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sábado, 29 de dezembro de 2012

Doutrina Secreta resumida e anotada


 Em novembro último, a editora brasileira Pensamento lançou no mercado a tradução da versão resumida e anotada d’ “A Doutrina Secreta”, a magnum opus de Helena Blavatsky.

Originalmente lançada nos EUA em 2009, esta versão é da responsabilidade do historiador Michael Gomes. 


Foto de Michael Gomes


Na altura causou sensação o facto de ter sido a Penguin, uma grande editora norte-americana a lançar o livro, o que permitiu dar maior visibilidade à obra central da Teosofia moderna. 

Gomes, que também é diretor do Emily Sellon Memorial Library em Nova Iorque (biblioteca com livros sobre Teosofia, esoterismo, religião, filosofia e ciência) já tinha feito algo semelhante (uma versão resumida) com “Isis Sem Véu” em 1997. Não sendo esta obra tão conhecida, a popularidade atingida não foi tão expressiva. Além disso a editora foi a Quest (ligada à Theosophical Society in America), o que não permitiu uma abrangência tão significativa em termos de colocação do livro nas grandes livrarias. Não obstante em 2009, a “Isis sem Véu” resumida já ia na 4ª impressão.

Versão resumida de "Ísis sem Véu",
também pelas mãos de Michael Gomes


A primeira obra conhecida de Michael Gomes foi “The dawning of the theosophical movement” (que poderia ser traduzido como “O alvorecer do movimento teosófico”), lançada em 1987, onde o autor descreve, além da fundação da Sociedade Teosófica, os antecedentes e os anos seguintes a esse evento, até à partida de Blavatsky para a Índia (Blavatsky não mais voltaria à América). Este livro tem um importante valor histórico.


Em 1992 saía a compilação “HPB teaches-An anthology” (HPB ensina-Uma antologia) também pelas mãos de Michael Gomes, que selecionou alguns dos textos mais relevantes dos “Collected Writings” de Blavatsky, homenageando assim a Velha Senhora por ocasião do centenário do seu falecimento. Alguns destes textos poderão ser encontrados nos “Textos Seletos de Helena P. Blavatsky” ou no site Filosofia Esotérica.

Michael Gomes é conhecido também pelas suas palestras  e entrevistas em programas de rádio.


Não se sabe quando chega o livro a Portugal, mas é possível visualizar as primeiras páginas aqui.



A única versão completa  d’“A Doutrina Secreta” em português, disponível presentemente no mercado, também foi editada pela Pensamento, mas tem a desvantagem de ter sido baseada numa versão em inglês modificada por Annie Besant e que inclusive já foi abandonada pela própria Sociedade Teosófica de Adyar. Mais sobre o assunto pode ser visto aqui. Sabe-se que os editores do site Filosofia Esotérica pretendem lançar a tradução da versão original d’”A Doutrina Secreta”  e já começaram a trabalhar nisso como se vê aqui.

Com a sua terminologia muito própria, a Doutrina Secreta não será um livro nada fácil de traduzir. O blog de língua inglesa Blavatsky News anunciou o lançamento da versão resumida e anotada d'"A Doutrina Secreta"no mercado lusófono, e considera que o livro “é útil para aqueles que nunca irão pegar nos dois [que na versão portuguesa são seis] volumes”. Contudo, adiantam desde já que o “cuidadoso trabalho ortográfico de Gomes parece ter sido trocado pela mais familiar mas incorreta escrita de palavras como “paranishpanna” e “Dhyan-Chohan”.

Acrescente-se que é uma tarefa praticamente impossível resumir uma obra tão extensa quanto a Doutrina Secreta que tem bem mais de mil páginas, em pouco mais de 230 (avaliando pela versão em inglês que tem ainda por cima um grande espaçamento entre as linhas), pelo que o mérito principal desta versão editada por Michael Gomes é exatamente aquele que o Blavatsky News aponta.


sábado, 22 de dezembro de 2012

Amor e Luz


Uma vivência espiritual é sempre algo muito pessoal. Faz parte do nosso mundo interior que nem sempre é fácil de definir verbalmente. É como tentar explicar uma música por palavras, sem que o nosso interlocutor a tenha escutado.


Ainda assim, deixo aqui um relato de uma experiência que aconteceu a uma amiga, há cerca de 6 anos atrás:

“Sou uma pessoa comum, alguém que procura encontrar o seu caminho, com altos e baixos como qualquer humano. Momentos transcendentes podem acontecer a pessoas simples, comuns, com tristezas e alegrias, com problemas e conflitos normais do dia a dia. Não é preciso ser perfeito para que isso aconteça. Basta ser humano e estar aberto para saber aceitar essas vivências. E sobretudo, conservar a humildade de perceber que o que recebemos é como o dom do Sol que brilha para todos. Não nos torna mais especiais diante de ninguém. Apenas gratos por ter acontecido.





Já havia lido sobre as experiências de amor e luz que certas pessoas vivenciam em momentos perto da morte. Mas ler e viver são duas coisas completamente distintas.


Quando aconteceu comigo, foi algo tão espontâneo e natural que me surpreendeu completamente. Não se tratou de algo desencadeado por meditação, trauma ou acidente. Foi como uma prenda ao acordar de manhã, depois de um sono comum.


