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sábado, 13 de dezembro de 2014

Manifesto para uma Ciência pós-materialista (1ª parte)

Recentemente circulou entre vários estudantes de Teosofia a notícia de que um grupo de cientistas de vanguarda tinha redigido um manifesto para uma ciência pós-materialista.

O manifesto foi da autoria de Mario Beauregard (PhD), Gary Schwartz (PhD) e Lisa Miller (PhD), em colaboração com Dr. Larry Dossey, Dr. Alexander Moreira-Almeida (PhD), Marilyn Schlitz (PhD) e dois investigadores mais conhecidos, Rupert Sheldrake (PhD) e Charles Tart (PhD).

Como já escrevi anteriormente, a Teosofia, embora reconheça as limitações da ciência moderna, tem nela um aliado poderoso para, à medida que aquela evolui, mais facilmente convencer a humanidade em geral das verdades da Sabedoria Eterna.


Foto de: http://www.quantumactivist.com
 
O novo paradigma que este corajoso grupo de cientistas propôs é por essa razão visto com entusiasmo pelo movimento teosófico, pelo menos, por aqueles que acompanham a evolução da ciência mais de perto.

Avancemos para a tradução, sendo que o link para o texto original está associado ao título abaixo.


Manifesto para uma ciência pós-materialista


Desde o seu nascimento, a ciência tem evoluído continuamente devido a uma razão fundamental: a acumulação de provas empíricas que não podem ser acomodadas por opiniões enraizadas. As alterações decorrentes têm sido muitas vezes insignificantes, mas nalguns casos foram titânicas, como por exemplo na revolução quântico-relativista das primeiras décadas do século XX.

Muitos cientistas acreditam que uma transição do género é presentemente necessária, porque o enfoque materialista que tem dominado a ciência na era moderna não pode explicar um conjunto crescente de descobertas empíricas no domínio da consciência e espiritualidade.

O seguinte manifesto para uma Ciência Pós-materialista escrito por um grupo de académicos e investigadores contemporâneos tenta visualizar como poderá uma perspetiva científica emergente.

Dr. Larry Dossey, Editor Executivo


Somos um grupo de cientistas de renome internacional, de uma variedade de campos científicos (biologia, neurociência, psicologia, medicina e psiquiatria), que participaram numa cimeira internacional sobre ciência pós-materialista, espiritualidade e sociedade. A cimeira foi coorganizada pelos doutorados Gary E. Schwartz, Mario Beauregard, da Universidade do Arizona e Lisa Miller, da Universidade de Columbia. Esta cimeira foi realizada no Canyon Ranch em Tucson, Arizona, entre 7 e 9 de fevereiro de 2014. O nosso objetivo foi discutir o impacto da ideologia materialista na ciência e a emergência de um paradigma pós-materialista para a ciência, espiritualidade e sociedade. 


Foto: Huffington Post (ver aqui o artigo publicado no Post
sobre o assunto)

Chegámos às seguintes conclusões:

1. A mundivisão científica moderna é predominantemente baseada em suposições que estão intimamente associadas com a física clássica. O materialismo - a ideia de que a matéria é a única realidade - é uma dessas suposições. Um pressuposto relacionado é o reducionismo, a noção de que as coisas complexas podem ser compreendidas, se as reduzirmos às interações das suas partes, ou às coisas mais simples ou mais fundamentais, tais como partículas materiais minúsculas.

2. Durante o século XIX, esses pressupostos estreitaram-se, transformaram-se em dogmas, e fundiram-se num sistema de crença ideológica que veio a ser conhecido como "materialismo científico". Este sistema de crença implica que a mente não é nada mais que a atividade física do cérebro e que os nossos pensamentos não podem ter qualquer efeito sobre os nossos cérebros e corpos, as nossas ações e no mundo físico.

3. A ideologia do materialismo científico tornou-se dominante no meio académico durante o século XX. De tal modo dominante, que a maioria dos cientistas começou a acreditar que ela estava baseada em evidências empíricas estabelecidas, e que representava a única visão racional do mundo.


Capa do livro de Charles Tart, um dos
cientistas que colaborou na redação do manifesto


4. Os métodos científicos baseados na filosofia materialista têm sido muito bem sucedidos, não só por aumentarem a nossa compreensão da natureza, mas também por trazerem maior controlo e liberdade através de avanços na tecnologia.

5. No entanto, o domínio quase absoluto do materialismo no mundo académico tem restringido seriamente as ciências e dificultado o desenvolvimento do estudo científico da mente e da espiritualidade. A fé nesta ideologia, como um quadro explicativo exclusivo para a realidade, obrigou os cientistas a negligenciar a dimensão subjetiva da experiência humana. Isto levou a uma compreensão extremamente distorcida e empobrecida de nós mesmos e do nosso lugar na natureza.

6. A ciência é antes de tudo um método não-dogmático e de mente aberta, de aquisição de conhecimento sobre a natureza através da observação, investigação experimental e explicação teórica de fenómenos. A sua metodologia não é sinónimo de materialismo e não deve estar comprometida com nenhuma forma particular de crenças, dogmas ou ideologias. 


Mario Beauregard
(foto:vancouversun.com)

7. No final do século XIX, os físicos descobriram fenómenos empíricos que não podiam ser explicados pela física clássica. Isto levou ao desenvolvimento, durante os anos 1920 e início dos anos 1930, de um revolucionário novo ramo da física chamado mecânica quântica (MQ). A MQ questionou as bases materiais do mundo, ao mostrar que os átomos e partículas subatómicas não são realmente objetos sólidos, pois não existem com certeza em localizações espaciais definidas e os tempos definidos. Mais importante ainda, a MQ explicitamente introduziu a mente na sua estrutura concetual básica, uma vez que se verificou que as partículas a serem observadas pelo observador - o físico e o método utilizado para a observação - estão ligados. De acordo com uma interpretação de MQ, este fenómeno implica que a consciência do observador é vital para a existência dos acontecimentos físicos que estão sendo observados, e que os acontecimentos mentais podem afetar o mundo físico. Os resultados das experiências recentes suportam esta interpretação. Estes resultados sugerem que o mundo físico não é mais o componente principal ou único da realidade, não podendo ser totalmente entendido, sem fazer referência à mente.

