade e da analogia; e:
A Doutrina Secreta, Vol. I, p. 20 [p.86 da edição em português], onde afirma que quando o leitor as tiver compreendido claramente [às três proposições fundamentais], e percebido a luz que espargem sobre todos os problemas da vida, mais nenhuma identificação se tornará necessária; pois a verdade lhe saltará aos olhos, tão evidente como a luz do Sol.
7. H.P. Blavatsky,The Secret Doctrine, Vol. 2, p. 797-798 [vol. IV da edição em português, p.365-366].
8. Ver ref. 7, Vol. 1, p. xxxviii [p.61 da ed. portuguesa].

Continua na próxima semana.

sábado, 2 de abril de 2016

Como provar a Teosofia? - H.P. Blavatsky e os seus sucessores (3ª parte)

Nas duas semanas anteriores, publicamos a e partes deste artigo de Barend Voorham e Herman Vermeulen publicado na revista Lucifer, da Sociedade Teosófica de Point Loma- Blavatskyhouse.

Esta semana, prosseguimos com a 3ª parte, recomendando-se naturalmente a leitura das anteriores.


Herman Vermeulen-um dos autores do artigo e líder da ST
Point Loma-Blavatskyhouse

Prova

Podem estas ideias teosóficas centrais ser provadas? Podemos estar convencidos da sua verdade?

Neste ponto temos de ser realistas. A forma mais elevada de prova é perceber, reconhecer, entender e experienciar a verdade por nós próprios. A maior parte das pessoas não é ainda capaz de experienciar muita da Teosofia. O PRINCÍPIO Omnipresente, Eterno, Ilimitado e Imutável, que é o ponto de partida de todo o sistema teosófico, não pode ser experienciado nem mesmo pelos deuses. Se algum ser experienciar o Ilimitado, dá expressão a ISSO e não é mais um ser ou em ego, porque um ser, por maior que possa ser, é sempre limitado. É por essa razão que nenhuma entidade é por definição capaz de entender completamente o Ilimitado.

A maioria das pessoas também não é capaz de experienciar a reencarnação conscientemente. Quando caímos no sono perdemos a nossa autoconsciência. Tal como quando adormecemos, passamos pelo processo de morrer e nascer inconscientemente e não podemos adquirir conhecimento em primeira mão.

Mas no domínio da confiança nós podemos conseguir completamente um certo grau de prova. Podemos considerar os princípios teosóficos como hipóteses e testá-las com as verdades que já experienciámos. Além disso, podemos examinar se eles coincidem com aquilo que percecionamos à volta de nós. Avaliamos de modo crítico se as ideias teosóficas são consistentes e lógicas e respondemos a todo o tipo de questões.

Desta forma, com base na razão e na lógica, podemos formar a ideia do Ilimitado.

É claro que esta ideia não é perfeita. Como seria isso possível? Mas ao menos iremos entender que a finitude é ilógica por natureza e contrária às observações humanas, pois nem no microcosmos, nem no grande universo nos deparamos com limites. Não apontam os factos científicos sobre o átomo e o universo na direção da infinitude? Ficamos portanto confiantes de que o conceito do ilimitado esteja correto?




Com respeito à reincarnação, também podemos dizer que é uma doutrina lógica. Em toda a natureza existem ciclos. Podemos encontrá-los ciclicamente quer na nossa vida quer nas civilizações humanas. 

Além disso, muitos fenómenos psicológicos são elucidados e explicados com o conceito da ciclicidade.

Também podemos acreditar na Teosofia. Não raciocinamos por nós próprios, mas cremos nos outros. 

Talvez tenhamos fé nela porque o nosso companheiro diz-se teosofista, ou porque achamos os teosofistas boas pessoas e de confiança. Esta crença é obviamente a forma mais fraca de convicção, porque se nosso o companheiro nos desiludir ou se perdermos os nossos amigos teosofistas, a base da nossa crença desaparece também.


Pistis: confiança espiritual

As provas efetivas de uma doutrina devem portanto ser encontradas na nossa própria consciência. Não podem ser fornecidas por outrem, por mais sábio que seja. Não obstante, podemos ter uma enorme confiança naquele que proclama uma doutrina.

Talvez pareça que chegámos tortuosamente ao ponto em que devemos aceitar uma doutrina baseada na autoridade de outrem. Estamos aqui a nos contradizer? Antes de mais, temos de entender que todos nós assumimos certas posições porque confiamos noutras pessoas. Poucos leitores já alguma vez pisaram o Pólo Norte. Contudo, a maior parte assume que o mesmo existe. Têm confiança nos relatos sobre esta região inóspita e assumem que as imagens daqueles mantos de gelo não são manipuladas.

Contudo, esta confiança não é uma crença cega. É mais um reconhecimento, baseado na lógica e na nossa própria experiência, da correção da perspetiva de outros, que aplicamos como uma hipótese útil.

A nossa sociedade não pode existir sem esta confiança. Afinal, se não confiássemos no eletricista, no condutor de autocarros, no médico e no padeiro não poderíamos viver juntos harmoniosamente. Pela mesma razão podemos ter fé nos instrutores espirituais.

Quando esta confiança tem mais a ver com temas espirituais, pode ser chamada, tal como na Grécia antiga de Pistis. Esta palavra pode ser traduzida como “fé” ou às vezes como “crença”. Contudo, é baseada na razão e em saber intuitivamente que algo é verdade. Não é crença cega. É um conhecimento interno, livre de preferências pessoais. É-nos familiar, porque corresponde com as nossas próprias experiências e identifica-se com o fundamento do nosso ser.

A Pistis pode certamente ser útil para nós na nossa busca pela verdade. Como dissemos, as provas são a convicção do nosso pensamento. Portanto, a verdade não vem do exterior, mas deve ser desenvolvida a partir do interior. Ou melhor, deve ser reconhecida ou relembrada. A Pistis é a confiança em nós próprios. Somos capazes de encontrar a verdade, porque ela está dentro de nós. 

Platão escreveu sobre isso. Qualquer conhecimento, qualquer verdade, dizia este antigo filósofo grego, está dentro de nós. Para prová-lo, reflete em “Fédon” da seguinte maneira. Vendo um objeto – uma lira, por exemplo - podemos nos recordar de outra coisa. Ver uma rosa, pode evocar a consciência do belo. Portanto, o conceito de “belo” – Platão fala da ideia do belo – já está dentro de nós, mas nós não nos apercebemos. A rosa externa foi o que espoletou a recordação do conhecimento interno da ideia de belo. (3) De facto, este é um despertar; a nossa fé em algo é sublimada até à compreensão da verdade. Vamos desde a “cabeça” ao “coração”.


Platão (427 (?) a.C-347 (?) a.C)

Isto também funciona com certos ensinamentos. O conhecimento já está dentro de nós. Através de um mito, de um símbolo, de um argumento ou de uma dissertação ficamos conscientes da verdade no nosso Eu. Somos parte de um todo infinito e um pouco mais de infinito também é infinito.

Notas:

3. Platão, Fédon, 72e-77a.

Continua na próxima semana.