Estava num estado, provavelmente, alterado de consciência, sem qualquer indução da minha parte. Não era algo esperado, ou provocado conscientemente.


Curiosamente, no início, um misto de comoção e de sentimento de não merecer tomaram conta de mim. Parecia-me demasiado intenso e que não seria digna de tal experiência. Analisando todo o processo, percebo que o ser humano nem sempre está disponível para receber a graça que lhe está destinada.





Amor sente-se. A Luz vê-se. E foi assim que aconteceu, em simultâneo. Um Amor que é cheio de Luz. Uma Luz clara cheia de Amor que caía sobre mim como uma cascata, com pequenos pontos dourados e brilhante. Era como se todo o meu ser fosse inundado de Amor profundo, e todas as minhas células banhadas por essa Luz maravilhosa. Não há palavras para descrever.


Compreendi, nessa hora, o que é estar ligada a uma Fonte de Amor inesgotável. Porque o Amor, quando preenche um Ser não permite a escolha de amar. Amar é única coisa que podemos fazer, deixa de ser uma escolha que nos esforçamos por atingir, porque a nossa natureza se transforma em plenitude amorosa. Amamos porque essa se torna a nossa realidade. O medo deixa de existir, não é possível sermos ofendidos por alguém. Não é preciso perdoar, porque o Amor preenche tudo e não existe uma réstia de rancor ou mágoa. Tudo isso desaparece. Tornamo-nos cálices do Amor e a nossa função é transbordar. E transbordamos naturalmente. Compreendi que essa é que é a verdadeira Sagrada Comunhão. Receber o Amor /Luz e transbordar é o propósito da nossa maravilhosa essência espiritual.





Por isso é que um Mestre ama sem esforço nenhum. Não há esforço nesta dimensão do Amor. Ciente das limitações humanas, a pessoa com algum grau de espiritualidade esforça-se por alcançar um amor cada vez mais incondicional. Tal provém da louvável intenção que temos de melhorar enquanto seres humanos, mas o Amor total não precisa sequer de intenções. É demasiado poderoso e infinito. É a bússola que norteia os passos do ser humano em crescimento.”

sábado, 15 de dezembro de 2012

Sita sings the Blues

O Ramayana é um dos grandes épicos indianos a par do Mahabharata. Sabe-se que é muito antigo, mas ignora-se exatamente a altura em que foi escrito. Há quem aponte para 500 a 100 anos A.C. como a data em que Valmiki a redigiu, mas a história em si é muito mais antiga. O quão, não se sabe exatamente.

O Ramayana conta a história de Rama, um avatar (ou seja uma encarnação, ou mais corretamente uma manifestação de uma divindade na Terra) de Vishnu. Rama era filho mais velho do rei Dasharatha que governava o reino de Ahodhya. Rama contava suceder ao pai, mas uma das mulheres do rei fez com que Rama e a sua esposa Sita fossem expulsos do palácio. Viviam na floresta quando Ravana, o rei malvado de Lanka decidiu raptar Sita, famosa pela sua beleza e encanto. Surge então em cena Hanuman, o símio herói que vai ajudar Rama a recuperar a sua esposa, indo até Lanka e destruindo o exército de Ravana, antes de resgatar Sita. Hanuman pede à princesa que faça um teste de fogo para confirmar a sua pureza, que ela passa com sucesso. Rama volta então a Ahodhya e é coroado rei. Porém rumores corriam que manchavam a pureza de Sita...

Rama encontra-se com Hanuman

Aqueles que quiserem descobrir o fim da história, têm a oportunidade de fazê-lo vendo o excelente filme animado de Nina Paley lançado em 2008. Nina conta o Ramayana de forma bastante original e divertida em “Sita Sings the Blues”, que está disponível para visualização gratuita aqui. O filme tem uma cotação de 7,6/10 no IMDB, tendo recebido diversos prémios.

No YouTube, há uma versão com legendas em português...


N' "A Doutrina Secreta", Blavatsky escreveu o seguinte sobre o Ramayana:



“Toda a história desse período [período final da raça Atlante e inicial da nossa raça, em que se dava uma luta entre os Adeptos de ambas as raças] está alegoricamente contada no Ramayana, que é a versão mística, em forma de epopeia, da lua entre Rama (o primeiro rei da Dinastia Divina dos primitivos arianos) e Ravana, personificação da Raça Atlante (de Lanka). Os primeiros eram as encarnações dos Deuses Solares; os segundos, as dos Devas lunares. Esta foi a grande batalha entre o Bem e o Mal, entre a Magia Branca e a Magia Negra, pela supremacia das forças divinas sobre as forças inferiores ou cósmicas.“ (vol. IV da edição em português, p.62)

Na página seguinte, HPB dá uma das chaves “que decifram os setes aspetos do Ramayana (…), a chave metafísica.”

Ao longo da Doutrina Secreta existem outras referências à história ou a personagens deste grande épico indiano. Também nos Escritos Reunidos se encontram outras menções, como por exemplo aqui e aqui.