8. Estudos psicológicos têm demonstrado que a atividade mental consciente pode influenciar causalmente o comportamento e que o valor explicativo e preditivo dos fatores agênticos (por exemplo, crenças, objetivos, desejos e expetativas) é muito alto. Além disso, investigações em psiconeuroimunologia indicam que nossos pensamentos e emoções podem afetar significativamente a atividade dos sistemas fisiológicos (por exemplo, imunológico, endócrino, cardiovascular) conectados ao cérebro. Em outros aspetos, os estudos de neuroimagem de auto-regulação emocional, psicoterapia, e o efeito placebo demonstram que os episódios mentais influenciam significativamente a atividade do cérebro.

9. Os estudos dos chamados "fenômenos psi" indicam que às vezes podemos receber informações significativas sem o uso de sentidos comuns, e de formas que transcendem os constrangimentos habituais do espaço e do tempo. Além disso, a investigação psi demonstra que podemos influenciar a mentalmente – à distância –dispositivos físicos e organismos vivos (incluindo os seres humanos). A investigação psi também mostra que mentes distantes podem se comportar de modos que estão não-localmente correlacionadas, ou seja, hipoteticamente as correlações entre as mentes distantes não são mediadas (não estão ligados a qualquer sinal energético conhecido), não são mitigadas (não se degradam com o aumento da distância), mas são imediatas (parecem ser simultâneas). Estes episódios são tão comuns que não podem ser vistos como anómalos, nem como exceções às leis naturais, mas como indicações sobre a necessidade de um quadro explicativo mais amplo, que não pode ser ditado exclusivamente pelo materialismo.




No video anterior temos Rupert Sheldrake, outro dos cientistas que colaborou na redação do manifesto.

Os restantes 9 pontos serão apresentados na próxima semana.

sábado, 15 de novembro de 2014

Lua em Escorpião faz três anos

No passado dia 11 de novembro, o Lua em Escorpião celebrou o seu terceiro aniversário.

No último ano, o blogue continuou o seu crescimento, sendo que foi inclusivamente citado no site Theosophy Forward, por ocasião do seu segundo aniversário e também num fórum de discussão de Teosofia de língua inglesa.

Não há contudo qualquer intenção de traduzir para inglês o conteúdo do blogue (apesar de já terem existido solicitações para que alguns textos fossem passados para inglês) e inclusive, por questões de prioridade, os posts passarão doravante a deixar de ser semanais. A colocação das mensagens permanecerá a ser feita aos sábados, mas não todos os sábados.



A necessidade de aprofundar o estudo nalgumas áreas exige disponibilidade mental e de tempo que entram em choque com a obrigação de ter textos para colocar no blogue com uma data fixa.

Existem naturalmente momentos em que a prioridade é a exteriorização e outros em que consideramos que o tempo é adequado para o estudo e reflexão e consequentemente há ajustamentos que se tornam necessários fazer.

De qualquer modo, os temas fundamentais que pretendia ver tratados no blogue já o foram, com duas exceções. Esses casos, que preferia para já não identificar, serão alvo de posts mais extensos possivelmente só em 2015.

Que fique claro que existem já vários textos na forja para tradução e também uma ideia relativamente clara de qual a série que será publicada no próximo verão.




O blogue mantém-se como um espaço aberto (dentro de certos limites), tendo neste último ano sido traduzidos textos de Vicente Hao Chin Jr. (Sociedade Teosófica de Adyar), Matthew Webb, Odin Townley e "The Theosophical Movement" (Loja Unida de Teosofistas), Pim van Lommel (médico, não teosofista), Katinka Hesselink (antigo membro proeminente da ST Adyar) e Daniel Caldwell (teosofista independente).

Durante o verão e parte já do outono, foi publicado em 10 partes, o conhecido artigo do Dr. James A. Santucci, "A Teosofia e as Sociedades Teosóficas". Santucci é um professor de Religião Comparada na California State University.

Desde novembro de 2013, o blogue conta com a colaboração do Ivan Silvestre que tem sido o responsável pela série "A arte e o transcendente".




Relativamente aos posts do último ano (ou seja posteriores a 11 de novembro de 2013 até à data), os mais lidos foram:

- A controvérsia em torno do Glossário Teosófico (Partes I e II)

- Teosofia pura e simples - A morte e a vida depois da morte (Partes I e II)

- A arte e o transcendente (II e III)

- Como detetar um falso guru

- A influência da Teosofia em personalidades famosas (Partes I, II, III, IV, V/1, V/2 e VI)

- Einstein leu mesmo a Doutrina Secreta? (Partes I e II)


sábado, 8 de novembro de 2014

A verdadeira tarefa da astrologia no século XXI

Robert Hand é possivelmente o astrólogo mais famoso atualmente vivo. Embora muito tempo haja já passado sobre a sequência de livros que editou, os mesmos continuam a ser bastante populares, especialmente o “Planets in Transit”, um livro incontornável, para a interpretação dos trânsitos astrológicos. Estranhamente nenhuma das obras de Hand está traduzida para português.




Com um currículo notável, Hand terminou recentemente o doutoramento em História Medieval, pela Universidade Católica dos EUA.

Há poucos dias, Hand publicou uma interessante mensagem através da sua conta de Facebook, que abaixo se traduz.

“Numa mensagem anterior falei do meu interesse em reconstruir as ligações entre a astrologia tradicional e moderna. Porque havemos de nos importar com isto? A resposta é simples.


Robert Hand (foto retirada do perfil de FB de Hand)


Todas as diferentes formas de astrologia - helénica, hindu, medieval e moderna – têm contributos importantes. Contudo, a síntese entre as formas de astrologia do Ocidente (helenística, medieval e moderna) e do Médio Oriente será mais fácil por duas razões. Em primeiro lugar são todas parte de uma tradição única e agora, uma vez mais, contínua. A astrologia hindu representa um desafio maior, embora, possa também fazer parte de uma eventual síntese. Nesta mensagem vou explicar porque não podemos simplesmente abandonar a astrologia dos séculos XIX e XX e fazer ressurgir algum tipo de combinação de métodos resultantes de formas tradicionais de astrologia.