Um livro menos conhecido de Blavatsky é “O país das montanhas azuis”, um relato sobre as curiosas tribos que viviam nas montanhas do Nilguiri, localizadas no estado de Tamil Nadu, sul da Índia. Escreve ela a certa altura: 



“Quando penso no Ramayana confesso jamais ter compreendido o motivo que levou os historiadores a situar em planos tão diferentes essa obra e os poemas de Homero. Pois segundo meu parecer seu caráter é quase idêntico. Por certo nos dirão que todo sobrenatural é igualmente excluído da Ilíada, da Odisséia e do Ramayana. No entanto por que nossos sábios aceitam quase sem vacilação os personagens históricos de Aquiles, Heitor, Ulisses, Helena e Páris e relegam à categoria de “mitos” vazios as figuras de Rama, Lakshmana, Sita, Ravana, Hanuman e até o rei de Ahodhya?(...)



Schliemann achou provas sensíveis da existência de Tróia e de suas personagens atuantes. A antiga Lanka (Ceilão) e outros lugares mencionados no Ramayana poderiam ser igualmente achados, se se empenhassem em procurá-los. E, sobretudo não se rejeitaria com tanto desprezo em seu conjunto os relatos e as lendas dos brâmanes e panditas...


Aquele que lesse uma só vez o Ramayana poderia convencer-se, rejeitando as inevitáveis alegorias e símbolos num poema épico de caráter religioso, de que existe a possibilidade de achar nele um fundo histórico, evidente, irrefutável.

O elemento sobrenatural num relato não exclui a matéria histórica. Assim ocorre no Ramayana. A presença nesse poema de gigantes e demônios, de macacos faladores e animais empenados e de sábio discurso não nos dá o direito de negar a existência, na mais remota antiguidade, nem de seus mais destacados heróis nem sequer dos“macacos” do inumerável exército. Como saber com imutável certeza o que os autores do Ramayana tinham precisamente em vista sob as denominações alegóricas de “macacos” (em muitas páginas do Purana os relatos se referem a esses mesmos reis, com os mesmos nomes dos reinos empregados no Ramayana, mas nas narrações a palavra “macaco” é substituída pela de homem) e de gigantes?”


Uma imagem de Sita no filme de Nina Paley

Mais adiante:

“Sabemos que o Ramayana não é um conto de fadas, como se acredita na Europa; possui um sentido duplo, religioso e puramente histórico, e só os brâmanes iniciados são capazes de interpretar as complexas alegorias desse poema.”


De referir que existe uma tradução para português de "O país das montanhas azuis" disponível na internet. Mas é um pouco ruim...

sábado, 8 de dezembro de 2012

Cloud Atlas


Estreou no passado dia 29 de novembro em Portugal, a película “Cloud Atlas”, baseada no livro homónimo do britânico David Mitchell (lançado em 2004 e traduzido em Portugal em 2007 com o título “Atlas das Nuvens”).


O filme tem um enredo particularmente cativante para os espiritualistas (no sentido mais lato e filosófico do termo), mas na verdade ele pode constituir um valioso instrumento de reflexão para aqueles mais alheios ao questionamento sobre o sentido da vida.



Não queria desenrolar muito o novelo da história, para os que ainda não tiveram oportunidade de ver o filme (nem de ler o livro, que já adquiri mas também ainda não li), mas basicamente tudo começa algures no Pacífico Sul, na ilha de Chatham por volta de 1850. Aí encontramos um viajante forçado a atravessar o oceano Pacífico. Saltamos depois para um jovem compositor deserdado, apaixonado por outro homem, e que tenta alcançar a fama numa época algures entre a 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Outra linha narrativa ocore nos anos 70, onde uma jornalista com princípios morais arrisca a vida na Califórnia à conta de uma investigação. Há também uma história contemporânea de um editor menor britânico que tenta fugir dos seus credores mafiosos. Saltamos para o futuro com o testamento de uma “criada de restaurante” geneticamente modificada e terminamos (em termos de sequência temporal) com a a história de Zachry, um jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da Ciência e da Civilização.

Capa do livro editado pela primeira vez
em Portugal pela D. Quixote


Como se interligam todas estas histórias? Como são escutados os ecos das ações de cada um deles ao longo da História?

É essa descoberta que o espetador irá fazer nas quase três horas de duração do filme, sendo natural que se sinta um pouco perdido no primeiro terço do filme, enquanto tenta perceber as várias linhas de narrativa e fixar as caras dos diferentes personagens. A pouco e pouco vai montando o puzzle. ao mesmo tempo que é convidado a refletir sobre alguns dos dilemas e anseios da espécie humana.


“Cloud Atlas” tem na minha opinião o defeito de ter demasiadas cenas de ação “à la Matrix”, não fossem dois dos três realizadores os manos Wachowski (o terceiro é Tom Tykwer), criadores da referida trilogia.

Será o preço pagar por podermos ter um filme de grande qualidade, que permite refletir um pouco mais sobre as leis do karma e reencarnação e não só. Os horizontes do filme são vastos e as discussões que pode levantar são infinitas.



No entanto, a receção tem sido mista, uns adoram e outros detestam. Até os críticos do Jornal Público servem de exemplo para o que referi; um deles deu quatro em cinco estrelas e o outro apenas uma.
Em termos comerciais o filme não correu muito bem nos EUA e será difícil recuperar o investimento feito. Em muitas salas norte-americanas o filme não passou das duas semanas (apesar de ter 8,2/10 no IMDB.com).