Em palestras públicas várias vezes afirmei que o objetivo é criar uma astrologia tal qual deveria ter sido se a “experiência de quase-morte” [NT: note-se que a astrologia correu o risco de desaparecer, num processo iniciado no final séc. XVII e que só cessou no final do séc. XIX] nunca tivesse acontecido. Isto é próximo da verdade, mas não a é exatamente. A “experiência de quase-morte” provocou ou permitiu algo que não teria acontecido sem ela. Os astrólogos começam a tentar religar a astrologia com o sagrado. Aqui, refiro-me apenas à astrologia do Médio Oriente e do Ocidente. A astrologia hindu sempre teve e continua a ter, uma ligação com o sagrado, mas com uma tradição espiritual que está muito afastada das tradições do Ocidente. (Por questões de simplificação, quando me referir a “Ocidente” entenda-se que incluo o Médio Oriente. As duas culturas estão muito mais perto uma da outra do que qualquer uma delas está da Índia). Entenda-se que não acredito que de algum modo não haja equivalência ou até superioridade de algumas tradições espirituais indianas (incluindo aqui o Budismo) em relação às do Ocidente, mas a linguagem, os pressupostos culturais, as influências culturais, etc… são muito diferentes e necessitam de uma tradução com um alto nível de sofisticação para se tornarem completamente acessíveis ao Ocidente. Seria melhor se religássemos a astrologia ocidental com o sagrado em termos do sagrado tal como o entendemos no Ocidente, e à medida que a tradução concetual das tradições indianas e orientais fosse avançando, incluiríamos isso também.




Porque perdeu a astrologia ocidental a sua ligação com o sagrado? Quer na Europa, quer no Médio Oriente as religiões vieram à existência, e o Cristianismo e o Islão, que associavam a astrologia com o politeísmo, tornaram-se portanto hostis à astrologia. Com o Islão, a astrologia tornou-se de certo modo aceitável se fosse usada a um nível prático e evitasse assuntos que fossem do domínio da religião. Na Europa, a astrologia era no início completamente rejeitada, ao menos oficialmente. Então, na Europa Ocidental, a civilização colapsou ao ponto da astrologia não poder ser praticada, ao menos a um alto nível de sofisticação, devido à falta de conhecimento do Grego e da ciência grega, etc… Quando a astrologia voltou ao mundo ocidental vinda do mundo árabe, foi aceite com desconforto, mais ou menos nas mesmas condições que o tinha sido no Médio Oriente. Não era suposto se pronunciar sobre o sagrado. A associação entre a astrologia e o sagrado continuou num nível subterrâneo em ambas as culturas, sendo associada à magia, desde à branca à negra e à intermédia entre estes dois polos. Na prática, a astrologia era aceite em ambas as culturas, apenas se não interferisse com o sagrado e não se entrasse em contradição com o livre arbítrio (noutra oportunidade abordarei este assunto!).




Felizmente e por mais estranho que pareça, as mesmas forças que quase destruíram a astrologia no século XVIII, também enfraqueceram fortemente o poder do Cristianismo no Ocidente. No Médio Oriente um ressurgimento do fundamentalismo islâmico (ainda em curso) trouxe uma versão específica da “experiência de quase-morte” à astrologia islâmica.

Então no século XIX, quando a astrologia sofreu um reavivar em Inglaterra, duas linhagens distintas de astrologia emergiram gradualmente, uma linhagem pretensamente científica personificada por A.J. Pearce e uma linhagem religioso-espiritual da qual Alan Leo é provavelmente o melhor exemplo.

O grupo “científico” continuou a tentar fazer aquilo que não teve sucesso no século XVII, tornar a astrologia em algo aceite pela nova ciência. Não funcionou no século XVII e não funcionou também no século XIX. (Os meus comentários sobre esta abordagem científica à astrologia não significam que me oponho a uma abordagem científica à astrologia. O que defendo é uma abordagem científica à astrologia como parte de um esforço em duas frentes para perceber o que realmente é a astrologia, não algo destinado a tornar a astrologia “aceitável” para a ciência conforme esta está presentemente instituída. Isso, estou em crer, não pode acontecer mais por razões religiosas e ideológicas do que científicas).



Um grupo de astrólogos de tendência espiritual religou a astrologia ao sagrado através da Teosofia Blavatskiana. A Teosofia pôs no papel uma filosofia emprestada da religião oriental e que recupera o neoplatonismo clássico tardio. Reconectou a astrologia com ideias como a iluminação, autorrealização, etc…Quaisquer que sejam as suas inadequações como uma filosofia espiritual, preparou o terreno para uma evolução de acordo com estas linhas. A figura mais fortemente associada com esta evolução foi o já falecido Dane Rudhyar que concebeu as astrologias humanista e transpessoal, que enfatizavam o uso da astrologia como uma ferramenta para autorrealização, opondo-se à astrologia da idade média, iminentemente prática e orientada para acontecimentos. Consequentemente isto conduziu ao florescimento da astrologia psicológica pelas mãos de Liz Greene e outros.

Este tipo de astrologia não é bem vista pelos tradicionalistas puros. É visto como algo inconsistente, vago e autoindulgente. Esta não é a minha opinião, são opiniões que ouvi, amplamente expressas entre os tradicionalistas. Esta crítica tem algum fundamento pelo facto de os métodos da astrologia do século XX terem sido tecnicamente rudimentares. O simbolismo astrológico tornou-se tão impreciso que se podia interpretar qualquer coisa de qualquer maneira. De facto, a culpada disto não era a corrente de astrologia espirito-psicológica. A culpa foi da astrologia “científica” de finais do século XVII até ao século XIX, que extirpou à astrologia métodos e princípios que não eram entendidos e que faziam pouco sentido para o seu ponto de vista “científico”. Por exemplo, James Wilson, no seu Dicionário de Astrologia rejeitou completamente as regências. Regências e significadores são o cerne das Astrologias Medieval Ocidental e Hindu. Sem este conceito, o poder e a expressividade da astrologia ficam limitados. Todas as dignidades foram rejeitadas com exceção, e mesmo assim relutantemente, do signo e da exaltação. Deixaram a astrologia com um vocabulário muito limitado que foi tudo com que as escolas espiritual, psicológica e humanística ficaram. De modo a preencher as lacunas simbólicas deixadas por estas supressões, os modos posteriores de astrologia tiveram que expandir o simbolismo do que tinha restado e nesse processo tornaram a linguagem de astrologia menos precisa. Contudo, apesar de tudo isto, estas formas de astrologia espiritual, psicológica e humanística (as três não são de modo algum mutuamente exclusivas) são as maiores inovações da astrologia moderna. A parte da astrologia que é humana e centrada no espírito, que existia de modo claro no mundo antigo (embora não seja facilmente encontrada nos trabalhos práticos), foi recuperada.