Não tenho dúvidas que se tornará um filme de culto e é natural que no meio new-age se popularize, especialmente quando chegar o DVD. 

Mesmo assim o espetáculo visual justifica uma ida ao cinema. E é essa razão que me levou a escrever este post um pouco à pressa. É essencialmente um apelo para irem ao cinema antes que "Cloud Atlas" desapareça das salas portuguesas. Garanto que não se vão arrepender.



Apenas surgirá o desejo de vê-lo uma vez mais (no mínimo).

Uma nota final para os irmãos brasileiros; o filme estreia nesse país dia de Natal, com o nome "A Viagem".

Aqui fica o trailer com legendas em português.


sábado, 1 de dezembro de 2012

Mahatma do Himavat (3ª parte)


Com este post, termina a tradução de "Mahatma do Himavat", um texto publicado originalmente no blog "Theosophy Watch".

Protegido

"Descansei para me recompor. Depois de um bom sono,  imperturbado por qualquer sonho, eu acordei e percebi que estava prestes a amanhecer. Então muito rapidamente calcei as minhas botas, e cautelosamente sai da cabana através da mesma janela. Eu podia ouvir o ressonar dos proprietários da cabana no quarto ao lado.

Mas eu não perdi tempo e meti-me no caminho para a cidade de Siquim e mantive-me nele com um zelo inabalável. Desde as profundezas do meu coração eu agradeci ao meu reverenciado guru pela protecção que ele me concedeu durante a noite.

Nicholas Roerich - "He Who Hastens"

O que impediu os proprietários da cabana de entrar no segundo quarto? O que é que me manteve num espírito calmo e sereno, como se eu estivesse num quarto da minha própria casa? O que é que me fez dormir tão profundamente sob tais circunstâncias, com enormes e escuras florestas a me rodearem, abundantes em bestas selvagens e com um grupo de cortadores de gargantas – como se diz que são os naturais de Siquim – no quarto ao lado com uma porta tosca e insegura entre eles e eu?....

O encontro

Era, penso eu, entre as oito e as nove da manhã e eu seguia a estrada para a cidade de Siquim, de onde, me foi garantido pelas pessoas que eu encontrava na estrada, eu poderia atravessar para o Tibete muito facilmente com o meu traje de peregrino, quando eu subitamente vi um cavaleiro solitário a galopar para mim vindo da direcção oposta.  Pela sua alta estatura e pela perícia com que ele controlava o animal, eu pensei que ele era algum funcionário militar do Rajá de Siquim.

Mahatma M.


Agora, pensei eu, fui apanhado! Ele vai me perguntar pela minha autorização e qual o assunto que eu tenho a tratar no território independente do Siquim, e, provavelmente, me prender – e me mandar de volta, senão pior. Mas, enquanto ele se aproximava, puxava as rédeas do cavalo. Eu olhei para ele e reconheci-o de imediato…Eu estava na augusta presença dele, do mesmo Mahatma, o meu reverenciado guru a quem eu tinha visto antes no seu corpo astral, na varanda da sede da Sociedade Teosófica!…

No mesmo instante eu me prostrei no chão aos seus pés. Ergui-me por sua ordem e, olhando calmamente para a sua cara, eu perdi completamente noção das coisas na contemplação de uma imagem que eu conhecia tão bem…Não sabia o que dizer: alegria e reverência prendiam a minha língua.

Mahatma do Himavat

A majestade do seu rosto, que me pareciam a personificação de poder e do pensamento, mantinham-me arrebatado em admiração. Eu estava por fim cara a cara com o Mahatma do Himavat [NT: Himavat é outro nome para os Himalaias e uma figura da mitologia hindu] e ele não era um mito, nenhuma “criação da imaginação de um médium”, como sugeriam alguns cépticos.

Não se tratava de nenhum sonho nocturno, era por volta das nove, dez horas da manhã. Brilhava o Sol, que silenciosamente testemunhava a cena do alto. Eu vejo-O perante mim em carne e osso e ele fala-me com um tom de bondade e gentileza. O que mais posso querer? O meu excesso de contentamento fez-me emudecer.  



Alguns momentos depois eu fui levado a articular algumas palavras, encorajado pelo seu discurso e tom gentil. A sua aparência não é tão formosa como a do Mahatma Koot Hoomi, mas eu nunca tinha visto um semblante tão belo, e uma figura tão alta e imponente.

Como no seu retrato, ele tem uma barba preta curta, e longos cabelos pretos pendendo até ao peito. Apenas a sua roupa era diferente. Em vez de manto solto branco, ele usava um manto amarelo, forrado com pele, e, na sua cabeça…um boné Tibetano de feltro amarelo.



Tive uma longa conversa com ele. Ele disse-me para não ir mais longe, pois eu iria me arrepender. Ele falou que eu deveria esperar pacientemente se eu quisesse ser um chela aceite e que muitos foram aqueles que se ofereceram como candidatos, mas que muito poucos foram considerados dignos. Nenhum foi rejeitado, mas todos eles tentaram e maioria falhou rotundamente…Eu perguntei ao bendito Mahatma se eu poderia contar o que tinha visto e ouvido a outros. Ele respondeu afirmativamente, e que além isso eu faria bem em escrever para você e em descrever tudo”.