Não se entenda que infiro que apenas as grandes inovações da astrologia moderna recaem nas áreas mencionadas no parágrafo anterior. Para começar, a astrologia moderna atualizou o ponto de vista cultural para o mundo moderno de muitos modos. A astrologia medieval estava dirigida para o mundo medieval. Uma mudança era necessária e foi feita. Contudo, neste particular quero abordar uma crítica à tradição feita muitas vezes pelos modernistas, mais concretamente a de que, não estando nós na Idade Média, como pode a astrologia antiga ou medieval ser relevante para nós? Falando como um historiador medievalista, devo dizer que se lermos Bonatti, por exemplo, no que respeita a processos legais, parece desconcertantemente moderno. A nossa cultura é descendente da cultura da Idade Média e somos muito mais parecidos aos nossos antepassados desse período do que muita gente pensa.

Em segundo lugar, a adição dos planetas modernos Urano, Netuno e Plutão foi um grande passo em frente. O grande número de corpos celestes menores em órbita é um pouco mais problemático, mas este é um tema prático. Como podemos lidar com tantos corpos e como dispô-los num tipo de estrutura para análise? Noutra oportunidade abordarei este tema.




Para além disso temos as grandes escolas dos pontos sensíveis que oferecem métodos bastante afastados de qualquer forma tradicional de astrologia (embora não completamente afastadas), a Escola Uraniana ou de Hamburgo e a Cosmobiologia dos Ebertin. Enquanto a escola Uraniana necessita, estou em crer, de alguma filtragem, as caraterísticas de ambas as escolas devem se tornar uma parte permanente da nova síntese. A Escola sideralista de Cyril Fagan e Garth Allen também deu grandes contributos à astrologia moderna, independentemente da ideia que possamos ter de um zodíaco sideral (uma questão para tratar noutra altura). Mais do que tudo, estes desenvolvimentos fizeram-nos olhar para o nosso desenvolvimento histórico nos tempos antigos. Enquanto os seguidores de três destas escolas tenderam a olhar para a astrologia como algo orientado para acontecimentos, não há nada em nenhuma delas que seja incompatível com uma abordagem à astrologia que seja humana e centrada no espírito.

Finalmente há o reavivar da astrologia horária e tradicional, mas este não é efetivamente um contributo para a astrologia moderna, mas as razões desta discussão e as razões porque temos que pensar numa síntese. Esta síntese é a verdadeira tarefa da astrologia do século XXI.

sábado, 1 de novembro de 2014

Einstein leu mesmo a Doutrina Secreta? (2ª parte)

Na passada semana foi publicado conteúdo introdutório importante que deve ser lido por quem ainda não o fez.

Recordamos que com efeito existem duas histórias com respeito a Einstein: uma, a de que foi um ávido leitor de “A Doutrina Secreta” e outra que acrescenta que a sua cópia desse livro foi depositada numa Biblioteca de uma organização teosófica, ou na Sociedade Teosófica de Adyar, ou na da Loja Unida de Teosofistas, neste caso em Bombaim.

Em relação ao primeiro ponto, a informação é mais extensa.

No verão de 1974, o teosofista Iverson L. Harris dá uma entrevista ao The Journal of San Diego History referindo que Einstein mantinha uma cópia de “A Doutrina Secreta”  na sua mesa de trabalho.


Iverson L. Harris
(1890-1979)

Ao tentar confirmar esta informação, Sylva Cranston refere que uma sobrinha de Einstein visitou a sede da ST Adyar. Quem falou com a suposta sobrinha foi Eunice Layton, uma palestrante sobre temas teosóficos, que por acaso estava na mesa de receção quando ela chegou. 

Contudo, como já escrevi, Einstein não tinha sobrinhos. A sua irmã Maja não tinha filhos.

Suspeita-se que a tal sobrinha poderia ser uma afilhada (Einstein tinha duas, Margot e Ilse), mas Joy Mills, a teosofista decana da Sociedade Teosófica na América também se recorda de Eunice dizer que tinha sido a sobrinha a visitar Adyar.


Joy Mills

Também se supôs que Helen Dukas, a secretária de Einstein (e que se especula que também tenha sido sua amante) poderia se ter feito passar por sua familiar para evitar qualquer tipo de embaraço, mas a verdade é que há evidências de que nunca viajou até à India.

A 28 de setembro de 1983, o jornal Ojai Valley News publicou um artigo intitulado “Eu visito o professor Einstein”, assinado por um tal de Jack Brown. As tentativas para localizar ou identificar este Jack Brown pareciam infrutíferas, até que em outubro de 2012, Daniel Caldwell anunciou no fórum theos-talk que talvez tivesse descoberto Jack Brown, mas a confirmação carecia de mais investigação. Embora seja um nome comum, o local onde Brown vivia (Ojai, na Califórnia) tem menos de 8000 habitantes, pelo que há fortes probabilidades de ser este o autor do artigo.




Acredita-se também que o artigo de Jack Brown tenha sido fortemente editado por um jornalista do Ojai Valley News, mas como o jornal mudou de instalações em 1993, não foi possível encontrar o original, que já foi destruído.

O artigo de Brown pode conter factos verdadeiros, mas também poderá ter sido embelezado por alguém do jornal, para tornar um possível artigo aborrecido em algo mais atrativo para o leitor.  O tal Brown refere que Einstein não gostava de passear e que teve um cão chamado “Chicco”. Mas o Einstein Institute nega estas informações.

No artigo foi citado o nome de Howard Rothman como sendo um amigo próximo de Einstein. Nunca se descobriu quem foi este Howard Rothman.

Mas, Leon Maurer, que foi uma das testemunhas principais deste caso refere que nalgumas situações podem ter sido usados pseudónimos.


Leon Maurer (1924-2011)

O pai de Maurer foi um dos que ajudou Einstein quando este abandonou a Alemanha nazi para ir para os EUA. Refere que um dos amigos do seu pai também tinha o apelido Rothman. Quanto tinha 11 anos, Maurer recorda-se de Einstein estar presente num jantar de boas-vindas organizado por aqueles que contribuíram para a sua mudança de país. Maurer acha que a sua “sobrinha” seria Helene Dukas, a secretária de Einstein.

Outra dos testemunhos, proveniente de Jerry Hejka-Ekins defende que o Dr. Alfred Taylor, antigo diretor da Escola de Teosofia de Krotona e suposto amigo de Einstein referiu que este tinha “A Doutrina Secreta” na mesa-de-cabeceira. Mas o especialista em história da Teosofia (particularmente sobre a ST na América), Joseph Ross, diz que conhecia Taylor e que este nunca teve qualquer ligação a Einstein. Contudo, este testemunho de Hejka-Ekins tem muito peso, não só pelo respeito que o movimento em geral tem por este teosofista, mas também porque o Dr. Taylor é alguém altamente conceituado e acima de qualquer suspeita de inventar um facto.

Avancemos para o segundo ponto, o de que existe uma cópia de “A Doutrina Secreta” algures numa biblioteca (ou nas mãos de um colecionador).


Doutrina Secreta original
(foto retirada de jomasipe.com)

Maurer é uma das fontes. Neste artigo ele conta a história toda:

“Por volta dos meados dos anos 70, fui a uma palestra de alguém vindo de fora na Loja Unida de Teosofistas (LUT) em Nova Iorque…Depois da comunicação, eu e um grupo de associados da LUT encontrámo-nos com a palestrante, a senhora Wadia, uma idosa de nacionalidade britânica, viúva de um bem conhecido escritor e palestrante teosófico. Ela estava acompanhada por outras mulheres indianas vestidas com saris.

A sra. Wadia, ou uma das mulheres que estava com ela (não me recordo dos seus nomes) disse-nos que esteve na Theosophical Publishing Company (TPC) em Adyar durante os meados dos anos 60, e que travou conhecimento com a sobrinha de Einstein, que disse ter ido à sede da TPC para doar à sua Biblioteca o livro que estava na cabeceira da cama do tio quando este morreu. A sra. Wadia (ou quem contou a história) disse que ela e vários outros que estavam em Adyar aceitaram com gratidão a cópia muito gasta e usada da 1ª edição de  “A Doutrina Secreta-Síntese da Ciência, da Religião e da Filosofia” de H.P.Blavatsky.


Sophia Wadia (1901-1986)
(foto retirada de:blavatskytheosophy.com)

Perguntei-lhe se havia efetivamente manuseado e aberto o livro. Ela respondeu que sim. Quando especificamente lhe perguntei se existiam anotações nas margens, ela referiu que o livro estava cheio de anotações e sublinhados, e que as margens estavam cobertas de rabiscos e de outras marcas que não se percebia o que eram (o que não daríamos em troca para vê-los?). Quando alguém perguntou o que aconteceu ao livro, ela disse que ainda estava na biblioteca da Loja de Adyar.”

Maurer depois prossegue indicando que quando soube disto foi de imediato comprar uma edição fac-simile (não disponível em português, mas em inglês, em edição publicada pela LUT, existindo também online, quer no site da ST Pasadena quer em várias das lojas da LUT, como por exemplo nesta) que estudou durante vários anos e se baseou para enunciar a sua teoria de consciência holográfica.

Dallas TenBroeck, um teosofista da LUT que faleceu em 2006, corrige Maurer num ponto. A sra. Wadia nunca esteve em Adyar, o que é garantido por várias pessoas próximas dela.

Foi colocada a questão da existência do livro na Biblioteca de Adyar à presidente da Sociedade na altura, a sra. Radha Burnier, que negou a existência de tal cópia.




Na verdade, o relato original de Eunice Layton, apenas refere que Einstein tinha uma cópia do livro de Blavatsky na sua escrivaninha.

Maurer acredita num suposto relato de Dallas TenBroeck,  que referiu ter visto a cópia que Einstein possuía de “A Doutrina Secreta”. A honestidade do teosofista da ULT era intocável.

Contudo não se consegue identificar esse relato. Katinka Hesselink inicialmente disse que tinha uma cópia de um e-mail de TenBroeck com esse facto, mas pressionada para confirmar a existência dessa mensagem referiu que nunca a encontrou e que pode ter sido um lapso da sua parte.


Katinka Hesselink

Ainda se investigou se o livro estava ou não na posse de Loja Unida de Teosofistas (LUT) de Bombaim, mas desconhece-se se houve resposta.

Conclusão

Isto é efetivamente o que se sabe publicamente sobre esta história. Não existem provas “científicas” sobre o interesse de Einstein por “A Doutrina Secreta”. A apresentação destes testemunhos não é suficiente para convencer os céticos. Contudo, no meio teosófico, a credibilidade de algumas testemunhas é mais do que um indício de que Einstein realmente tinha a grande obra de Blavatsky na sua mesa de trabalho.

Einstein teve contacto com o trabalho do pensador italiano Pietro Ubaldi, como é aqui expresso, pelo que não é descabido que tenha lido pelo menos parte de "A Doutrina Secreta". Contudo, a ideia central que sai da correspondência de Ubaldi com Einstein é esta frase, escrita pelo cientista nascido na Alemanha:

"Para meu velho cérebro, treinado no racionalismo, tudo isto me parece estranho, porém agradável."

O próprio Ubaldi escreve:

"Ele foi assim um verdadeiro filho de nosso século, isto é, o cientista profundo e especializado; mas, antes de tudo, analítico e só depois, sintético; grande matemático, cuja maior grandeza é de ter a honestidade e sinceridade de reconhecer que o seu cérebro está treinado pelo racionalismo e que, além disso, ele não se acha num terreno que possa aceitar como positivo. Mas isto não nos deve surpreender, porque esta é a forma mental do nosso pensamento científico moderno."