Himalaias

Este vídeo foi retirado da BBC. Todas as músicas foram compostas por Rachel Scott-gravado em Townie Productions Weymouth.





"Todos os homens sonham, mas não da mesma forma. Os que sonham de noite, nos recessos poeirentos das suas mentes, acordam de manhã para verem que tudo, afinal, não passava de vaidade. Mas os que sonham acordados, esses são homens perigosos, pois realizam os seus sonhos de olhos abertos, tornando-os possíveis. "

T.E. Lawrence

sábado, 24 de novembro de 2012

Mahatma do Himavat (2ª parte)

Continuamos com a tradução do post do blog "Theosophy Watch" intitulado "Mahatma do Himavat".


A aventura de Damodar


Damodar


Tal como Asanga, o pioneiro da Teosofia, Damodar K. Mavalankar também desejava ver o seu guru e fê-lo com sucesso, apesar disso quase ter custado a sua vida, conforme ele próprio contou:

“Eu nunca parei para pensar no facto de que aquilo que eu iria realizar seria considerado como um acto irreflectido de um lunático. Nunca tinha proferido ou entendido uma única palavra de Bengali, Urdu ou Nepalês, nem das línguas do Butão ou do Tibete. Eu não tinha permissão, nenhum “passe”…e porém eu estava decidido a penetrar no interior de um estado independente onde, se acontecesse alguma coisa, os funcionários Anglo-Indianos não iriam – mesmo que pudessem – proteger-me, pois eu teria atravessado a fronteira sem a sua autorização."

Nicholas Roerich, "From Beyond"

Ligado ao guru

"Mas eu nunca sequer pensei nisso nem por um instante, pois estava apenas inclinado para uma ideia fascinante – encontrar e ver o meu guru. Sem soprar uma palavra sobre as minhas intenções a ninguém, uma manhã, mais concretamente, a 5 de Outubro, eu parti em busca do Mahatma. Eu tinha um guarda-chuva, os apetrechos de um peregrino solitário, e ainda algumas rupias na minha bolsa. Vestia um traje amarelo e um barrete. Sempre que estava cansado da estrada, adquiria por uma pequena quantia um pónei para montar.”


“Na mesma tarde eu atingi as margens do rio Rangit [NT: Um rio turbulento que nasce nos Himalaias], que marca a fronteira entre os territórios britânico e do Siquim.

Eu tentei atravessá-lo através da ponte área suspensa construída com canas, mas esta balançava de um lado para outro de tal forma, que eu, que nunca em vida tinha conhecido tamanha dificuldade, não me conseguia manter de pé. Eu atravessei o rio através do ferry-boat, não sem grande perigo e dificuldade."


“Toda aquela tarde eu viajei a pé, penetrando cada vez mais no interior do território do Siquim, através de um trilho estreito. Ao longo dele, eu não via nada senão matas impenetráveis e florestas de ambos os lados, entrecortadas em longos intervalos por cabanas que pertenciam aos povos das montanhas.”


Leopardos, gatos selvagens e salteadores!


“Ao anoitecer eu comecei a procurar por um lugar para descansar. Eu tinha encontrado, durante a tarde, um leopardo e um gato selvagem, e espanta-me agora pensar em como na altura não senti medo nem pensei em fugir. Nessa altura, alguma influência secreta me apoiou.

Medo ou angústia nunca entraram na minha mente.

Talvez no meu coração não houvesse espaço para outro sentimento que não fosse um intenso anseio em encontrar o meu guru.”

“Quando estava a escurecer, eu avistei uma cabana solitária a poucos metros da berma da estrada. Dirigi-me para lá na esperança de encontrar alojamento. A áspera porta estava fechada. A cabana estava desocupada no momento. Eu inspecionei a porta de todos os lados e encontrei uma abertura do lado ocidental. Era de facto uma abertura pequena, mas suficiente para eu conseguir entrar. Tinha um pequeno obturador e um parafuso de madeira. Por uma estranha coincidência de circunstâncias, o montanhês tinha-se esquecido de atarraxá-lo do quando trancou a porta!"


“Claro que, depois do que aconteceu posteriormente agora eu, aos olhos da fé, vejo a mão protectora do meu guru em todos os lugares ao meu redor. Depois de entrar lá dentro vi que o quarto comunicava, através de uma pequena porta, com outro aposento, os dois ocupando todo o espaço desta habitação silvestre. Eu deitei-me concentrando todos os pensamentos, como habitualmente, no meu guru e rapidamente caí num sono profundo. Antes de ir descansar, eu tinha fechado bem a porta do outro quarto e a única janela."

Olhando fixamente para a escuridão

“Seriam entre as dez e as onze horas, ou talvez um pouco mais tarde, quando eu acordei e ouvi sons de passos no quarto adjacente. Eu conseguia distinguir claramente duas ou três pessoas falando juntas num dialecto que para mim era apenas algaraviada.