Pietro Ubaldi (1886-1972)

Numa troca de e-mails com um teosofista conhecido foi-me enviada uma passagem de uma biografia de 1971 de Einstein (Einstein - The Life and Times de Ronald W.Clarck), de um episódio que teve lugar em 1935:

"Uma vez convenceram-no a visitar o Rockfeller Medical Center em Nova Iorque, então gerido pelo irmão de Abraham Flexner. Nessa instituição, o Dr. Alexis Carrel - cujos interesses extra-curriculares eram o espiritualismo e a perceção extra-sensorial - trabalhava com Lindbergh num dispositivo para perfundir órgãos, um instrumento que abriu o caminho para o moderno transplante do coração. Carrel tinha convidado Einstein para inspecionar o dispositivo (...). Trinta anos depois, Lindbergh ainda se lembra de Einstein entrar no gabinete com Carrell. Este, expondo o espiritualismo, disse: "Mas doutor, o que diria se você próprio tivesse observado este fenómeno?"
"Na mesma, não teria acreditado", respondeu Einstein.

Uma nota final para referir que o que escrevi no início, da necessidade que os teosofistas têm de associar a Ciência moderna à Teosofia, é exemplificada neste esclarecimento dado por TenBroeck a um jornal, que encontrei por acaso enquanto pesquisava sobre o assunto.


sábado, 25 de outubro de 2014

Einstein leu mesmo a Doutrina Secreta? (1ª parte)

Face à cultura instalada não é fácil falar abertamente sobre filosofia esotérica sem se ficar com receio de ser olhado de lado. A resistência a ideias que os interlocutores com grande probabilidade considerarão estranhas, demove grande parte dos teosofistas de falar de Teosofia sem ser no círculo restrito que partilha esse mesmo interesse.

Contudo, para aqueles que tentam popularizar a Sabedoria Eterna em ambientes hostis, uma das estratégias é ligar a Teosofia à Ciência. Contudo, para fazê-lo de modo correto e especialmente perante pessoas que têm bom domínio dos meandros da Ciência, é necessário conhecimento sólido sobre ambas as coisas: Teosofia e Ciência. Mas, sejamos francos: teosofistas desse calibre há muito poucos. E aqui não me refiro apenas ao mundo de língua portuguesa, mas em termos gerais. Assim, a maior parte dos teosofistas, o máximo que consegue fazer é partilhar referências soltas: artigos sobre Experiências de Quase Morte, algum aspeto cosmológico que parece comprovar algum ponto da Cosmogénese da Doutrina Secreta ou citar alguém famoso que se interessou pela Teosofia.

Caso a escolha recaia na última opção, parece haver um argumento de peso: o interesse de Albert Einstein em “A Doutrina Secreta”. Mas será que esse interesse foi verdadeiro?


Albert Einstein (1879-1955)

O famoso cientista nascido na Alemanha é apontado por muitos teosofistas como se tendo inspirado em “A Doutrina Secreta” de Helena Blavatsky.

Isto mesmo é descrito na p.474 da edição em língua portuguesa da biografia mais conhecida da Velha Senhora, “Helena Blavatsky – A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno”, da autoria de Sylvia Cranston que escreve:

“Como foi indicado no prefácio deste livro, um certo número de cientistas tem-se interessado por “A Doutrina Secreta”. De acordo com uma sobrinha sua, Einstein tinha sempre uma cópia dessa obra na sua mesa de trabalho.” Nas notas no final do livro, Cranston especula sobre como poderia Einstein ter entrado em contacto com a magnum opus de Blavatsky.  Robert Millikan, presidente do comité executivo da Cal Tech, onde Einstein trabalhou antes de aceitar um lugar em Princeton, poderá ter sido quem deu a conhecer Blavatsky ao mais famoso cientista de todos os tempos. Millikan estava profundamente interessado em “A Doutrina Secreta”.


Sylvia Cranston


Outra pessoa pode ter sido Gustav Stromberg, um astrofísico do Observatório Mount Wilson, em Los Angeles, com quem Einstein trabalhou. Stromberg chegou a visitar a Sociedade Teosófica de Point Loma e a lá dar uma palestra. Também escreveu a introdução de um livro sobre astronomia de dois teosofistas de Point Loma (ver p. 652 op.cit.).

Mas, as informações dadas por Cranston têm uma deficiência… Einstein não tinha sobrinhas.
Cranston que era reconhecidamente rigorosa e meticulosa parece ter confiado no testemunho oral que recebeu e não confirmou a história.

Há quatro anos um grupo de teosofistas juntou-se para debater o assunto pela internet. A plataforma usada foi a comunidade Theosophy.net que com o passar dos anos degenerou e passou a ser uma fonte de ataque permanente à Teosofia moderna e a Helena Blavatsky em particular. Sob a influência de um tal John E. Mead e com o apoio do administrador da comunidade, Joe Fulton, os ataques foram de tal ordem que vários teosofistas foram banidos e outros retiraram-se voluntariamente. Tenho na minha posse um resenha feita por um conhecido teosofista dos piores ataques dirigidos a Blavatsky no referido site e é realmente indescritível o tratamento dado à fundadora do movimento teosófico moderno. O theosophy.net é pois hoje em dia uma caricatura do que já foi e excluindo alguns recursos úteis (leia-se literatura online) nada mais tem para oferecer. Na verdade, a discussão a que vou aludir daqui em diante já não está disponível e é uma sorte tê-la copiado em tempos e guardado em ficheiro.


Joe Fulton

Do que efetivamente disponho é da discussão à volta das conclusões finais. A cópia também poderá não conter todas as opiniões, pois alguns teosofistas descontentes com o rumo do site apagaram o seu registo e com isso todos os seus posts. Contudo, o material que vou apresentar parece-me suficiente.