Mas, eu não me consigo recordar do momento sem um arrepio. A qualquer momento eles poderiam ter entrado no outro quarto e assassinarem-me para roubarem o meu dinheiro. Caso eles me confundissem com um ladrão, destino idêntico me aguardaria. Estes e outros pensamentos semelhantes aglomeravam-se na minha cabeça durante um período inconcebivelmente curto.“



“Mas o meu coração não palpitava amedrontado, nem eu, fosse por um momento, pensava nessa possibilidade trágica! Eu não sei que influência secreta me segurava, mas nada me conseguia afastar ou amedrontar. Eu estava perfeitamente calmo. Embora ficasse acordado olhando a escuridão por mais de duas horas, e ainda rondasse pelo quarto suave e lentamente, sem fazer qualquer barulho, para ver se conseguiria escapar de volta para a floresta (caso isso fosse necessário), do mesmo modo como tinha entrado na cabana, nunca o medo, repito, ou qualquer outro sentimento do género alguma vez entrou no meu coração."

Termina na próxima semana...

sábado, 17 de novembro de 2012

Mahatma do Himavat (1ª parte)


Desde que a existência dos Mestres foi anunciada ao Mundo, na alvorada do movimento teosófico moderno, algumas vozes mesmo dentro do pequeno universo de teosofistas têm mostrado o seu cepticismo. Afinal acreditar em homens que adquiriram poderes especiais e transmitem conhecimentos ocultos a uns quantos eleitos é para alguns sinónimo de credulidade atroz. 

Num post anterior sobre “A Ética de Helena Blavatsky”, coloquei alguns links para a discussão entre K. Paul Johnson por um lado e David Pratt e Daniel Caldwell por outro. O primeiro acha que os Mahatmas M e KH são uma criação de Helena Blavatsky com base em figuras contemporâneas com quem se cruzou, no que foi contestado por Pratt e Caldwell, que alegam que Johnson trata suposições como factos.

Contudo a ideia de traduzir mais este post do blog “Theosophy Watch” de Odin Townley nasce exactamente de uma discussão na comunidade Theosophy.net intitulada “Where are the Masters?” . Após meses de mensagens explícita ou implicitamente deturpadoras do trabalho de Helena Blavatsky tentei focar alguns pontos importantes numa altura em que curiosamente em simultâneo Townley colocava o post “Mahatma do Himavat”.

Embora aqui no Lua em Escorpião esteja dividido em três partes, o texto do “Theosophy Watch” pode ser decomposto em duas partes. A primeira metade é uma história onde o protagonista é Asanga, um monge nascido no actual Paquistão, ligado à fundação da escola Budista Yogacara. A segunda parte é o relato de Damodar Mavalankar à procura do seu mestre. Damodar foi um elemento importante durante o tempo em que HPB esteve na Índia. Em 1885, com 28 anos de idade partiu para o Tibete e nunca mais se soube dele.

Seguimos então para a tradução.

“Asanga desistiu. Doze longos anos de meditação e de práticas espirituais e ainda continuava sem uma visão do futuro Buda Maitreya.



Ele ansiava ligar-se a Maitreya para receber ensinamentos de forma directa, algo que poderia acelerar o seu progresso no caminho do Bodhisattva.

“Cada novo Bodhisattva, ou Grande Adepto Iniciado é chamado de 'libertador da humanidade'", explica Helena Blavatsky em “A Voz do Silêncio”  [nota 27 da p.84 da edição em português, da Pensamento e 120 (p.34) da tradução feita por Carlos Cardoso Aveline, a que se pode aceder através do link anterior].

“Agora inclina a cabeça e escuta bem, ó Bodhisattva – diz a Compaixão: Pode haver bem-aventurança quando deve sofrer tudo o que vive? Quererás salvar-te ouvindo todo o mundo chorar?”, escreveu ela  [p.90, op.cit. e p.38 da tradução de Aveline]

Asanga


Depois dos primeiros três anos de práticas espirituais sem sucessos, Asanga deixou a sua gruta solitária, desmotivado. Mas quando ele viu um pequeno pássaro dando bicadas num buraco numa rocha para lá construir um ninho, ele sentiu-se envergonhado com a sua falta de persistência. Voltou então à sua gruta.


Três anos depois, Asanga desistia outra vez. Ao descer as montanhas, ele conheceu um homem que esfregava uma coluna de ferro com um pano para fazer agulhas. Quando o homem lhe mostrou algumas agulhas que tinha conseguido fazer dessa maneira, Asanga baixou a cabeça e voltou para as montanhas.

Himalaias



A descoberta da compaixão


Depois de outros três anos de esforços inúteis, Asanga abandonou novamente o seu retiro. Mas quando ele viu um homem abrindo um canal através de uma rocha usando uma enxada, ele voltou para onde estava por mais três anos.


Terminado esse tempo, Asanga estava mesmo farto. Ia deixar a montanha de vez. Quando se dirigia para uma cidade, ele encontrou uma cadela contorcendo-se com dores pois ela estava coberta de úlceras repletas de vermes. Uma grande compaixão brotou de dentro dele.
Mas agora Asanga tinha um dilema: se ele removesse as larvas à mão, ele matá-las-ia, mas se ele não o fizesse, a cadela morreria.


Ele foi até à cidade e trocou o que tinha por uma faca dourada e voltou para perto da cadela. Cortando carne da sua própria coxa, Asanga tinha assim comida para dar às larvas e preparou-se para retirar as larvas da cadela com a sua boca.

Ao se inclinar para a frente para iniciar o processo, a cadela desapareceu e o Senhor Maitreya apareceu de repente. Lágrimas brotaram dos olhos de Asanga enquanto Maitreya explicava : “O pássaro, os dois homens e a cadela, eram Eu, Maitreya, o teu guru”.