No referido grupo de teosofistas estão nomes como Daniel Caldwell (responsável pelo principal portal sobre HPB, o Blavatsky Study Center), Jerry Hejka-Ekins (bem conhecido no meio, agora envolvido no projeto FOTA para preservação da literatura teosófica), Leon Maurer  (que estudou profundamente “A Doutrina Secreta” e estabeleceu pontes com a Física moderna, até à sua morte em 2011, aos 86 anos de idade), e David Reigle (sanscritista e que já publicou alguns livros importantes, o último dos quais foi o manuscrito de Wurzburg).


Jerry Hejka-Ekins


Maurer não tem dúvidas em considerar que a base para a teoria da relatividade, bem como para a natureza quântica da luz, foi o livro de Dzyan e “A Doutrina Secreta” de HPB.

A sua convicção foi despertada pelo físico Richard Feynman que na revista Time disse “Não consigo entender como ele [Einstein] intuiu que E=mc2, tendo em conta o nível de conhecimento científico na altura [1905].” Maurer escreveu a Feynman, mas nunca recebeu resposta.




O teosofista norte-americano acrescenta que Blavatsky deixou claro que energia e massa eram equivalentes e que a sua relação era estabelecida com base na velocidade da luz (daí a famosa equação E=mc2). Ele acrescenta que inicialmente (no primeiro artigo que Einstein escreveu sobre o tema) a teoria não tinha suporte matemático, algo que só veio acontecer mais tarde, sendo mais uma pista que a inspiração foi “A Doutrina Secreta”.

Existem duas histórias com respeito a Einstein: uma, a de que foi um ávido leitor de “A Doutrina Secreta” e outra que acrescenta que a sua cópia desse livro foi depositada numa Biblioteca de uma organização teosófica, ou na Sociedade Teosófica de Adyar, ou na da Loja Unida de Teosofistas, neste caso em Bombaim.


São esses dois relatos que vamos analisar em pormenor na 2ª parte, a publicar de hoje a uma semana.

sábado, 18 de outubro de 2014

Quanto tempo leva para reencarnarmos?

O Lua em Escorpião traz hoje mais um texto do teosofista britânico da Loja Unida de Teosofistas (LUT) Matthew Webb, editor do site Blavatsky Theosophy. É o segundo texto que traduzimos deste autor e provavelmente no futuro outros se seguirão.

A tradução deste artigo para português é do meu ponto de vista especialmente relevante. A principal razão é a de que a interpretação da literatura teosófica sobre a duração do período entre-vidas produz uma série de equívocos. Alguns reproduzem os ensinamentos dos Mahatmas sem os contextualizar e criticam ferozmente quem se atreve a soltar um "mas". Outros teosofistas, que conhecem inclusive a investigação mais séria, nomeadamente aquela sobre as memórias espontâneas de vidas passadas (como a do o norte-americano Dr. Jim B. Tucker), e que usam o cérebro para refletir e não para papaguear literatura teosófica têm um certo receio mesmo assim em abrir um parêntesis face ao que está escrito.


Dr. Jim B. Tucker

Sendo Matthew Webb um teosofista pertencente a uma organização que normalmente é considerada como aquela que mais ferozmente defende a primazia da literatura dos fundadores do movimento, particularmente, a de Blavatsky e Judge, é surpreendente a forma clara e sem rodeios como Webb aborda o tema. Não concordo totalmente com a razão que apresenta para o aumento da população, mas isso não anulou o meu interesse em colocar o artigo neste blog.

Agradece-se uma vez mais a autorização dada por Matthew Webb, para a tradução deste texto. A colocação das imagens foi feita por mim.




Quando ocorre a reencarnação? Qual a duração do tempo que passamos no Devachan [NT: segundo o Glossário Teosófico é o estado intermediário entre duas vidas terrestres, que corresponde à ideia de Céu ou Paraíso, onde cada mónada individual vive num mundo que foi criado pelos seus próprios pensamentos e onde os produtos da sua própria ideação espiritual lhe aparecem substanciais e objetivos], antes de regressarmos ao plano físico para uma nova vida num novo corpo? Esta é uma questão interessante.

Em várias passagens da literatura teosófica é referido que em termos médios, a pessoa não reencarna habitualmente antes que aproximadamente 1000 a 1500 anos tenham passado, e que a alma pode até ficar no estado devachânico por vários milhares de anos antes de reencarnar. Isto foi dito pelo Mestre Koot Hoomi e pelo Mestre Morya nas “Cartas dos Mahatmas” e mais tarde repetido em vários escritos de H.P. Blavatsky, William Q. Judge, A.P. Sinnett e outros.


Mestre Morya

O período médio de 1000 a 1500 anos entre encarnações é infelizmente levado em conta por alguns teosofistas como uma regra estrita e aplicável em qualquer circunstância, mas não é esse o caso.

Os Mestres, HPB [NT:Helena Petrovna Blavatsky] e WQJ [NT: William Quan Judge] estavam sem dúvida certos ao dizer que este período muito longo era a média nessa altura - ou seja no final do século XIX – mas nunca disseram que isto seria assim para sempre e de facto Judge no seu livro “O Oceano de Teosofia” escreve especificamente sobre aquela duração como “o tempo que seria para o homem comum deste século em cada lugar.”


Portanto naquela altura da história do homem era esta a média, mas não existe qualquer razão para assumir que esta é ainda a média. De facto, o impressionante aumento de população ao longo do último século – com a população mundial a crescer quase 6 mil milhões em 120 anos! – é suficiente para indicar que aquela média não se aplica de modo algum e que muitas almas estão a reincarnar muito mais cedo e mais rapidamente hoje em dia do que há 100 anos.


A.P. Sinnett

Os Mestres declararam nas suas cartas que a reincarnação tem lugar mais cedo e muito rapidamente em casos onde a força de “tanha” ou “trishna” (termos sinónimos em Páli ou Sânscrito que significam “desejo de viver” ou “sede pela existência física material”, “desejo pela experiência sensorial e objetiva”, etc…) é forte ou prevalecente e onde a natureza espiritual do indivíduo está totalmente por desenvolver ou por despertar.

Parece que a razão principal para o aumento da população é o aumento de "tanha" e a diminuição de espiritualidade na vida humana, devido a muitos indivíduos se terem tornado presas do pensamento materialista e guiado pelos sentidos. Esta é a causa de reencarnação mais rápida para a maioria. Mais informação sobre isto poderá ser obtida através da leitura do artigo “A Right Understanding of Reincarnation”.

Como existem alguns teosofistas que insistem que o número de 1000-1500 anos deve ser aceite como uma regra ou como bitola para o século XXI, citamos aqui algumas passagens que mostram que a Teosofia efetivamente nunca se agarrou a uma perspetiva tão estrita e rígida nesta matéria como alguns são inclinados a pensar…


“E por quanto tempo? Este estado de beatitude espiritual dura anos? Décadas? Séculos? Anos, décadas, séculos e milénios, frequentemente multiplicados por alguma coisa mais. Tudo depende da duração do karma.”

-Mestre K.H, “Cartas dos Mahatmas”, p.305, vol. I, carta 68 (ed. port.)


Mestre Koot Hoomi


“A permanência no Devachan é proporcional aos impulsos psíquicos inacabados e originados na vida terrena: as pessoas cujas atrações foram preponderantemente materiais serão atraídas mais cedo de volta para o renascimento pela força de Tanha.”

-Mestre K.H, “Cartas dos Mahatmas”, p.191, vol. II, carta 104 (ed. port.)


Tanha é a sede pela vida. Aquele, portanto, que não originou em vida muitos impulsos psíquicos terá pouca base ou força na sua natureza essencial para manter os seus altos princípios no Devachan. Quase tudo o que terá serão aqueles originados na infância, antes que ele começasse a se dedicar a pensamentos materialistas... E esse tipo de pensador materialista pode emergir do Devachan num outro corpo num mês, cedendo às forças psíquicas não gastas originadas no início da vida. Mas como cada uma dessas pessoas varia quanto ao tipo, à intensidade e à quantidade de pensamentos e de impulsos psíquicos, cada uma pode variar em relação ao tempo de estada no Devachan.



“Quanto tempo o Ego reencarnante permanece no estado “devachânico”? Isso depende, dizem-nos, do grau de espiritualidade e do mérito ou demérito da última encarnação.”

- H.P. Blavatsky, A Chave para a Teosofia, p. 132 (ed. port.)


“Também se deve ter em mente que para cada ego varia a duração da permanência nos estados post-mortem. Eles não reencarnam no mesmo intervalo, mas voltam do estado após a morte em diferentes proporções.”




William Q. Judge

Isto é suficientemente conclusivo, especialmente a última citação, que resume todo o assunto. Mas o que dissemos acima não nega a probabilidade de algumas almas ainda passarem um período de tempo extremamente longo no Devachan, de muitas centenas ou até milhares de anos. Como diz HPB, tudo “depende do grau de espiritualidade e do mérito ou demérito da última encarnação”, ou seja, da quantidade ou da força de karma positivo que foi acumulado pelo indivíduo durante a vida que acabou de terminar. A Lei do Karma assim o determina, como em todas as coisas. Tudo resulta de um destino criado por nós próprios.

Como demonstra a pesquisa competente por parte de investigadores, a vasta maioria dos indivíduos que se recordam com exatidão dos detalhes da vida passada apenas passou alguns anos numa condição intercalar (a que os teosofistas chamam de Devachan). Alguns tentaram usar isto como prova ou evidência de que as almas reencarnam sempre apenas depois de alguns anos.


H.P. Blavatsky


Mas isto nada prova. A razão pela qual são os que passaram apenas alguns anos no estado devachânico aqueles que se recordam corretamente de detalhes verificáveis da sua vida passada, é precisamente porque os que lá passaram um longo período teriam menor possibilidade de se lembrar de alguma coisa da vida anterior, ou pelo menos teriam menos hipóteses de se recordar de algo de forma clara, precisa ou com detalhes específicos. Portanto, almas que tenham estado no estado devachânico durante séculos ou mesmo milénios teriam obviamente muito menos possibilidades de se recordar de detalhes da sua vida anterior depois de reencarnarem, pois os eventos e acontecimentos da aquela vida anterior teriam acontecido há muito tempo.

A possibilidade de as almas despenderem um tempo muito longo entre encarnações não é portanto invalidado de modo algum por toda a investigação moderna sobre reencarnação.

“Quanto à lógica, consistência, filosofia profunda, misericórdia divina e equidade, esta doutrina da reencarnação não tem comparação sobre a Terra. É uma crença num perpétuo progresso de cada Ego encarnante, ou alma divina, numa evolução do exterior para o interior, do material para o espiritual, chegando ao fim de cada estágio à unidade absoluta com o princípio divino. De uma força a outra força, da beleza e perfeição de um plano para maior beleza e perfeição do outro, com acessos a uma nova glória, a um novo conhecimento e poder em cada ciclo – tal é o destino de todo o Ego, que assim torna-se o seu próprio Salvador em cada mundo e encarnação.” 

– H.P. Blavatsky “A Chave para a Teosofia”, p.140, ed. port.

sábado, 11 de outubro de 2014

A arte e o transcendente VII

A música de

Gurdjieff - de Hartmann



"Na visão de Gurdjieff, a música, tal como em outras ciências tradicionais, deve, acima de tudo, servir para orientar a humanidade a um despertar. A maior parte da música que ouvimos, é contudo, subjetiva. Não só flui do compositor consoante o seu estado subjetivo como também afeta cada ouvinte consoante o estado subjetivo em que se encontra. Menos comum é a música objetiva que requer um conhecimento objetivo da natureza humana, específicamente da função e propriedades do sentimento e de como esse sentimento é afetado por qualidades específicas de cada vibração. 
A música objetiva afeta todas as pessoas da mesma forma. Não só toca nos sentimentos como também os transforma, conduzindo o ouvinte a um estado de união ou "de harmonia" dentro de si mesmo, e, assim, a uma nova relação com o Universo, que é por si mesmo, um campo de vibrações. De acordo com Gurdjieff, a escala musical de sete notas exprime uma lei cósmica fundamental, a Lei das Oitavas que regula o desenvolvimento das vibrações, o fluxo de energia, em todos os fenómenos no Universo."
Fonte do texto: archive.org

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