Maitreya explicou que era o carma de Asanga e a sua falta de clarividência que o tinham impedido de ver o seu guru durante todos aqueles anos. Estes obstáculos foram completamente varridos pelo poder da sua compaixão pela cadela em sofrimento.

Para provar isto mesmo, Maitreya instruiu Asanga para transportá-lo às costas enquanto atravessava a cidade. Apesar dele perguntar às pessoas o que é que estava nas suas costas, toda a gente respondia: “nada”. Um mulher idosa, porém, devido aos seus esforços para purificar o seu próprio carma viu a cadela. Asanga por fim percebeu o poder ilimitado da compaixão para a transformação.


“O Carma é uma tendência do universo no sentido de restaurar o equilíbrio; e opera incessantemente, sem desvios e sem erros“, escreveu William Judge (Aforismos sobre o carma):

“A aparente interrupção na restauração do equilíbrio se deve ao ajustamento necessário da perturbação em algum outro ponto, lugar, ou foco, que é visível apenas ao Iogue, ao Sábio, ou ao perfeito Observador. Portanto, não há interrupção, mas apenas um ocultamento do campo de visão.“

Maitreya então levou Asanga para o seu paraíso Tushita e iniciou um processo intensivo de ensino, fornecendo textos a Asanga para fundar a escola budista de Yogacara no séc. IV da nossa era.

“O reconhecimento por parte de um guru virá quando estiveres preparado”, explica Judge (Letters That Have Helped Me, vol. II).

“É apenas natural que um estudante espere pelo reconhecimento por parte de um Mestre, mas este desejo deve ser posto de lado, devendo cada um trabalhar naquilo que tem de ser feito. Ao mesmo tempo sabe-se que o efeito segue-se à causa, portanto aquilo que nos é devido, chegará na altura certa”.

Continua na próxima semana...

domingo, 11 de novembro de 2012

Um ano de Lua em Escorpião


Faz hoje exatamente um ano que nasceu o blog Lua em Escorpião, na curiosa data de 11 de novembro de 2011.


Durante cerca de dois meses pouco se deu por ele. Era apenas um tubo de ensaio onde com a ajuda da escrita se procurava sedimentar conhecimentos e desenvolver método de pesquisa. Os autores pouco se preocupavam com a divulgação. Mas depois há sempre aquela vontade em partilhar, e sendo os conteúdos em português sobre Teosofia (salvo os sites ligados ao Filosofia Esotérica e a página do Centro Lusitano de Unificação Cultural) e Astrologia (que não a moderna) não muito abundantes, fez-se um pequeno esforço para se dar a conhecer o Lua em Escorpião. Além da criação de uma página no Facebook, os textos são também carregados no Scribd, o que provocou um aumento muito significativo no número de leituras dos posts.

Mas isso continua a não ser o fundamental. A estratégia do Lua em Escorpião é simplesmente coligir um conjunto de ideias ou perspetivas de fontes que considera muito válidas, dando a possibilidade aos leitores de investigar por sua própria conta para que estes possam tirar as suas próprias conclusões. Neste sentido a melhor notícia do ano foi a possibilidade de traduzir os conteúdos do Theosophy Watch (de quem o Lua em Escorpião passou a seguir um modelo de texto muito próximo, intercalando os textos com imagens e vídeos) e do Exploring Theosophy. Estes dois sites são talvez aqueles que melhor conseguem continuar o trabalho de Helena Blavatsky, relacionando a  Teosofia com o mundo que nos rodeia, principalmente com os avanços da ciência (algo que já dizia um dos Mahatmas a Sinnett era fundamental) . Trazer estes conteúdos para o português é por isso na minha opinião bastante útil.

O Lua em Escorpião advoga também uma visão aberta e sem dogmatismos dos temas que aborda, revendo-se no tipo de discussão que acontece na comunidade Theosophy Nexus.

Ficam aqui os links diretos para os sete textos mais lidos neste primeiro ano:



Uma última nota para referir que a partir de hoje, e como a maior parte dos leitores é do Brasil, o blog passa a adotar o novo acordo ortográfico.

sábado, 3 de novembro de 2012

O caminho do meio


Escreveu António Machado, o poeta sevilhano, que “o caminho faz-se caminhando”.

Frase de sentido profundo, já a vi, bastas vezes repetida pelos gurus de plástico, que a usam para mostrar profundidade de pensamento, ou para disfarçar a falta dele.

Não deixa contudo de ser verdade que o estudante de Teosofia, à medida que avança nas suas leituras e reflexões tende a ganhar novas perspetivas não só sobre os diversos temas, mas também sobre a forma como aborda esses mesmos assuntos.

Há dias, numa troca de ideias que testemunhei no mais novo fórum de internet sobre Teosofia, o Theosophy Nexus, abordou-se a questão sobre a atitude do estudante perante a literatura.

No grupo de Estudos d’”A DoutrinaSecreta”, foi usada numa das lições, um texto do teosofista B.P. Wadia (um grande dinamizador da Loja Unida dos Teosofistas entre 1922 e 1958, ano em que faleceu). Nesse texto Wadia escreve sobre a atitude perante as ideias e literatura teosóficas:

B.P. Wadia


“Os crentes cegos prestam-lhe um mau serviço [a Helena Blavatsky] quando por exemplo ou por instrução desencorajam a atitude do questionamento crítico. É nossa a missão de examinar e contra-examinar esta testemunha [H.P.B.] do Mundo Oculto dos Adeptos Antigos; é nossa a tarefa de tentar quebrar as provas apresentadas e de encorajar os outros a fazê-lo. Se afirmações como as de cima [NT: referindo-se a estas 9 afirmações de HPB] não forem provadas os homens e mulheres honestos devem rejeitar esta “mensageira” e deitar ao fogo devorador as suas falsidades e fraudes. Se estes ensinamentos não tiverem sustentação, então pelas suas próprias afirmações, pelo seu próprio exemplo, e de acordo com os seus próprios ditames, ela e a sua “síntese de ciência, e religião e filosofia” são nada mais que um disparate.

Como ela própria escreveu: “É porém a opinião pessoal da autora, e não se pode esperar que a sua ortodoxia tenha mais peso que outra “doxia” qualquer, aos olhos daqueles para quem uma teoria nova é sempre heterodoxa até prova em contrário.” (A Doutrina Secreta, vol.III,p.456,Ed. Pensamento)



Continua Wadia: “Conhecimento e não crença foi o que H.P.Blavatsky nos trouxe. Se o mundo do conhecimento não examina os seus ensinamentos em maior extensão é porque os seus muitos seguidores são habitantes do mundo da crença; e atente-se, mesmo um grande número dos que adoptam a mesma denominação do seu sistema de pensamento, revelam uma ignorância crassa sobre o mesmo.”

Não raras vezes se encontram estudantes nos dois extremos. De um lado aqueles que têm uma visão demasiado estreita, usando os livros de Teosofia como uma espécie de Bíblia asfixiando o espaço para reflexão, e no pólo oposto aqueles que repudiam a utilidade dos livros e as instruções e ensinamentos daqueles mais avançados no caminho da iluminação, preferindo as ilações que retiram das suas experiências individuais, quase sempre minadas pela preponderância do eu inferior.

Como encontrar então um ponto de equilíbrio?

Nesta discussão no Theosophy Nexus, Nicholas Weeks, um conhecido teosofista ligado à tradição de Pasadena traz uma citação de uma carta de um Mestre que estava na posse de Judge e que está publicada nos Esoteric Teachings (vol.II, p.47), da autoria de Gottfried de Purucker, líder da Sociedade Teosófica de Pasadena entre 1929 e 1942. Weeks faz uma pequena introdução à passagem:

Gottfried de Purucker


“Apesar da tradicional importância dada à perspectiva intelectual ou doutrina de um qualquer sistema de pensamento, essa perspectiva pode não ser em última instância de muita importância. Mas em certa medida o é, portanto uma explanação clara e detalhada pode ser dada a uma pessoa “intelectual”. Contudo esta carta do Mestre (Dezembro de 1887) diz que as perspetivas mudam e não são tão importantes quanto a motivação e o anseio:

"Este [chela] tem, você diz, as perspetivas e a motivação correctas. Se o motivo dele é o correto então tudo está bem. As perspetivas dele não levam à mais pequena consequência, pois enquanto chela ele irá alterá-las conforme aprende a verdade, que apenas os verdadeiros estudantes dos mistérios encontram. É melhor ele não ter perspetivas fixas até mais adiante, mas deve estar pronto para a mudança à medida que ele segue o seu caminho. Tendo a motivação e a aspiração ele inevitavelmente entrará na primeira porta.”

Esta nota, deixada pelo Mestre M. foi encontrada nos arquivos da ST de Point Loma, com a  letra de W.Q. Judge (informações dadas por de Purucker) e parece-me ser de extrema importância reforçando o aspecto da ética e da conduta do aspirante espiritual. E explica o facto de existirem muitos estudantes com imensos conhecimentos, mas com comportamentos aquém das expectativas.

William Quan Judge

Não me parece que isto seja um convite ao cepticismo, mas sim um apelo à necessidade de reflexão sobre o que se lê, evitando a preguiça e a mera regurgitação de textos em dose massiva. Mas acima de tudo, é um alerta para o quão importante é a contínua auto-avaliação do aspirante espiritual, dos seus pensamentos e acções, das suas motivações.

Noutra lição, Weeks acrescenta:

"Confiar exclusivamente nos nossos eus insensatos é um disparate tão grande quanto confiar exclusivamente na autoridade. Ou posto de outra forma - a fé no nosso discernimento mais a fé nos Sábios é melhor que confiar em apenas um dos dois."


Uma nota final, para o TheosophyNexus, o fórum associado ao site “Universal Theosophy”. Ambos são excelentes e o que de melhor que se pode encontrar na forma como é tratada a Sabedoria Antiga. O Nexus tem os contributos regulares de Nicholas Weeks, Gerry Kiffe, Dan Noga e Jon Fergus entre outros, que elevam bastante o nível da discussão, sem paralelo comparativamente a outros fóruns que conheço. 

Aprende-se mesmo; não só se adquirem novos conhecimentos e perspetivas, como também os participantes são estimulados a refletir. A combinação dos dois factores é rara de encontrar, mas preciosa.